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	<title>Arquivo de solidão - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de solidão - Duas Linhas</title>
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		<title>A IMPORTÂNCIA DOS AFETOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Sep 2023 17:48:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A prostituição em Portugal não é ilegal, ninguém vai preso por vender o corpinho. Mas a lei proíbe a exploração da/do prostituto/a por terceiros e proíbe incentivos à prostituição. Andamos no reino da hipocrisia, querendo dar uma de modernaços, não proibindo, mas ameaçando de prisão quem vá às putas ou quem alugue uma casa onde [&#8230;]</p>
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<p>A prostituição em Portugal não é ilegal, ninguém vai preso por vender o corpinho. Mas a lei proíbe a exploração da/do prostituto/a por terceiros e proíbe incentivos à prostituição. Andamos no reino da hipocrisia, querendo dar uma de modernaços, não proibindo, mas ameaçando de prisão quem vá às putas ou quem alugue uma casa onde ela/e exerça essa atividade. Isto é, a coisa pode ser feita no meio da mata, desde que seja suficientemente longe da estrada para ninguém ver, ou no banco de trás de um carro estacionado no subterrâneo do Marquês de Pombal, em Lisboa. Como se a indignidade não fosse importante, apenas a aparência.</p>



<p>Criminalizar o lenocínio parece bem a muita gente, mas também impede que quem se prostitui tenha um mínimo de proteção contra clientes tarados ou psicopatas. Enfim, o tema é controverso, mas vai piorar ainda mais.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>ASSISTENTES SEXUAIS</strong></h3>



<p>Há quem tenha lançado para a discussão, a questão da sexualidade de pessoas com diversidade funcional, não necessáriamente deficiência física e que, assim como idosos ou solitários de todas as idades, recorrem a profissionais do sexo para resolver questões de afetividade.</p>



<p>Quem não tem esse tipo de problemas, não pensa neles. Mas é verdade que as prostitutas sempre foram úteis à sociedade. Há umas décadas, era comum os paizinhos portugueses levarem os filhos adolescentes para se estrearem na sexualidade com uma prostituta. Era uma espécie de ritual de iniciação, uma passagem da meninice para macho. Claro que às filhas não eram reconhecidos direitos e necessidades idênticas. As meninas queriam-se castas até ao dia do casamento.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>SEXO EM &#8220;CADEIRA DE RODAS</strong>&#8220;</h3>



<p>Tudo mudou. Hoje discute-se o papel do/da “assistente sexual”, nomeadamente no acompanhamento e amparo de pessoas que não obtêm carinho de outro modo. Diana Santos, ativista pelos direitos das pessoas com diversidade funcional, pertence à direção do Centro de Vida Independente, anda há anos a falar sobre este tema:</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1255" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/09/diana-santos-2.jpg" alt="" class="wp-image-28657"/><figcaption class="wp-element-caption">Diana Santos, fotografia do seu Facebook</figcaption></figure>



<p>“Temos as mesmas necessidades do que uma pessoa sem deficiência”, disse Diana à jornalista Céu Neves, do Diário de Notícias, em 2018. “Gostaríamos de introduzir um conceito que é novo em Portugal, o da assistência sexual”.</p>



<p>Diana explicou nessa entrevista que noutros países europeus existem formalmente assistentes sexuais. &nbsp;“É um facilitador, para ajudar quem tem uma deficiência a ter prazer sexual. A masturbar-se, ou ajudar um casal em que ambos têm uma deficiência.”</p>



<p>Parece complicado, parece suscetível de equívocos. Um/uma assistente sexual pode ser um prostituto/a?, gostaríamos de ter perguntado a Diana Santos. Na <strong><a href="https://www.dn.pt/pais/o-assistente-sexual-e-um-facilitador-ajuda-quem-tem-deficiencia-a-ter-prazer-9919607.html">entrevista</a></strong> que temos estado a citar, a questão não foi diretamente colocada.</p>



<p>Este fim-de-semana, em Viseu, o tema voltou a ser falado num dos debates do Fórum Socialismo, uma iniciativa do Bloco de Esquerda que marcou a rentrée política deste partido. </p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="1920" height="668" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/09/assistente-sexual-2.jpg" alt="" class="wp-image-28649"/></figure>



<p>Na introdução ao tema, foi dito que “em países onde os serviços sexuais são legais, a assistência sexual é uma atividade reconhecia“. Em Portugal estamos ainda longe desse desígnio. Em Portugal existe um vazio legal no que diz respeito à prestação de serviços sexuais e um desconhecimento da existência de assistentes sexuais.</p>



<p>Em Espanha, por exemplo, não há complexos na abordagem a esta questão. Várias organizações <strong><a href="https://asistenciasexual.org/">desenvolvem projetos</a></strong> no âmbito da assistência sexual a pessoas com diversidade funcional. Como é o caso do &#8220;Tus manos, mis manos&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="1758" height="436" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/09/assistente-sexual-3.jpg" alt="" class="wp-image-28651"/></figure>



<p>Neste site estão disponíveis contactos com assistentes sexuais que, em parte, se assemelham a anúncios de trabalhadores sexuais. É o caso de Marcos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/09/assistente-sexual-marcos-3.jpg" alt="" class="wp-image-28653"/></figure>
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		<title>ANTIGO COMBATENTE COM ALZHEIMER, o drama</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leitor Identificado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Jan 2023 00:39:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma tarde destas, o meu marido saiu de casa para ir, a pé, a uma rua ao lado da nossa. Voltou rápido porque o jardineiro que procurava não estava em casa. Meia hora depois, cerca das 5 da tarde, voltou a ir a casa desse senhor. Passou uma hora&#8230; Passaram duas&#8230; Eu tentei o contacto [&#8230;]</p>
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<p>Uma tarde destas, o meu marido saiu de casa para ir, a pé, a uma rua ao lado da nossa. Voltou rápido porque o jardineiro que procurava não estava em casa. Meia hora depois, cerca das 5 da tarde, voltou a ir a casa desse senhor. Passou uma hora&#8230; Passaram duas&#8230; Eu tentei o contacto telefónico e ele disse que já vinha, que não me preocupasse… Mais uma hora e dizia o mesmo, o que já não me convencia. Insisti e acabou por me dizer que andava perdido pelos campos&#8230; que já tinha caído e que estava buscando os óculos sem os quais quase não consegue ver.</p>



<p>Decidi chamar a GNR e relatar o que se passava, dando as indicações que tinha: o número de telemóvel e a zona por onde andaria&#8230; E começou o medo. A GNR não dava com ele. Por telemóvel dizia que não via casas nem nada&#8230; Enfim!</p>



<p>Também não demorei muito a chamada, porque não sabia que carga ele teria e, sem carga, a GNR não poderia proceder à geolocalização&#8230; E assim estive… Sozinha, claro, com contactos esporádicos da GNR a dizer que nada podiam informar, que não davam com ele.</p>



<p>Passavam as 11 da noite quando mo trouxeram. Andou kms. Ele está habituado a andar muito… A lembrar tempos da guerra&#8230; E também por isso tem a mania velha de se meter por caminhos e veredas&#8230; Afinal, estava a quilómetros de onde devia estar.</p>



<p>Eu já saía pouco de casa, porque sei que ele não está bem&#8230; Início de alzheimer, tal como as irmãs&#8230; que já foram&#8230;Agora, depois disto, tenho medo de ir à mercearia da rua e ele fazer algum disparate em casa.</p>



<p>Ele nunca quis nem quer mudar de casa, vender esta e ir para a vila, que, sendo pequena, me era mais confortável por tudo. Não quer. Além disso, como de costume, ameaça matar-se e eu temo, porque na sua família é habitual. Uma das irmãs morreu por se haver atirado a um poço e a outra também tentou, mas acabou por ser internada num lar e rapidamente deixou de ter sequer possibilidade física de o tentar.</p>



<p>É assim que vivo ou sobrevivo. Eu nunca gostei de estar aqui&#8230; Esta terra é hostil para os de fora e ele, sendo de perto, é de fora porque não viveu aqui… Terei duas ou três amigas, mais conhecidas que amigas, a quem nem sequer me atrevo a pedir ajuda. Eu que tanto ria e brincava já não me reconheço. Sorrir é já um acto raro. Saio o indispensável, porque temo deixá-lo só. Vou agora tentar consulta com um outro médico, ainda que saiba que isto é apenas uma fase inicial . Ele tem medicação, mas, já se sabe, milagres não há!</p>
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		<title>MORTOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Nov 2022 14:25:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O contraponto com o iogurte natural não funcionou como pensei. Ainda mais enganei-me, comprei o leite cozido que não tem metade do sabor ou graça. Mas ajudou a serenar a barriga e a cabeça. Precisava urgentemente de leite condensado para lançar uma bomba calórica bem no centro da nulidade. Acabei a taça, escolhi um filme [&#8230;]</p>
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<p>O contraponto com o iogurte natural não funcionou como pensei. Ainda mais enganei-me, comprei o leite cozido que não tem metade do sabor ou graça. Mas ajudou a serenar a barriga e a cabeça. Precisava urgentemente de leite condensado para lançar uma bomba calórica bem no centro da nulidade. Acabei a taça, escolhi um filme com o actor que durante muito tempo achei que não passava de uma carinha laroca até ver o Kalifornia. Carreguei no play.</p>



<p>Casablanca, II Guerra Mundial, vestidos de cetim e carros que hoje parecem de brincar, Londres, o som das sirenes dos bombardeamentos, um grande amor.</p>



<p>O barulho das conversas lá fora quedou-se se num burburinho quase inaudível. O silêncio pesado na casa deu lugar a uma brisa ligeira, suave. Não está calor nem frio.</p>



<p>Deitada, na perna direita dobrada o portátil, na esquerda, escondido, um peso familiar. Desviei o Mac e dei de caras com aquele focinho, aqueles olhos azuis gritantes vidrados em mim. Paz. Alcancei a paz depois de muitos dias de &#8220;o que é que me vai acontecer hoje?&#8221;, o pensamento a mil, o sono a fugir por muito que o tentasse agarrar, a inquietação intermitente, os ataques de pânico. Um deles levou-me a voz por eternos minutos, mas bem sei porquê, bem sei do que fujo. Mas tudo isto ficou à beira da cama, há muito que me encontrava em Londres a seguir o amor deles com morte anunciada. E ela chega, num ambiente cinematográfico bonito, tão bonito, tão simples. A morte chega pela mão do argumentista que a escreve singela, tão bela, sofrível, a perpetuação do amor. O amor não morre no suicídio da protagonista. O amor nunca morre.</p>



<p>Cai o genérico, caem-me as primeiras lágrimas, as do filme. Fecho o portátil e continuo deitada de barriga para cima. Choro os beijos que me faltaram, os abraços que não senti, as festas no cabelo capazes de me abraçarem por inteiro. Choro a minha solidão durante este turbilhão de coisas menos boas, más péssimas. Choro por muito mais.</p>



<p>Roço com as pernas as pregas das calças de ganga, há quase uma semana que não visto mais nada, é cetim para mim. Enfio os pés nus na colcha castanha, sinto a textura e aí sim, choro os meus mortos. Não me abraço às almofadas nem me ponho em posição fetal. Não, entrego o meu corpo ao choro, sinto-o bocadinho a bocadinho, até me atingir por inteiro. Paro, recomeço, uma e outra vez. Fico tranquila, venci a velocidade do pensamento, o pânico de ataques permanentes, a solidão. Não escondi nenhuma dor enterrada dentro de mim. O gato saiu da cama, penso que as minhas lágrimas o assustaram. A mim não.</p>



<p>Era suposto tomar um duche mas, tal como o sal do mar que se gruda no corpo depois da praia, não quero lavar as lágrimas que se entranharam na pele. Não quero aquecer a sopa, não quero organizar as pastas para amanhã. Hei-de fazer isso tudo. Por agora só quero outro filme com o actor que já levo a sério, não obstante a carinha laroca.</p>



<p>Aqui o décor é de um cinzento eléctrico, é a noite que desliza sobre linhas, o barulho que vem do restaurante por debaixo da janela, o amarelo torrado dos candeeiros que velam sempre por mim.</p>



<p>Amanhã vai estar tudo onde deixei, excepto talvez os ataques de pânico que levaram uma banhada com as lágrimas, mas sei que o reboliço vai acordar-me bem cedo. É quase certo. Amanhã.</p>



<p>Hoje entrego-me ao cinema que empurrou a tristeza e me deixou ali na cama, a roçar as pregas das calças de ganga e enfiar os pés nus na colcha castanha. Hoje choro os meus mortos e tudo em mim é vida.</p>
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		<title>Festa de aniversário</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Mar 2021 00:40:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[LIFESTYLE]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[festa de aniversário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não sei bem quando comecei a reparar nele. Tinha uma figura alta, magra, barba bem feita, cigarro na mão, bem agasalhado, com roupas gastas. E estava sempre sentado no degrau de uma loja da Elie Saab. Não era um sem abrigo, não pedia nada, não fazia nada. Só olhava. Olhava para mim no início da [&#8230;]</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>Não sei bem quando comecei a reparar nele. Tinha uma figura alta, magra, barba bem feita, cigarro na mão, bem agasalhado, com roupas gastas. E estava sempre sentado no degrau de uma loja da Elie Saab. Não era um sem abrigo, não pedia nada, não fazia nada. Só olhava. Olhava para mim no início da rua e baixava os olhos quando passava por ele. Um dia disse “bom dia!” e ele respondeu, surpreendido. Foram semanas de bom dia e às vezes “boa tarde”. Ele desaparecia ao sol posto e voltava na manhã seguinte, pelas 10h. Umas semanas depois, a conversa disparou!</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Então ontem faltou?”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Não! Estive noutro escritório.”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “E hoje veio mais tarde e já vai almoçar?”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Então, já vai embora?”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Amanhã não venho. Vai estar a chover.”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Não mora aqui?”</p>
</div></div>



<p>Sem família, morava num quarto alugado em Campolide mas gostava de ir a pé todos os dias até Picoas, junto da maternidade onde nasceu. Não me lembro do nome dele. Só sei que tinha a idade do meu pai. Perguntava-lhe, meio a sério, meio a brincar, se queria vir almoçar comigo. Mas ele dizia que almoçava no “morte lenta”, como chamávamos ao modesto restaurante em frente. Um dia vou à “morte lenta” e digo ao Senhor João que quero passar a pagar os almoços daquele Senhor e aponto para a esquina. “Não é preciso. Ele não paga. Não se preocupe. Só lhe peço que venha mais tarde, depois de servir os clientes habituais.”</p>



<p>Muitas vezes tive a estranha sensação de ver na cara dele a satisfação de “missão cumprida” como se ele pensasse “já a vi, já a cumprimentei. O dia está feito”.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>Um dia chego mais tarde e, ainda a 50 metros, já ele está em posição de falar, quase a apontar-me o dedo!</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Estava aqui à sua espera para lhe dizer uma coisa que a vai surpreender!”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “O quê?”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “É que eu hoje faço anos!”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Mau! Não me diga que quer um presente!”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Não peço, mas se me quiser dar, eu aceito. Afinal faço anos!”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Muito bem. Tome lá dinheiro e escolha o seu presente.”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Muito obrigado. Tenho razão ou não tenho? Faço anos, tenho direito!”Todo contente, saiu vitorioso da sua investida!</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>&#8211; “Sim senhor&#8230; muito bem&#8230; Só não sabe é com quem se meteu. É que eu também faço anos hoje, e agora?”</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>Ele ficou sem palavras! Saca da nota e faz o gesto para a devolver&#8230;eu disse que não queria. O meu presente era comermos uma fatia de bolo e um brinde juntos. E assim foi.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>Será que ele se vai lembrar de mim hoje?</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p><strong>Parabéns</strong> a quem vive parado na esquina, à espera que não chova.</p>
</div></div>



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