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	<title>Arquivo de Vide - Duas Linhas</title>
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	<description>Informação online</description>
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	<title>Arquivo de Vide - Duas Linhas</title>
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		<title>O INQUISIDOR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[José d'Encarnação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Apr 2023 10:54:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O nº 5 da Rua do Outeiro, na povoação de Vide, freguesia de Vila da Rua, concelho de Moimenta da Beira, identifica majestosa mansão de pedra. Dá-lhe acesso não menos majestoso portão, encimado por amplo lintel que ostenta mui misteriosa inscrição em latim. Quão misteriosa informação! Já veremos do mistério escondido no letreiro, porque, antes, [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2023/04/o-inquisidor/">O INQUISIDOR</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p><em>O nº 5 da Rua do Outeiro, na povoação de Vide, freguesia de Vila da Rua, concelho de Moimenta da Beira, identifica majestosa mansão de pedra.</em></p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/casarao-2.jpg" alt="" class="wp-image-25681"/></figure>



<p><em>Dá-lhe acesso não menos majestoso portão, encimado por amplo lintel que ostenta mui misteriosa inscrição em latim.</em></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/portao.jpg" alt="" class="wp-image-25680" width="493" height="689"/></figure></div>


<p><em>Quão misteriosa informação!</em></p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Já veremos do mistério escondido no letreiro, porque, antes, outro mistério há a desvendar.</p>



<p>É que o erudito Monsenhor António Bento da Guia, na pág. 203 da 3ª edição do seu livro<em> As Vinte Freguesias de Moimenta da Beira </em>(Viseu, Éden Gráfico, 2001), escreveu o seguinte:</p>



<p>«[…] encontramos Vide, hoje pequena aldeia que foi berço de nobreza e fé; aqui foi a primeira escola da Rua e residência do pároco até há poucos anos; lá encontramos vestígios do domínio romano, e também um portão nostalgicamente perdido da sua função e que serviu de entrada para a Capela da Universidade, como consta do letreiro».</p>



<p>À falta, aí, de outro portão com letreiro, pensamos que seja este o que Bento da Guia refere, até porque, de facto, as palavras ‘universidade’ e ‘conimbricense’ estão lá e isso poderia ter induzido monsenhor a atribuir-lhe tal honrosa função, porventura fazendo-se eco dalguma tradição oral que pela terra constasse.</p>
</div></div>



<p>Não lográmos saber, porém – pelas imagens compulsadas e pelas consultas feitas a quem da evolução arquitectónica do Paço das Escolas se ocupou – que portão desse jeito tivesse, um dia, estado ali, no coração da Universidade de Coimbra. Por outro lado, o letreiro nada conta a tal respeito.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><em><strong>O que diz o letreiro</strong></em></h2>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Em latim, pleno de siglas, nexos e abreviaturas, a inscrição reza assim:</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/portao-inscricao.jpg" alt="" class="wp-image-25682"/></figure>



<pre class="wp-block-verse">GLORIA MVNDI &nbsp;EST VANITAS VANITATV[M …] 
AN(<em>no</em>) MDCIIC RENOVATVM A CARVLO BOT(<em>elho</em>) OZ(<em>orio</em>) IVR(<em>is</em>) CAN(<em>onici</em>) TECTV
PROFESSORE HIC DEM VIXERE PARENTES ALIOS EORVM ETIAM 
DECORATVS AB VNIVERSITATE CONIMBRIC(<em>ensi)</em></pre>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Abre o texto com a muito conhecida frase do <em>Eclesiastes</em>, segundo a qual a glória do mundo é a vaidade das vaidades. Ou seja: a intenção da sua inclusão é a de mostrar desapego dos bens materiais, das honrarias, por não passarem de coisas supérfluas. Um começo que, atendendo ao que vem a seguir, constitui – ou pretende constituir – um sinal de desprendimento em relação aos bens materiais, de que a mansão poderia ser considerada testemunho.</p>



<p>Explicita-se, depois, o que aconteceu:</p>



<p>«Restaurado, no ano de 1698, por Carlos Botelho Osório, professor formado em Direito Canónico, para aqui também viverem outros parentes deles. Também condecorado pela Universidade de Coimbra».</p>



<p>Dir-se-á, desde logo, que esta é uma tradução mais ao sentido do que literal, uma vez que esta, a tradução literal, tendo em conta os anómalos casos latinos, se afigura deveras estranha.</p>



<p>Parece, no entanto, claro o seguinte:</p>



<p>– Carlos Botelho Osório formou-se em Direito Canónico e poderá ter sido louvado ou homenageado pela Universidade de Coimbra;</p>



<p>– no ano de 1698, por sua iniciativa se terá restaurado esta mansão, a fim de que nelas vivessem os seus parentes e respectiva descendência.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>A fraseologia latina não obedece, porém, aos cânones estabelecidos e à concordância normal, donde pode deduzir-se que não terá sido Carlos Botelho Osório quem mandou gravar o letreiro, mas sim, mui provavelmente, os seus familiares, inclusive para garantirem a posse do imóvel.</p>



<p>Será interessante, para esse efeito, proceder-se a uma pesquisa nas matrizes prediais, susceptíveis de nos proporcionarem, a esse propósito, alguns esclarecimentos.</p>



<p>E acrescente-se que se nos afigura serem posteriores os signos (indecifrados) que estão no final da linha 1; e que, no fim da inscrição, o indefinível signo ali patente pode ser apenas a indicação de que o texto acabou.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/04/portao-inscricao-zoom-in.jpg" alt="" class="wp-image-25685"/></figure>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Diga-se, ainda, que, tendo falado com os atuais proprietários, Manuel e Marina Podence (ausentes no estrangeiro), a quem agradecemos a permissão do estudo, assim como com os anteriores, que também haviam comprado a&nbsp;casa, todos nos referiram não terem conhecimento de alguém com esse nome de Carlos Botelho Osório. <em>Quem foi, então, o senhor?</em></p>



<p>Nós, porém, tivemos oportunidade de saber algo mais acerca do personagem em questão, por haver sobre ele, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, uma diligência de habilitação: o manuscrito, com o código de referência PT/TT/TSO-CG/A/008-002/1093 (lançado a f. 30 v.), datado de Lisboa, a 14 de Março de 1704, que o doutor Saul Gomes teve a gentileza (que muito agradecemos) de no-lo ler.</p>



<p>Aí, Carlos Botelho Osório identifica-se como solteiro, «beneficiado», natural de Vide, concelho de Caria, freguesia da Rua, bispado de Lamego, «filho legítimo de Manuel Botelho de Afonseca e de sua mulher, Domingas d&#8217;Aguiar, naturais do dito lugar de Vide; neto, pela parte paterna, de Álvaro Pires, do dito lugar, e de Violante de Barros, da dita Vila da Rua; neto, pela parte materna, de Francisco Antunes e de sua mulher, Gracia de Paiva, esta do dito lugar de Vide e aquele do lugar da Faya, freguesia de S. Martinho do mesmo bispado».</p>



<p>E que consta nesse requerimento?</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Declara o ‘suplicante’ que «está habilitado para os lugares da justiça pelo Desembargo do Paço e se acha com os requisitos de servir ao Santo Ofício no cargo de familiar, e na vila donde o suplicante é, não há familiar algum, a qual tem de termo vinte e dois lugares, e só em todo ele há um familiar».</p>



<p>Atendendo a essas mui favoráveis circunstâncias, considera que está em condições de pedir «a V. Ilustríssima seja servido admitir o suplicante ao dito cargo precedendo as informações necessárias».</p>



<p>Mais se solicita: que «os inquisidores de Coimbra informem com o seu parecer».</p>
</div></div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Em suma</strong>:</h2>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Tendo-se matriculado a 1 de Outubro de 1687, na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra – como consta dos registos dessa Universidade – Carlos Botelho Osório aí se terá formado e, mui provavelmente, em Coimbra terá exercido funções, uma vez que, no citado requerimento, se anota que iria competir aos inquisidores de Coimbra emitirem parecer acerca da sua petição para integrar o corpo dos juízes do Santo Ofício.</p>



<p>Regressado à sua terra natal, decerto quis restaurar a casa de família e o letreiro isso mesmo documenta, embora nos fique em dúvida o significado daquela palavra ‘<em>decoratus</em>’: terá a Universidade de Coimbra tido alguma intervenção no alindamento dessas obras ou foi o canónico agraciado com alguma benesse?</p>



<p>Em todo o caso, um aspecto se deve salientar: merece Vide diligenciar no sentido de reabilitar a memória de um dos seus ilustres filhos!</p>



<p><sup>Artigo em co-autoria com&nbsp;<em>José Carlos Santos</em></sup></p>
</div></div>
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