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	<title>Arquivo de Swakopmund - Duas Linhas</title>
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		<title>Geografias da Desigualdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vanda Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Jan 2026 00:00:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A diferença entre turismo e viagem é não ser só consumo, é ser sobretudo ENCONTRO</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/01/geografias-da-desigualdade/">Geografias da Desigualdade</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p><br>Swakopmund nasceu do olhar europeu sobre o deserto. Fundada em 1892 como porto do então Sudoeste Africano Alemão, a cidade foi pensada como um prolongamento da Alemanha em solo africano. A arquitetura colonial, as ruas ordenadas, os cafés de inspiração bávara e o alemão ainda presente nos nomes das ruas e das lojas, e mesmo no interior destas. Há uma seção de livros em Alemão na livraria da cidade e há menus em Alemão, pelo menos num restaurante, são marcas visíveis dessa origem. Swakopmund cresceu voltada para o mar, para o comércio, para o turismo e, durante muito tempo, de costas para Mondesa.</p>



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<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="884" height="531" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/comercio-mondesa.jpg" alt="" class="wp-image-46541" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/comercio-mondesa.jpg 884w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/comercio-mondesa-300x180.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/comercio-mondesa-768x461.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/comercio-mondesa-696x418.jpg 696w" sizes="(max-width: 884px) 100vw, 884px" /><figcaption class="wp-element-caption">Mondesa</figcaption></figure>
</div>
</div>



<p>Mondesa, por outro lado, nasceu da exclusão. Criada oficialmente nos anos 1960, quando o território era administrado pela África do sul, nasceu assim sob a sombra do apartheid, quando as autoridades desenharam mapas para separar mundos: Mondesa para os negros, o centro da cidade para os brancos. Ou seja, foi pensada como um bairro segregado para a população negra que trabalhava em Swakopmund. E mesmo dentro dela havia zonas para cada etnia, havia (permitam-me a expressão) pretos de primeira e pretos de segunda, o que refletia a lógica de “dividir para reinar”.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1024x576.png" alt="" class="wp-image-46543" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/mondesa-2x.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p><br><br>O seu traçado não surgiu do acaso urbano nem do encontro cultural, mas de uma decisão administrativa com o intuito de afastar, disciplinar, controlar. Cresceu rapidamente, impulsionada pela migração interna e pela procura de trabalho, tornando-se um espaço de sobrevivência, resistência e identidade coletiva.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Em Mondesa, a vida acontece na rua: nos mercados informais, na música que ecoa dos quintais, no vai-e-vem constante de pessoas que constroem o presente com poucos recursos e muita criatividade. Swakopmund parece um enclave da Alemanha em África. A cidade funcionou nas últimas décadas, ainda funciona, como estância balnear sobretudo para os alemães e namibianos endinheirados. Já o pessoal de Mondesa, quando pode descansar, vai à terra, sobretudo para o norte da Namibia.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-2 wp-block-columns-is-layout-flex">
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<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="976" height="638" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-casa.jpg" alt="" class="wp-image-46545" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-casa.jpg 976w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-casa-300x196.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-casa-768x502.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-casa-696x455.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 976px) 100vw, 976px" /><figcaption class="wp-element-caption">Swakopmund, casa burguesa colonial</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="962" height="598" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-hotel.jpg" alt="" class="wp-image-46546" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-hotel.jpg 962w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-hotel-300x186.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-hotel-768x477.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/swakopmund-hotel-696x433.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 962px) 100vw, 962px" /><figcaption class="wp-element-caption">Swakopmund, Hotel Europa</figcaption></figure>
</div>
</div>



<p>O contraste é evidente. Onde Swakopmund exibe fachadas coloridas, jardins bem cuidados e hotéis voltados para o oceano, Mondesa revela casas simples e inacabadas, ruas poeirentas e uma densidade humana elevada. Em Swakopmund, o tempo parece desacelerar ao ritmo das ondas e dos turistas; em Mondesa, o dia começa cedo e termina tarde, guiado pelo ritmo do trabalho e pela economia informal. Uma vive da contemplação e do lazer, a outra da necessidade e da luta diária.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Mais distante, quase empurrada para fora do enquadramento urbano, encontra-se a Democratic Resettlement Community (DRC). Criada nos anos 2000 como solução de “alojamento temporário”, a DRC tornou-se permanente sem nunca ter sido plenamente integrada. Se Swakopmund nasceu do olhar europeu sobre o deserto, e Mondesa da segregação planeada, a Democratic Resettlement Community (DRC) resulta da exclusão prolongada. Terrenos áridos, habitações improvisadas, serviços escassos (sem água canalizada e centro de saúde) e uma sensação constante de temporário que dura décadas.<br>A ligação da DRC com Mondesa é sobretudo humana. Muitos dos seus residentes trabalham em Mondesa, têm família lá ou passaram por esse bairro antes de serem empurrados ainda mais para a margem. Com Swakopmund, a relação é mais distante e funcional: demoradas deslocações diárias para trabalhos mal remunerados, invisíveis para quem desfruta da cidade costeira. A DRC existe para servir, mas raramente para ser vista.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="574" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-1024x574.jpg" alt="" class="wp-image-46551" style="width:1017px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-1024x574.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-300x168.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-768x430.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-696x390.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral-1068x598.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-geral.jpg 1214w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Democratic Resettlement Community (DRC), plano geral</figcaption></figure></div>


<p>É nesta encruzilhada, física e simbólica, que surge a visita guiada (community tour) a Mondesa e DRC, conduzida por um operador de turismo comunitário. O guia não apresenta o bairro como atração exótica, mas como uma narrativa viva, ele é alguém que não conhece apenas o bairro, ele vive lá em Mondesa. O percurso passa pelo mercado informal, onde aprendemos sobre frutas, legumes e plantas e bebidas medicinais, pela visita a uma senhora de etnia Herero, que nos recebe no quintal e nos conta algumas coisas sobre as tradições do grupo a que pertence, pelo Arts &amp; Craft Center do DRC, onde somos recebidos com canções e dança e em língua de “estalidos” e depois visitamos a exposição de trabalhos de desenho/pintura das crianças e o artesanato feito pelas mulheres. Foi aqui que comprei 3 bonecas que representam 3 grupos étnicos diferentes (a quarta foi comprada numa loja em Swakopmund) e, por último, pelo restaurantre Hafeni em Mondesa, onde provamos as “iguarias locais” como insectos crocantes, com destaque para as “larvas de mopan” e também para o Ombidi/Mutete (espinafre selvagem). No fim da refeição um grupo de jovens locais entoa algumas canções &#8220;à capela&#8221; para nós.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="Namíbia, Mondesa" width="696" height="392" src="https://www.youtube.com/embed/TSBtL8UtiOI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div><figcaption class="wp-element-caption"><em><sup>vídeo</sup></em></figcaption></figure>



<p>Alguns operadores de turismo comunitário começaram há alguns anos a incluir a DRC nos seus percursos. O discurso aqui muda um pouco, aqui não se fala apenas de passado colonial ou do apartheid, mas das escolhas da Namibia independente, das falhas do planeamento urbano e da persistência da desigualdade num país independente desde 1990 (foi o último país africano a se tornar independente por via da descolonização). Pelos caminhos de terra batida de Mondesa e DRC veem-se muitos salões de barbeiro, pequenas lojas em anexos ou à janela, igrejas de várias crenças e quintais onde as crianças brincam.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Cada paragem desmonta estereótipos e revela uma comunidade que, apesar das dificuldades, construiu redes de solidariedade e pertença<br>Cada paragem traz uma história, de migração interna, de perda e de ganhos, de encontros e de desencontro, mas também de muita esperança. O guia explica como Mondesa se organizou ao longo dos anos, fala das várias igrejas como centros sociais, das escolas sobrelotadas, mas também das associações juvenis, dos grupos culturais e das iniciativas locais que tentam redesenhar o futuro.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-3 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="609" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-1024x609.jpg" alt="" class="wp-image-46548" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-1024x609.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-300x178.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-768x457.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-696x414.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada-1068x635.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-fachada.jpg 1088w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">DRC, fachada da escola Arts &amp; Craft Center</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1017" height="704" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes.jpg" alt="" class="wp-image-46549" style="width:458px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes.jpg 1017w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-300x208.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-768x532.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-218x150.jpg 218w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/01/drc-escola-artes-696x482.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 1017px) 100vw, 1017px" /><figcaption class="wp-element-caption">DRC, interior da escola Arts &amp; Craft Center</figcaption></figure></div></div>
</div>



<p>No final da visita, quando o grupo regressa a Swakopmund, a distância entre as cidades parece maior, não em quilómetros mas em consciência. Mondesa e sobretudo a DRC deixam de ser apenas o “outro lado” e transformam-se num espelho incômodo e necessário. A visita guiada não promete soluções fáceis, mas oferece algo raro nos dias que correm: contexto, humanidade e a certeza de que compreender um lugar começa sempre por ouvir quem o chama de casa.<br>Gosto de pensar que a diferença entre turismo e viagem é não ser só consumo, é ser sobretudo ENCONTRO.</p>
</div></div>
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