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	<title>Arquivo de povo Nuba - Duas Linhas</title>
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		<title>RENATO KIZITO, 80 ANOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 19 Aug 2023 23:40:19 +0000</pubDate>
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<p>O avião era um Antonov russo. A bordo iam algumas toneladas de cereal e roupa velha, o contributo amealhado ao longo de meses de esforços do missionário Renato Kizito.<br>Estávamos no final de 1999, Kizito fazia a sua enésima incursão às Montanhas Nuba, no coração do Sudão.<br>Aquela era uma viagem proibida pelo governo em Kartum. Havia anos que todas as ONG de ajuda humanitária tinham sido expulsas das Montanhas Nuba. O governo não queria testemunhas dos métodos que usava para tentar vencer aquela guerra civil deflagrada 25 anos antes. Quase só o Comboniano Kizito teimava em desafiar a ordem estabelecida. Voámos 5 horas sobre o Sudão, desde Lokichokio, no Norte do Quénia, até ao interior das Montanhas Nuba, em território controlado pela rebelião do Exército de Libertação do Povo do Sudão, o SPLA.<br>O esforço de Kizito era notável, assim como era notável a sua capacidade de organização. Centenas de mulheres esperavam o avião e a preciosa carga que transportava. Os sacos de sorgo e a roupa velha foram carregados na cabeça dessas mulheres, numa longa fila indiana, durante um dia inteiro de caminhada até à aldeia mais próxima. Kizito era o único branco que visitava aquele povo cercado no alto das montanhas pelo exército governamental. Ele ouvia as histórias da guerra e contava as suas histórias de esperança. E dizia àquelas pessoas que o futuro seria mais justo e pacífico. E embora condenasse a guerra, dizia-lhes que tinham direito a lutar pela liberdade.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Lembro-me de assistir às missas de domingo que Kizito celebrava num altar de pedra esculpido pela Natureza. Ele gostava de dizer a missa de noite, ao ar livre, iluminado por archotes e sob uma magnífica abóbada de estrelas. Mesmo para quem anda longe deste tipo de fé, eram momentos mágicos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1092" height="1092" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/08/renato-kizito.jpg" alt="" class="wp-image-28225"/></figure>
</div></div>



<p>Mas o velho missionário tem uma obra vasta. Basta referir o Kivuli Center, um abrigo para crianças de rua. É lá onde Kizito mora, num quarto com vista sobre o pátio onde os miúdos brincam no intervalo das aulas. Dezenas de crianças encontram ali uma casa. Não encontram uma família… embora Kizito seja pai e mãe daquela malta.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Os miúdos têm roupa decente para vestir, têm escola, alguns ainda têm a sorte de aprender uma profissão às custas de patrocínios que Kizito procura obter incessantemente. A falta de dinheiro é a maior aflição do missionário. Dar de comer a dezenas de rapazes, vesti-los e calçá-los, manter o edifício de pé e com um mínimo de goteiras possível, custa uma fortuna.<br>Um dia, Kizito teve uma ideia brilhante. Engatou um amigo de infância, padeiro de profissão, a ir passar uns meses a Nairobi. Já reformado, tempo não faltava ao velho padeiro. Kizito teve o cuidado de o prevenir sobre as condições em Riruta, o bairro degradado onde vive. Mas o amigo foi.<br>O padeiro italiano ensinou os miúdos mais velhos a fazer pão. Belos cacetes de pão italiano que passaram a ser vendidos à porta do Centro, na rua enlameada. O negócio foi um sucesso. O problema, então, passou a ser como garantir os fornecimentos de farinha e fermento, de modo a não falhar na produção.<br>Agora, já sabem. Se forem a Nairobi e se vos apetecer pão quentinho e estaladiço, têm de ir a Riruta, um dos imensos bairros de lata de Nairobi. Os carros dificilmente entram nas ruelas do bairro, mas não há que enganar. Terão de caminhar e… seguir o cheiro a pão fresco. Garanto-vos que será uma experiência e tanto.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" width="1000" height="770" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/08/IMG_8144.jpg" alt="" class="wp-image-28231"/></figure></div>


<p>Vale muito a pena visitar a página de Renato Kizito no Facebook. É uma viagem de emoções. Para mim, é recordar as circunstâncias em que me relacionei com ele. Uma das reportagens que fiz no Sudão, foi &#8220;co-produzida&#8221; com Renato Kizito, em 1999. Chamei-lhe &#8220;Dignidade&#8221;.</p>



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