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	<title>Arquivo de Tavira - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de Tavira - Duas Linhas</title>
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		<title>Mudas, as pedras falam!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vasco Gil Mantas]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Jun 2024 23:00:26 +0000</pubDate>
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<p>As ruínas, ou melhor, o sítio de <em>Balsa </em>sempre ocupou um lugar especial na minha memória. Há muitos anos, quando o Algarve ainda não tinha hotéis e passava em Tavira em casa de familiares longos verões, lentos e azuis, muitas vezes por lá passeei, bafejado pela brisa da tarde, ao longo do caminho que de Santa Luzia levava para Ocidente, vendo o Sol desaparecer por trás do Monte Figo. Assistir à destruição quase sistemática do que poderia ter sido um importante sítio arqueológico sempre me incomodou, pois nada o justificava. Ora, apesar de tudo, o delapidado sítio de <em>Balsa</em>, cidade marítima largamente aberta a África e ao Oriente, sobreviveu à avalancha de construções de finalidade turística que subverteu o Algarve e ainda tem muita história para contar. Assim sucedeu com dois pedestais honoríficos, semelhantes a aras, cujos textos permaneceram ilegíveis até há bem pouco.</p>



<p>Durante anos e anos serviram de pilares de entrada do caminho que conduzia do canal de Tavira à Quinta da Torre de Ares, para o que o seu formato se adaptava bem, quinta em tempo propriedade da família do distinto arqueólogo tavirense Estácio da Veiga, que aí as terá colocado. Abandonada a casa, os monumentos lá ficaram, bem visíveis, resistindo a todas as tentativas de leitura do que se escondia nas pedras, em parte por se encontrarem cobertas de cal, consideradas anepígrafas, ou seja, sem inscrições. Mas, como tantas vezes sucede, não era bem assim. Vi os monumentos várias vezes, a última vez já abandonados, em 2016, um deles por terra, com traços de inscrição visíveis. Sempre considerei a possibilidade de, com boas fotografias, ser possível tirar alguma coisa de tão estropiados letreiros, mas como fazer boas fotografias nas deficientes condições existentes? Nessa visita consegui ler alguma coisa que me entusiasmou, palavras como CAESAR, EORVM, e a fórmula final DD. Tudo indicava tratar-se uma inscrição honorífica a um ou mais imperadores, seguramente não anterior ao século III.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="640" height="360" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/balsa-4.jpg" alt="" class="wp-image-34800" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/balsa-4.jpg 640w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/balsa-4-300x169.jpg 300w" sizes="(max-width: 640px) 100vw, 640px" /></figure></div>


<p>Felizmente, o <em>Projecto Balsa</em>, tutelado pela Universidade do Algarve e Câmara Municipal de Tavira, apesar de algumas incompreensões – que sempre ocorrem nas lides arqueológicas – avançou e permitiu reiniciar o estudo do sítio, o que me facilitou o acesso aos monumentos e assim concretizar uma aspiração de décadas. Com efeito, as excelentes imagens MRM (Modelo de Resíduo Micro-morfológico), produzidas por Hugo Pires, possibilitaram a leitura de grande parte do que constava nas inscrições. Os pedestais iam finalmente, falar! O que disseram é realmente importante para a história desse recanto do Golfo de Cádis onde as cidades do Círculo do Estreito conversavam umas com as outras e não penas em Latim. Temos, assim, três inscrições honoríficas, duas no mesmo suporte, decerto reutilizado por economia. Estamos no século III e as coisas não corriam da melhor forma! E também não estavam bem politicamente, pois um dos textos foi laboriosamente apagado, pouco se lendo além das fórmulas habituais, alvo da <em>Damnatio Memoriae</em>, acto que consistia em apagar o nome de alguém caído em desgraça, prática que, como é sabido, ainda permanece. Um dos textos lê-se bem, revelando uma homenagem ao filho do imperador Galieno e da imperatriz Salonina, o jovem Salonino. O segundo pedestal, quase uma ara, lembrando modelos africanos, transmite um texto do mesmo tipo mas no qual o nome do imperador, talvez Valeriano, escapou até agora a todas as restituições possíveis.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" width="640" height="360" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/balsa-2x.jpg" alt="" class="wp-image-34802" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/balsa-2x.jpg 640w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/06/balsa-2x-300x169.jpg 300w" sizes="(max-width: 640px) 100vw, 640px" /><figcaption class="wp-element-caption">Hugo Pires teve ocasião de mostrar, em Beja, as possibilidades que ora apresentam para se lograr ler o que dantes se não conseguia ler.</figcaption></figure></div>


<p>A inscrição de Salonino diz o seguinte: AO MUI NOBRE CÉSAR CORNÉLIO LICÍNIO SALONINO, FILHO DO NOSSO SENHOR IMPERADOR CÉSAR PÚBLIO LICÍNIO INÁCIO VALERIANO GALIENO INVICTO, PONTÍFICE MÁXIMO, PIO, FÉLIX, AUGUSTO – A REPÚBLICA DOS BALSENSES DEU E DEDICOU, POR DEVOÇÃO AO SEU NÚMEN E MAJESTADE.</p>



<p>A referência a Salonino como César, herdeiro presuntivo, é anterior a 260. Registada em Portugal pela primeira vez e rara na Hispânia, é muito importante pois comprova que o Sul lusitano se manteve do lado legalista no período conturbado que se seguiu à estrondosa derrota e captura do imperador Valeriano pelos Persas. A opção política dos algarvios da época, passe o anacronismo da expressão, encontra-se bem testemunhado noutros locais, como no excelente busto de Galieno achado na <em>villa </em>de Milreu, hoje no Museu de Lagos. Salonino, neto de Valeriano, conheceu a má sorte que coube a muitos governantes e pretendentes a governantes da época, pois foi assassinado, com apenas 18 anos pelas tropas revoltadas de Póstumo, na Gália. O pai e a mãe, mal julgados pela história, pois lhes coube viver no poço de víboras da política da época, foram assassinados alguns anos depois, em Milão, gorando-se a tentativa de continuar uma dinastia.</p>



<p>Desta forma, os dois pedestais de <em>Balsa</em> contaram um episódio particular do Ocidente romano, mostrando que os balsenses – e os seus vizinhos em <em>Ossonoba</em> (Faro) – se sentiam mais ligados ao Mediterrâneo, centro do poder legal, do que interessados em aventuras separatistas, como uma dedicatória a Aureliano testemunhará naquela cidade pouco depois. A publicação ainda este Verão do catálogo da <em>Exposição Balsa Cidade Romana</em>, patente no Museu Municipal de Tavira, revelará em pormenor a história destes pedestais, comprovando-se a necessidade de não desprezar monumentos <em>difíceis</em>, o que, neste caso, para meu grande contentamento, revelou uma situação até agora quase desconhecida. As palavras voam, mas os escritos ficam, mesmo quando parecem perdidos!</p>
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		<title>TESOUROS EM PARTE INCERTA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[José d'Encarnação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Feb 2024 00:05:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em Beja. Numa bela tarde de Verão, em casa do Dr. Fernando Nunes Ribeiro, que foi Governador Civil de Beja, que escavou a villa romana de Pisões e reuniu relevante colecção de antiguidades, designadamente arqueológicas, estudava eu as pedras romanas com letras que ele guardara. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; – E mais, dr.? Sabe de mais inscrições romanas [&#8230;]</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p><em>Em Beja</em>.</p>



<p>Numa bela tarde de Verão, em casa do Dr. Fernando Nunes Ribeiro, que foi Governador Civil de Beja, que escavou a <em>villa</em> romana de Pisões e reuniu relevante colecção de antiguidades, designadamente arqueológicas, estudava eu as pedras romanas com letras que ele guardara.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – E mais, dr.? Sabe de mais inscrições romanas por i? Fora das do Museu, claro! Tem ideia de um tal José Mendonça Furtado Lindo Januário, de que Abel Viana falou?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – Sim, era um antiquário daqui.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – Era?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – Sim, já não está cá. Abalou para as bandas de Tavira, dizem!</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Tavira? Vamos lá! Um contacto com a Câmara, porque Abel Viana tivera o cuidado de dar o nome completo do senhor e poderia ser fácil, através dos cadernos eleitorais, por exemplo, saber dele. E soube-se logo, porque da Câmara rapidamente responderam. Abençoados! Conhecia-se bem o «Zèzinho da Beja». Morava no Monte da Guerreira, em Estiramanténs, freguesia de Santo Estêvão. Lá fomos. Recebidos com a maior atenção, mostrou-nos tudo o que fora ajuntando, mesmo aquelas moedinhas preciosas, que bem escondidas tinha.</p>



<p>Aí estudei, pois, duas inscrições da área de Beja, de que uma já mostrei na edição do dia 9 do <em>Diário do Alentejo,</em> com bem sugestiva ilustração de enquadramento da autoria do Dr. José Luís Madeira<em>.</em></p>



<p>Trata-se de mui singelo epitáfio latino que diz assim (traduzo para português):</p>



<p>«A Monia, liberta de Leucínico, de 19 anos. Aqui jaz. Que a terra te seja leve».</p>



<p>Há, desde logo, um pormenor a prender a atenção: ninguém se identifica como promotor da homenagem; apenas se diz que a jovem foi liberta de Leucínico. Sua serva durante algum tempo, acabou Leucínico por lhe dar a liberdade, certamente devido aos seus bons serviços e, quiçá, imaginamos nós com a nossa mentalidade, por dela se haver enamorado. Tudo, porém, se nos mostra envolto em diáfano manto de discrição.</p>



<p><em>Mas… cadê a pedra?</em></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="1024" height="523" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/PEDRA-MONIA-1024x523.jpg" alt="" class="wp-image-32097" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/PEDRA-MONIA-1024x523.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/PEDRA-MONIA-300x153.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/PEDRA-MONIA-768x392.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/PEDRA-MONIA-1536x784.jpg 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/PEDRA-MONIA-696x355.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/PEDRA-MONIA-1392x710.jpg 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/PEDRA-MONIA-1068x545.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/02/PEDRA-MONIA.jpg 1779w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>A outra epígrafe deu entrada no Museu Municipal de Tavira. E esta para onde é que foi? A fotografia então feita é, pois, a única prova da sua existência. Acreditam em mim, que fiz a foto e a estudei; mas onde é que ora estará? Documenta, como vimos, o testemunho do uso único de dois nomes antigos; daí o seu interesse histórico. Vamos à cata dela?</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>«Depois de mim, que será do meu Museu?» – interrogava-se Zezinho da Beja em entrevista concedida ao conceituado jornalista Ferreira Fernandes de que se mostra praticamente só o cabeçalho e fotografia na página do <em>Facebook </em>do grupo «Penso, logo existe Tavira»<em>,</em> com comentário exarado a 16 de Julho de 2018. Aí se preconizava uma acção camarária para salvaguarda do que ainda restasse. «O que ainda restasse»… Que o único comentário ao texto é de Rosário Afonso: «E tudo o vento levou&#8230;. <em>Bye, bye, </em>tesouro!».</p>



<p>Também eu fui obsequiado «com um figuinho e um copinho de aguardente», como se assinala nessa página; também eu tive ocasião de ver as &nbsp;«onze salas completamente cheias das mais variadas peças» – a Sala dos Candeeiros, a Sala Religiosa…; os quadros, os oratórios, os cristais, os marfins, os móveis…</p>



<p>Parte desse precioso espólio, uma parte pequena, deu entrada no Museu Municipal de Tavira onde está a ser devidamente inventariado.</p>



<p>Quem sabe se, um dia, os herdeiros põem a mão na consciência e se decidem a negociar? A memória do seu benemérito antepassado bem no merece!</p>
</div></div>
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		<title>ESCRITO NA PEDRA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[José d'Encarnação]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Aug 2023 23:18:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No decorrer da campanha eleitoral para o exercício de um cargo, o candidato da Roma antiga comprometia-se a pagar de seu bolso alguns melhoramentos. E, findo o mandato, fazia questão em mandar gravar uma inscrição a contar o que fizera. Assim era: os prometidos benefícios em prol do Povo saíam-lhe do bolso. Por vezes, até [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>No decorrer da campanha eleitoral para o exercício de um cargo, o candidato da Roma antiga comprometia-se a pagar de seu bolso alguns melhoramentos. E, findo o mandato, fazia questão em mandar gravar uma inscrição a contar o que fizera.</p>



<p>Assim era: os prometidos benefícios em prol do Povo saíam-lhe do bolso. Por vezes, até se explicitava o montante, para se comparar com a promessa feita. E com bastante frequência o acto benemerente ficava, como se disse, consignado numa inscrição em pedra,</p>



<p>Citem-se, a esse propósito, dois exemplos de Balsa, nome por que era então conhecida a cidade onde, mais tarde, veio a erguer-se Tavira. Balsa teve um circo ou anfiteatro, edifício que foi, de certo modo, o antepassado das nossas praças de toiros. No anfiteatro se faziam combates de gladiadores, se lutava contra feras…</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Ora acontece que esse anfiteatro de Balsa foi obra não apenas da administração local mas também de particulares, que para a obra deram a sua contribuição. Um deles, L. Cássio Céler, pagou a despesa da construção de cem pés do pódio do circo. O pódio, como a palavra indica, era uma espécie de palanque onde se sentavam, para assistir aos espectáculos, as personalidades importantes da terra. Mandou gravar uma lápide, que deveria ter sido encastrada nesse pódio e onde estava bem clara a expressão <em>impensa sua, </em>«a expensas suas».</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="952" height="836" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/08/Fig.-1-Inscricao-do-circo-de-Balsa.jpg" alt="" class="wp-image-28238"/><figcaption class="wp-element-caption">Inscrição do circo de Balsa (atual Tavira)</figcaption></figure>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Ânio Primitivo, por seu turno, candidatara-se e ganhou lugar para integrar um colégio privilegiado da cidade, o dos séxviros, encarregados, de certo modo, da ligação – quase de teor religioso – entre os habitantes da cidade e o imperador romano. Eram os séxviros, eleitos por um ano, pessoas de grande prestígio local. Vaidoso com a honra que lhe fora concedida, quis Ânio Primitivo agradecê-la à deusa Fortuna. Para isso, não esteve com meias medidas e organizou uma batalha naval, possivelmente num dos esteiros entre as ilhotas da costa; promoveu um combate de gladiadores no anfiteatro; e, para terminar a festa, ofereceu prendas aos cidadãos. E mandou gravar inscrição.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="588" height="787" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/08/primitivo.jpg" alt="" class="wp-image-28240"/><figcaption class="wp-element-caption">Inscrição de Ânio Primitivo</figcaption></figure></div></div></div>



<p>Existiu no século I, em Idanha-a-Velha, um romano bem endinheirado que deu em construir pequenos templos em honra das divindades de que era devoto. Mandou gravar no frontispício deles a inscrição a identificar a divindade («templo de Marte», «templo ao Génio do Município»…), a deixar o seu nome e, no fim, não esqueceu a expressão <em>ex patrimonio suo, </em>«do seu património». Foi ele que pagou, note-se bem!&#8230;</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Não deixa também de ser curiosa uma outra inscrição, esta de Alcácer do Sal (a romana <em>Salacia).</em> Um dos magistrados locais dera boa conta do recado; e o Povo cotizou-se para lhe mandar gravar a inscrição de homenagem. Soube Lúcio Pórcio Hímero (assim se chamava o magistrado) da intenção do seu Povo; agradeceu-lhe muito e (diz a inscrição em letras gordas) «contente com a honra da inscrição, devolveu a despesa», IMPENSAM / REMISIT!.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/08/pedras-inscricoes-alcacer.jpg" alt="" class="wp-image-28242"/><figcaption class="wp-element-caption">Insccrição de Lúcio Pórcio Hímero, em Salacia (atual Álcacer do Sal)</figcaption></figure>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Tudo isto nos veio à cabeça – de facto, «nada há de novo sob o Sol!» –, quando, ao passarmos pela aldeia de Casteição, freguesia de Prova e Casteição, concelho de Meda (distrito da Guarda), reparámos em mui singela inscrição, assim como quem não quer a coisa colocada na face lateral da torre sineira, em frente da igreja matriz, cujo orago é Nossa Senhora da Assunção, que diz o seguinte:</p>



<pre class="wp-block-verse"><strong>POPULI
EXPENSIS
FACTA
AN . 1829</strong></pre>



<p>O escrito – por sinal, também em língua latina – vem, pois, na sequência do que já há dois mil anos os Romanos faziam: <strong>«Feita a expensas do Povo. No ano de 1829».</strong></p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/08/populi-expensis.jpg" alt="" class="wp-image-28248"/><figcaption class="wp-element-caption">Inscrição na torre sineira da aldeia de Casteição, Meda</figcaption></figure>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Em Longroiva, do mesmo concelho de Meda, há torre sineira também e com inscrição: «Esta torre foi feita pelos irmãos de Gualdim, no ano de 1596». Ruiu em parte na década de 50 do século passado e está reconstruída. Adriano Vasco Rodrigues teve ocasião de a desenhar a torre velha antes da reconstrução e apresentou esse desenho no seu livro <em>Terras da Meda</em> (2ª edição, Meda, 2002, p. 138), que ora aqui se reproduz. &nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1026" height="1340" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/08/Fig.-5b-Torre-sineira-de-Longroiva.jpg" alt="" class="wp-image-28246"/><figcaption class="wp-element-caption">Torre sineira de Longroiva</figcaption></figure>
</div></div>



<p>E pronto. Nós explicamos o que está escrito. Agora, o que está implícito – porque é que o povo se meteu nisto e em que circunstâncias – compete aos historiadores locais irem desencantar lendas, tradições e, sobretudo, documentos que o possam explicar! A Câmara Municipal de Meda publicou, em 2000, a monografia <em>Casteição. </em>Da autoria de Albertino Marques e há, no <em>Facebook, </em>a página «<strong><a href="https://www.facebook.com/kFragosos">Casteição um Lugar na História</a></strong>», criada em Novembro de 2019.</p>



<p>Em todo o caso, assinale-se, boa manifestação é esta da iniciativa popular. Foi 1829 um ano conturbado, em plena luta entre liberais e miguelistas. Os governantes locais ter-se-ão desentendido ou, devido à crise (!), engonharam de mais para fazer a torre sineira, também ela emblema do poder do Povo – pelo toque dos sinos a rebate se convocavam as gentes – e, então ainda Casteição era concelho, a população avançou. Abençoada! E lá estamos nós hoje, quase 200 anos depois, a aplaudi-la!</p>



<p><sub>Artigo em co-autoria com José Carlos Santos</sub></p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2023/08/escrito-na-pedra/">ESCRITO NA PEDRA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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