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	<title>Arquivo de memórias da Guerra Colonial - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de memórias da Guerra Colonial - Duas Linhas</title>
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		<title>OS DESERTOS VERMELHOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vasco Gil Mantas]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Aug 2025 23:00:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O tempo passou e deixou marcas e desertos</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há filmes que, pessoalmente, ganham em não ser visionados na altura em que surgiram nas salas. Fui, em tempos, um frequentador assíduo de cinemas, prática que fui perdendo à medida que se instalavam as ficções estelares que vieram substituir a cinematografia do velho <em>Peplum</em>, repleto de vilões e heróis mais ou menos míticos e de capitosas donzelas com mais curvas que talento. Os ruidosos trituradores de pipocas também contribuíram para este desgosto, sentido com melancólica aceitação, como aceitei – ou não? – o desaparecimento de tantos outros locais e coisas de memórias recentes e antigas.</p>



<p>Descansai: nesta temporada de fugidia alienação sugerida pelas férias em modo tentado, não vou traçar uma lista de cinemas desaparecidos. Desejo apenas, <em>en passant</em>, recordar o Avis, em Luanda (Ah! Mais uma vez, Angola!…), onde, entre outros, assisti à projecção de um inesquecível <em>Kartum.</em> Este filme, confesso, teve para mim um sabor especial, porque me embalava ainda no sonho imperial que toda a Europa abandonara já, deixando-me o gosto de cinza das epopeias vencidas, epopeias que não eram de todos, afinal.</p>



<p>Mas, com estas recordações de um outro tempo e vivência, afastei-me, sem o desejar, destas <em>Duas Linhas</em>, inspiradas pela solidão estival, quando tudo parece permanecer inalterado à nossa volta, embora saibamos que não é assim e as ausências, multiplicadas, se instalam com todo o seu peso, sem tréguas, sem forma, sem cor, mas reais, tão reais. Continuemos a navegar um pouco à bolina, proa à onda, nesta crónica, apenas guiado pelo farol do tema central que escolhi.</p>



<p>Por acaso, vi há alguns dias – expressão que tem aqui apenas o sentido de medida de tempo, pois foi à noite – um filme que deve ter passado entre nós em 1964 e que, confesso, talvez na altura não me tivesse levado ao cinema. A película em questão foi <em>O Deserto Vermelho</em>, de Antonioni. </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1025" height="544" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/deserto-vermelho.png" alt="" class="wp-image-43809" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/deserto-vermelho.png 1025w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/deserto-vermelho-300x159.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/deserto-vermelho-768x408.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/deserto-vermelho-696x369.png 696w" sizes="(max-width: 1025px) 100vw, 1025px" /><figcaption class="wp-element-caption">Mónica Viti numa cena do filme <em>O Deserto Vermelho</em>.</figcaption></figure></div>


<p>Este filme conta uma história tão actual, com os seus mistérios, encontros, desencontros, desesperos e fraquezas humanas, sobre um fundo de decadência da civilização industrial, poluidora, insensível, destruidora, um filme quase ecológico, porque humano. A narrativa, protagonizada por Mónica Viti, decorre no cenário deprimente dos subúrbios fabris de Ravena (Fig. 1), outrora centro de outro poder, o do também decadente Império Romano do Ocidente. Mas isto são outras histórias, que talvez fosse bom recordar nestes tempos europeus tão infelizes e incertos. Fica para outra oportunidade.&nbsp; &nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" width="367" height="480" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/Fig.-2.jpg" alt="" class="wp-image-43807" style="width:367px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/Fig.-2.jpg 367w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/Fig.-2-229x300.jpg 229w" sizes="(max-width: 367px) 100vw, 367px" /><figcaption class="wp-element-caption">o livro de Lartéguy <em>A Cidade Estrangulada</em></figcaption></figure></div>


<p>Não quero assumir a função de crítico cinematográfico, embora reconheça agora leituras que não faria há mais de meio século. A propósito de leituras, ocorre-me que o romance de Jean Lartéguy – quem o lê hoje? – <em>A Cidade Estrangulada</em>, quando o reli há pouco, me causou um sentimento de tristeza, muito diferente do que sentira ao lê-lo em Luanda, pois nessa época ainda não se instalara o deserto da dúvida, um dos muitos <em>desertos vermelhos</em> que apoquentam o homem e a sociedade, sempre sensíveis aos renovados (?) ventos da História, que cultivam desertos e secam vidas. Quem duvidar que veja os noticiários televisivos. E não se iluda!</p>



<p>Talvez a lição última do filme de Antonioni seja a única a observar, neste confuso e não menos vergonhoso século XXI: a de que devemos aceitar a nossa vida como somos, pois não teremos outra. Esqueceremos, assim, o princípio enunciado no título do livro do arqueólogo Gordon Childe, <em>O Homem Faz-se a Si Próprio, </em>cuja leitura nos foi sugerida pelo Prof. Furtado, em Faro, num tempo em que o Algarve era outro? O tempo passou e deixou marcas e desertos. Um deles chama-se Guerra do Ultramar ou Colonial – hoje, nada passa sem uma multiplicidade de sentidos, com a conveniente incerteza e indefinição… – e este deserto nem todos o conseguiram já atravessar. Uma guerra que muitos pretendem ocultar, calando-se como num quase pacto de silêncio, calando sentimentos e experiências, para além da permanente <em>vulgata</em> habitual, mergulhados num banho de acusações, suspeitos disto e daquilo.</p>



<p>Talvez por isso os antigos combatentes experimentem um sentimento de culpa generalizada, uma espécie de pecado original de toda uma geração que começa a desaparecer e ainda procura um sentido para aquele tempo, que não seja apenas o da perda absurda. Será esta razão que inibe os veteranos de usar o distintivo concedido pelo Ministério da Defesa, exprimindo o <em>Reconhecimento da Nação</em>? Porque se consideram culpados? Porque os fizeram sentir culpados? Numa época de anacrónicos revisionismos históricos – e é preciso não esquecer o quanto o uso da História ao serviço de Política é perigoso, por ser sugestivo e muito eficiente… – não chamou aos militares de então uma conhecida jornalista nossa contemporânea <em>a soldadesca</em>, palavra desde logo odiosa? Afinal, quem fez o 25 de Abril?</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" width="538" height="389" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/antigo-combatente.png" alt="" class="wp-image-43804" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/antigo-combatente.png 538w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/antigo-combatente-300x217.png 300w" sizes="(max-width: 538px) 100vw, 538px" /><figcaption class="wp-element-caption">A insígnia identificadora de <em>Antigo Combatente</em></figcaption></figure></div>


<p>Envelhecemos, os almoços de confraternização vão rareando e, na busca de um sentido para o que sucedeu, erramos num <em>deserto vermelho</em>, sem rumo garantido para tanta memória contraditória. Consideramos que não vivemos esses anos e que os perdemos para sempre, de todas as formas? Como hei-de terminar este escrito? Que esperança invocar para que este Verão, já adiantado, de sombras alongadas, seja aquela estação impossível de penumbras frescas em quartos velados e de insuspeitos hinos ao Sol e não a busca insensata do perdido? Afinal, não será a vida uma procura constante de nós próprios, sacrificados à identidade do que pensamos ser?</p>



<p>As comédias de Verão preenchem as salas quase vazias dos cinemas, o calor aperta, as guerras continuam, toda a gente finge a felicidade garantida por mais uma aquisição supérflua ou apenas por um gelado apetitoso, com sabor exótico, como deve ser agora. Quanto ao mais, os <em>desertos vermelhos </em>continuam por aí, individuais ou colectivos, de braço dado com o tempo passado, que já foi futuro. E ardem as árvores, que também já o foram, ontem.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1024x576.png" alt="" class="wp-image-43616" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/08/fogos-capa.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Incêndio florestal algures em Portugal</figcaption></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/08/os-desertos-vermelhos/">OS DESERTOS VERMELHOS</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>E LA NAVE VA…</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vasco Gil Mantas]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Nov 2024 00:00:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>É uma e quinze da noite de Sábado, 20 de Novembro de 1965. Em Estremoz está húmido e frio, embora de momento não chova. De qualquer forma, o frio é outro. Na estação de caminho-de-ferro, o Batalhão de Cavalaria 1868 está a bordo da composição que em breve partirá em direcção a Lisboa, por Vendas [&#8230;]</p>
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]]></description>
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<p>É uma e quinze da noite de Sábado, 20 de Novembro de 1965. Em Estremoz está húmido e frio, embora de momento não chova. De qualquer forma, o frio é outro. </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/77DpSL6.jpeg" alt="" class="wp-image-37690"/><figcaption class="wp-element-caption">Estação da CP de Estremoz</figcaption></figure></div>


<p>Na estação de caminho-de-ferro, o Batalhão de Cavalaria 1868 está a bordo da composição que em breve partirá em direcção a Lisboa, por Vendas Novas. Há bastante gente no cais, na maioria militares e familiares dos soldados, quase todos alentejanos, que aproveitaram para introduzir no comboio os vários canídeos que se aproximaram. O veterano cão <em>Totobola</em> acompanhou a Companhia 1465 e connosco permaneceu até morrer quase no final do tempo a cumprir. Mas isso são outras histórias, como diria Kipling.</p>



<p>Despedi-me da minha noiva horas antes, num dos momentos mais intensos da nossa vida. Tínhamos a angustiante sensação de que, encontrados, logo eramos afastados por uma prova que nos ultrapassava e na qual nada dependia de nós. Valeu-nos a devoção um ao outro, consagrada sem palavras numa pequena capela dos arredores de Estremoz, alguns meses antes. Nada de lágrimas, na altura do adeus, pois isso apenas nos enfraqueceria. A viagem de comboio foi lenta e incómoda, através de paisagens envoltas em escuridão, dando azo, como é natural, a pensamentos controversos. Era a guerra, que se instalara inevitável no quotidiano português. Mas tinha comigo algo que me ia sustentar até ao fim da viagem, em Luanda.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-1 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/zDm9TvL.png" alt="" class="wp-image-37694" style="width:503px;height:auto"/><figcaption class="wp-element-caption">embarque no Cais de Alcântara (imagem partilhada da net)</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/fw4a9wh.png" alt="" class="wp-image-37696"/><figcaption class="wp-element-caption">embarque no Cais de Alcântara (imagem partilhada da net)</figcaption></figure></div></div>
</div>



<p>O paquete <em>Vera Cruz</em> estava no cais, ainda imponente, e o embarque verificou-se pelas onze horas de uma manhã sombria e decerto triste para muitos dos que iam e dos que ficavam. </p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-2 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/3upoHEb.png" alt="" class="wp-image-37699"/><figcaption class="wp-element-caption">embarque no Cais de Alcântara (imagem partilhada da net)</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/Ocyb9Fz.png" alt="" class="wp-image-37695" style="width:503px;height:auto"/><figcaption class="wp-element-caption">embarque no Cais de Alcântara (imagem partilhada da net)</figcaption></figure></div></div>
</div>



<p>A partida de um grande navio é sempre emocionante, em particular quando se trata de um transporte militar. E lá fomos barra fora, passando sobre os restos de alguns da Carreira da Índia que por ali repousam, ecoando as proféticas palavras do <em>Velho do Restelo</em>, idênticas em sentido às que Albuquerque terá dito a propósito da nossa empresa imperial:<em> Glória e Fumo! </em></p>



<p>Foram dez dias de viagem, um tanto monótona, entrecortados por algum serviço e reuniões preparatórias do desembarque. As estrelas foram mudando no horizonte e o calor começou a fazer-se sentir e até o ar ganhou novos aromas sobre um mar tranquilo, liso. Sendo velho, tudo começava a ser novo!</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-3 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/DCbfXkT.png" alt="" class="wp-image-37700" style="width:456px;height:auto"/><figcaption class="wp-element-caption">Paquete Vera Cruz no Tejo (imagem partilhada da net)</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/nhoJmyn.jpeg" alt="" class="wp-image-37701"/><figcaption class="wp-element-caption">eu, Vasco Gil Mantas, a bordo do Vera Cruz</figcaption></figure></div></div>
</div>



<p>De vez em quando refugiava-me no Jardim de Inverno do navio, para escrever e ler tranquilamente – os livros que me acompanharam foram <em>O Visconde Cortado ao Meio</em> e <em>O Cavaleiro Inexistente</em>, de Italo Calvino, bem como o muito ambíguo <em>Calafrio</em>, de Henry James – mas sobretudo para ler o lenitivo com que enfrentei a separação: as dez cartas, uma para cada dia de viagem, que a minha noiva me escreveu para que a tivesse comigo de alguma forma mais íntima ao longo da travessia, cartas entregues na véspera do embarque.</p>



<p>Num transporte militar não há privacidade pelo que este espaço do navio era o ideal para uma leitura sempre seguida de várias releituras, até à próxima carta no dia seguinte. Todas estavam numeradas, e assim permanecem na minha mesa-de-cabeceira. Claro que não vou aqui revelar o que era apenas entre nós e assim deve ficar. Mas não se imaginem coisas, pois, como disse, tínhamos convicções claras quanto ao casamento, que nos aguardava no Verão seguinte, durante as férias docentes dela e a minha licença, ia a comissão angolana a um terço.</p>



<p>A minha noiva já vivera em África, pelo que não deixou de me alertar para as tentações diversas de um cenário diferente do europeu, por vezes dizendo-o veladamente. Dos outros perigos, os da guerra, não falou muito, tão presentes eles estavam que não era preciso evocá-los. Tentou, sim, fazer-me crer que tudo correria bem. Mas sei que essas linhas lhe custaram a escrever e a mim a lê-las, sem que alguma vez tivesse questionado a causa da separação, decerto por atenção comigo. Havia muitos parágrafos sobre momentos vividos e sobre intenções a concretizar, uma forma de fazer antecipar o futuro <em>depois</em>, dado que então tudo se media pela experiência a vencer. Como é humano, parte desse <em>depois</em> sucedeu de forma diferente, mas o fio condutor de todas estas cartas transmitia uma inabalável confiança protectora, que permanece e revive a cada leitura, agora pontuada de tristeza, esgotados os muitos anos que nos foram concedidos.</p>



<p>O navio avançava, sem escalas nem costa visível. Sabia que teria uma carta à espera em Luanda, prometida na última das que levei comigo. Tornou-se visível o Cruzeiro do Sul e as noites definitivamente quentes, embaladas pelo ronronar dos motores, diziam-me que se aproximava o há muito esperado. Chegámos cedo a Luanda. Sobre um mar sem rugas pairavam raros ruídos, apenas o sopro pujante da terra africana se imiscuía, dominador. Luanda resumia-se a uma longa fiada de edifícios no limite do mar, velados por uma neblina ligeira, sugerindo um vazio absoluto para lá deles. Compreendi então os relatos medievais sobre os confins do mar onde os navios se despenhavam no abismo, porque era isto. </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="726" height="452" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/10/LUANDA-2.jpg" alt="" class="wp-image-37702" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/10/LUANDA-2.jpg 726w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/10/LUANDA-2-300x187.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/10/LUANDA-2-696x433.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 726px) 100vw, 726px" /><figcaption class="wp-element-caption">O porto de Luanda, 1965</figcaption></figure></div>


<p>Depois foi o desembarque, já sem as paradas ovacionadas de 1961, e o comboio até ao Campo Militar do Grafanil, atravessando os musseques, rodeados de garotada. Foi uma visão que me impressionou, pois não era esta a minha ideia de Império. Mas eu já vira os bairros de lata a crescer à volta de Lisboa. Porque haveria de ser diferente? Felizmente estava em Luanda a carta prometida.</p>
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		<title>DIAS DE FESTA NO NOSSO CORAÇÃO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Sep 2024 13:53:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<category><![CDATA[Guiné-Bissau]]></category>
		<category><![CDATA[memórias da Guerra Colonial]]></category>
		<category><![CDATA[reconhecimento da independência da Guiné-Bissau]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Hoje e nos próximos dias, deveriam ser dias de festa na Guiné-Bissau. Depois da proclamação unilateral da independência em 24 de setembro de 1973 feita por Nino Vieira, em Madina do Boé, festejamos hoje o reconhecimento oficial dessa proclamação e, dentro de dois dias, a data do aniversário de Amílcar Cabral que, se fosse vivo, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Hoje e nos próximos dias, deveriam ser dias de festa na Guiné-Bissau. Depois da proclamação unilateral da independência em 24 de setembro de 1973 feita por Nino Vieira, em Madina do Boé, festejamos hoje o reconhecimento oficial dessa proclamação e, dentro de dois dias, a data do aniversário de Amílcar Cabral que, se fosse vivo, celebraria 100 anos.</p>



<p>Em 10 de setembro de 1974, Portugal reconheceu a independência da Guiné-Bissau e colocou um ponto final no colonialismo no território guineense. Foi o fim de uma guerra que matou muitos jovens portugueses e guineenses, no mais difícil dos conflitos coloniais de Portugal em África.</p>



<p>Logo depois da revolução de 25 de abril de 1974, em Portugal, foi negociado informalmente um cessar-fogo no território, seguido da assinatura formal desse acordo em 26 de agosto de 1974, em Argel. Foi nesse documento que ficou escrito que no dia 10 de Setembro desse mesmo ano, o Estado Português reconheceria formalmente a independência da República da Guiné-Bissau, como Estado soberano. E assim foi.</p>
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		<title>FUGIRAM À TROPA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Oct 2023 15:03:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<category><![CDATA[memórias da Guerra Colonial]]></category>
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		<category><![CDATA[refratário à tropa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Fugiram da mobilização decretada pelo governo russo, pensaram que seria fácil obter asilo político num país alinhado com as orientações dos EUA, mas não foi assim. O Ministério da Justiça da Coreia do Sul rejeitou os pedidos, alegando que uma simples evasão ao serviço militar não constitui motivo para o estatuto de refugiado. São alimentados, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Fugiram da mobilização decretada pelo governo russo, pensaram que seria fácil obter asilo político num país alinhado com as orientações dos EUA, mas não foi assim. O Ministério da Justiça da Coreia do Sul rejeitou os pedidos, alegando que uma simples evasão ao serviço militar não constitui motivo para o estatuto de refugiado.</p>



<p>São alimentados, utilizam os sanitários da zona internacional do aeroporto, mas não podem sair dali. A opção de voltar para a Rússia tem sido evitada, porque teriam de enfrentar tribunais e a mobilização militar.</p>



<p>A longa permanência destes três refratários russos chamou agora a atenção da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Coreia (NHRCK), que decidiu apoiá-los juridicamente nos processos de pedido de asilo. Esta comissão recomendou que as autoridades aeroportuárias proporcionassem um espaço digno de habitabilidade para os russos enquanto permanecerem nas instalações aeroportuárias.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1920" height="901" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/10/refratarios-2.jpg" alt="" class="wp-image-29713"/></figure>



<p>Estas três pessoas dormem no chão, num espaço ruidoso e permanentemente ocupado por viajantes que chegam e partem, o ambiente normal de qualquer aeroporto, sendo que Incheon é o maior aeroporto da Coreia do Sul e um dos mais movimentados do mundo.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>DESERTORES E REFRATÁRIOS PORTUGUESES</strong></h3>



<p>Em todas as guerras, há sempre quem recuse a mobilização ou opte por desertar em vez de combater. É um direito legítimo, à luz dos direitos humanos, mas pode configurar crime face a legislações nacionais.</p>



<p>Por exemplo, durante os anos em que Portugal enfrentou três guerras coloniais, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, houve mais de oito mil deserções das forças armadas portuguesas, entre 1961 e 1973. Os refratários (os que fugiam antes de serem incorporados) foram muitos mais. Dados divulgados em 1985 pelo Estado-Maior do Exército indicam que cerca de 200 mil jovens terão abandonado o país, antes da inspeção médica que precedia a incorporação militar.</p>



<p>Nessa época, tanto desertores como refratários eram classificados como infratores à lei e perseguidos como tal. Depois da revolução de abril de 1974, com a queda do regime e as independências das colónias africanas, os que antes foram perseguidos passaram a ser louvados, <strong><a href="https://expresso.pt/sociedade/2022-02-06-Esta-guerra-nao-e-para-mim.-Seis-desertores-recordam-o-que-viveram-a3b9ed24">algumas histórias</a></strong> de deserção ou de fuga à tropa foram divulgadas como exemplos da luta antifascista de resistência contra a ditadura de Salazar e Caetano.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="599" height="452" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/10/desertores-pt.jpg" alt="" class="wp-image-29716"/></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2023/10/fugiram-a-tropa/">FUGIRAM À TROPA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>A HISTÓRIA DE UMA INESPERADA SURPRESA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[José d'Encarnação]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Aug 2021 00:01:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[HISTÓRIAS...]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<category><![CDATA[cooperação com a Guiné-Bissau]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra Colonial]]></category>
		<category><![CDATA[memórias da Guerra Colonial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A mãe do capitão Não era a primeira vez que D. Maria do Carmo ia ali. Contudo, desta feita, vendo que a cabeleireira era uma senhora africana, teve curiosidade em saber donde viera. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; – Da Guiné – respondeu. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; – E donde exactamente. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; – De uma aldeia chamada Suzana. Fica situada a 5 [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h4 class="wp-block-heading"><em><strong><span class="has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color">A mãe do capitão</span></strong></em></h4>



<p>Não era a primeira vez que D. Maria do Carmo ia ali. Contudo, desta feita, vendo que a cabeleireira era uma senhora africana, teve curiosidade em saber donde viera.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – Da Guiné – respondeu.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – E donde exactamente.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – De uma aldeia chamada Suzana. Fica situada a 5 km da fronteira com o Senegal, no noroeste da Guiné-Bissau.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – Suzana? Mas foi em Suzana que o meu filho esteve e aí comandou a sua Companhia…</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – Mas a Senhora é da família do senhor capitão que morreu na guerra, o capitão Luís Filipe Rei Vilar?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; D. Maria do Carmo estremeceu ao ouvir soletrar o nome completo do filho.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – Sim, sou a mãe. Ele morreu, sim, em combate na Guiné. A 18 de Fevereiro de 1970… Mas a senhora, que é tão nova, como sabe o nome do meu filho?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – É que, em Suzana, nós veneramos muito a memória dele!</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; D. Maria do Carmo estremeceu ainda mais.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; – Sim? Porquê?</p>



<p>E a cabeleireira começou a desfiar, com entusiasmo, o rosário de benefícios que o capitão conseguira trazer para a aldeia, quando ali estivera em serviço com a sua companhia. Lutara, sim, ele e os seus homens, para defenderem a população, garantiu a cabeleireira; mas o mais importante ainda foi toda a obra social aí levada a cabo, nomeadamente no domínio da instrução, mediante a construção de uma escola, uma escolinha de 25 x 10 metros. «Lutando, construindo e ensinando» era a sua divisa! Em Suzana chamavam-lhe o Capitão dos Pretos! As crianças eram recolhidas num raio de 5 km para irem à escola e, antes de serem levadas para casa, partilhavam o rancho dos soldados, da sopa deles… Por isso, esses meninos eram apelidados de “sopitos”. E ainda hoje o são!</p>



<h4 class="wp-block-heading"><em><span class="has-inline-color has-luminous-vivid-orange-color"><strong>A surpresa da família</strong></span></em></h4>



<p>A novidade caiu inesperada. Sobre a comissão de Luís Filipe Rei Vilar, nascido em Cascais a 12 de Novembro de 1941, e, sobretudo, acerca das circunstâncias da sua trágica morte chegaram a divulgar-se informações contraditórias e a família, contristada, preferiu continuar a ficar com a recordação do excelente percurso académico e militar que o filho tivera. Fora brilhante aluno na Escola Técnica e Liceal Salesiana de Santo António, no Estoril;&nbsp; praticara hóquei em patins no Grupo Dramático de Cascais; notabilizara-se na Academia Militar e, nomeadamente, na equitação, tendo participado em vários concursos no Hipódromo de Cascais, que tem hoje o nome de Manuel Possolo, mestre de equitação do Luís.</p>



<p>Essa informação trouxe, pois, de novo à memória os momentos bons e também os maus.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/azBDNns.jpg" alt="" class="wp-image-11472"/></figure>



<p>D. Maria do Carmo viria a falecer em 6 de Janeiro de 2004. Os filhos Duarte, Manuel e Miguel é que não ficaram sossegados enquanto não tiraram a limpo o que acontecera e qual a razão dessa veneração dos Felupes pelo seu irmão mais velho.</p>



<p>Fora-lhe atribuída, a título póstumo, a Medalha de Serviços Distintos Prata com Palma («Diário do Governo» de 11-5-1970), tendo sido destacado, na circunstância, que «no campo da acção psicológica actuou como um verdadeiro apóstolo, conquistando o respeito e admiração das populações, que nele confiavam cegamente; no campo operacional salientou-se pela firme determinação em bater o inimigo nas zonas de refúgio e pelo exemplo da sua presença nos locais de maior risco». Soube-se depois que, também em Suzana, após a sua morte, fora colocada uma placa em sua memória, hoje desaparecida.</p>



<p>O Município de Cascais, por deliberação unânime de 5 de Junho de 1970, dera o nome ‘Capitão Rei Vilar’ a um arruamento do Bairro Navegador, no mesmo dia em que foi decidido homenagear, no mesmo bairro, a memória de outro cascalense, o Furriel João Vieira, que, aos 23 anos, fora morto em combate, em Angola, a 6 de Agosto de 1965. Aluno da Escola Salesiana do Estoril também ele.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><em><span class="has-inline-color has-vivid-green-cyan-color"><strong>A obra em marcha</strong></span></em></h4>



<p>Em primeiro lugar, a notícia dada pela cabeleireira causou na família muito espanto e alguma dúvida.</p>



<p>Sucedeu, porém, que, em Abril de 2016, o irmão Miguel recebeu a mensagem de um desconhecido, um certo Luís Costa, antropólogo, recém-chegado da Guiné, aonde fora em preparação da sua tese de doutoramento e que vivera quatro meses em Suzana. O teor era o seguinte:</p>



<p>«Quero-lhe dar conta que a Memória do seu irmão, Cap Cav Luís Filipe Rei Vilar, comandante da CCAV 2538 […] continua bem viva e respeitada. Os habitantes de Suzana falam com entusiasmo e saudade do seu irmão e contam o interesse e respeito que ele tinha pelas gentes da Guiné em especial pelos Felupes».</p>



<p>E, assim, em Janeiro de 2017, no seguimento desta mensagem, os três irmãos Manuel, Duarte e Miguel partiram para a Guiné. Escreve o Manuel, a 30 desse mês:</p>



<p>«Quando chegámos a Suzana, a surpresa! À chegada, tínhamos uma recepção de cerca de 200 crianças a cantarem e a bailarem, todas lindamente penteadas, limpas e bem vestidas. Não estava a acreditar! Toda a população nos esperava! Permanecemos em Suzana 4 dias, alojados na missão católica. Foram 4 dias a conviver com a população, com os Felupes, a etnia local. Fomos ao sítio onde tudo se passara. Ainda há alguns guias felupes vivos que incorporaram a Companhia nessa altura e os seus pormenorizados relatos, nomeadamente das circunstâncias da morte do Luís, foram para nós testemunhos muito importantes». Entre outros, o do Padre Zé (José Fumagalli), já com 80 anos, que dirigia a Missão Católica nesse tempo e que conheceu e conviveu com o Capitão, também confirmou essas informações.</p>



<p>As autoridades locais (o Conselho dos Homens Grandes) acolheram-nos, pois, de braços abertos; e a Missão Católica (liderada então pelo Padre Abraão e, posteriormente, pelo Padre Vítor) proporcionou-lhes um básico alojamento, porque, na verdade, Susana é aldeia pobre, minguada de meios.</p>



<p>O resultado dessa primeira viagem a Suzana foi a promessa dos irmãos Rei Vilar de continuarem a obra, no que respeitava à educação das crianças, em tão boa hora iniciada pelo irmão Luís Filipe, em circunstâncias assaz adversas. Foi assim que surgiu, espontaneamente e com esse objectivo, o Projecto Kassumai, que deu origem, em 2020, à constituição da Associação Anghilau («criança», em língua felupe).</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/sTdzYaI.jpg" alt="" class="wp-image-11473"/></figure>



<p>Foram assim apadrinhadas 35 crianças: a Adelaide da Silva, o André Djejo, a Bequita Ampabagai, o Davide N’Manga, a Necas Sambu, o Olívio Bussa, por exemplo, que aparecem, felizes e tímidas, no vídeo Kassumai, que Casper Steketee e Manuel Rei Vilar realizaram, não apenas para dar conta da vida do irmão Luís, mas, de modo especial, para fazerem jus ao bom acolhimento havido por parte da população e, sobretudo, para motivarem os amigos e familiares a aderirem a este projecto educacional.</p>



<p><a><span class="has-inline-color has-very-dark-gray-color">Kassumai</span></a>, o nome do projecto, é a saudação felupe, que significa simultaneamente «felicidade, paz e liberdade». E quando alguém saúda outrem – «Kassumai»! – o outro deve responder «Kassumai Kep», que quer dizer «para sempre!». Um toque de humanidade a reter dos nossos irmãos africanos!</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/41LwKuH.jpg" alt="" class="wp-image-11474"/></figure>



<p>Daí até à sugestão de reabilitar a escola e de fazer um edifício a condizer com as necessidades foi um passo. O Jardim-escola, que se encontrava decrépito, foi completamente reabilitado: renovação do telhado, pavimentação das salas, pinturas das paredes, aquisição de nova mobília adequada ao ensino pré-escolar, arranjos das portas totalmente danificadas, novas instalações sanitárias com duas fossas sépticas, criação duma pérgula para as crianças tomarem as refeições e brincarem nos dias de chuva e elaboração duma cerca para maior protecção da miudagem.</p>



<p>Em 2017, os irmãos Rei Vilar tinham encontrado em Suzana um homem branco, da ONG VIDA – <strong>Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento Africano</strong>, organização criada em 1992, com sede em Lisboa, na Rua Nova do Almada (http://vida.org.pt), que focou muito da sua actividade na Guiné, em prol de contribuir para acudir às prementes necessidades de nutrição, mormente das crianças, através duma implementação correcta do Programa Nacional de Nutrição da Guiné-Bissau que contribua para a sua sustentabilidade. Como é lógico, gerou-se, de imediato, uma útil parceria com a futura ‘associação’ das boas vontades que a família conseguira congregar em torno de si.</p>



<p>A partir desse encontro, a figura de um felupe, o Sr. Olálio Neves Trindade, hoje responsável da ONG VIDA na Guiné-Bissau, veio a ser o homem de campo do Projecto, em colaboração com o Prior de Suzana, o Pe. Vítor Pereira. Os <em>media</em> foram indispensáveis para manter uma ligação quase quotidiana com Suzana e para difundir as actividades do Projecto.</p>



<p>E, a 18 de Fevereiro de 2020, 50 anos depois da morte do Capitão, dia após dia, as novas instalações pré-escolares foram solenemente reinauguradas, com o nome Jardim-Escola Capitão Luís Filipe Rei Vilar, nome escolhido pela Direcção do Agrupamento Escolar de Suzana, na presença de doze padrinhos e madrinhas, que se deslocaram a Suzana para esse fim, das autoridades locais (administrativas, religiosas e escolares) e do Comité das Mães.</p>



<p>Actualmente, o Jardim-Escola tem uma capacidade para mais de 70 crianças e o Agrupamento Escolar de Suzana, que resultou da pequena escola criada pelo Capitão Rei Vilar, é frequentado por mais de 700 alunos.</p>



<p>A construção de uma Residência dos Professores de Suzana foi o segundo objectivo do projecto, crucial para fixar os docentes em alojamentos condignos. A nova residência encontra-se terminada e apta a acolher os professores a partir do próximo ano lectivo: foi entregue nas últimas semanas às entidades escolares.</p>



<p>A reabilitação do Jardim-Escola assim como a construção da nova Residência para professores foram totalmente pagas com os donativos do apadrinhamento das crianças.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><em><strong><span class="has-inline-color has-vivid-red-color">O que falta?</span></strong></em></h4>



<p>Compreende-se, porém, que projectos deste teor nunca podem considerar-se terminados e, após uma solução encontrada, outro problema por resolver se depara com premência.</p>



<p>Neste sentido e neste momento, um terceiro projecto tem como objectivo reabilitar os restantes edifícios escolares, incluindo o acabamento do Liceu, que foi inteiramente construído pela comunidade de Suzana.</p>



<p>Em Março de 2020, a Associação Anghilau, recentemente constituída, decidiu dar conhecimento do trabalho realizado em Suzana à Câmara Municipal de Cascais, tendo sido pedida, para esse efeito, uma reunião com a Divisão das Relações Internacionais. Nessa reunião, a Câmara dispôs-se a analisar este terceiro projecto, baptizado de Projecto Cascais-Suzana, que se encontra ainda em apreciação.</p>



<p>A aprovação desse projecto seria, de facto, o reconhecimento de todo o trabalho realizado até aqui e também, de certa forma, uma maneira de o Município poder honrar, tal como os Felupes o fizeram, a memória do Capitão Luís Filipe Rei Vilar, um filho de Cascais, sempre presente nesta vila e no coração dos habitantes de Suzana.</p>
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		<title>Sintra foi à guerra na Guiné</title>
		<link>https://duaslinhas.pt/2020/11/sintra-foi-a-guerra-na-guine/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Rafael Baptista]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Nov 2020 00:39:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra Colonial]]></category>
		<category><![CDATA[Guiné Bissau]]></category>
		<category><![CDATA[memórias da Guerra Colonial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A alcunha da tropa foi “Sintra”. Ter uma alcunha é da praxe e muitos eram conhecidos pelo nome da terra onde tinham nascido. Joaquim “Sintra” Sequeira aprendeu o ofício de canalizador na tropa. Foi em Tancos, na Escola Prática de Engenharia. Mas ele nem sonhava que na guerra os canalizadores fazem muita falta. Em 1965 [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A alcunha da tropa foi “Sintra”. Ter uma alcunha é da praxe e muitos eram conhecidos pelo nome da terra onde tinham nascido.</p>



<p>Joaquim “Sintra” Sequeira aprendeu o ofício de canalizador na tropa. Foi em Tancos, na Escola Prática de Engenharia. Mas ele nem sonhava que na guerra os canalizadores fazem muita falta. Em 1965 chegou ao pior sítio para se estar na guerra colonial: a Guiné.</p>



<p>Sequeira ainda ficou uns tempos em Bissau, a remodelar as casas de banho do Hospital Militar. Mas havia muitos quartéis na Guiné que nem casa de banho tinham. E lá foi ele resolver o assunto nos quartéis de Mansoa, Binta, Mansabá, Farim, K3, entre muitos outros que a memória não guardou.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/LRx0tJR.jpg" alt="" class="wp-image-5550"/><figcaption>mapa da Guiné Portuguesa 1966</figcaption></figure>



<p>&#8220;Fiz 22 anos em março de 66 no mato&#8221;, conta-nos Joaquim. Era costume, em ocasiões de celebração, deixar os soldados ir receber a correspondência da família em Bissau. O seu pai costumava enviar &#8220;umas garrafitas de vinho, umas postas de bacalhau e um ou outro chouriço&#8221;. Chega ao aquartelamento e encontra-se com o Sargento de uma companhia recém-chegada que precisava urgentemente de água nos lavabos. Ir tomar banho era cada vez mais perigoso devido à distância ainda considerável que separava os soldados do rio mais próximo. O tempo que se perdia para garantir segurança nas picadas e o risco que se corria em ser morto no caminho ou durante o banho no rio, tornavam a higiene muito complicada. O quartel precisava urgentemente de água corrente e, depois de um serviço bem feito, deram-lhe o prémio de voltar de avioneta para Farim, no norte, perto da fronteira com o Senegal.</p>



<p>À chegada a Farim encontrou no bolso uma nota de 100 escudos. Mais tarde descobriu que tinha sido o Sargento Joaquim Lageira, homem &#8220;honroso e amigo dos seus homens&#8221;, como agradecimento pela casa de banho construída no aquartelamento.</p>



<p>A guerra na Guiné foi muito difícil para a tropa portuguesa. &#8220;As estradas eram armadilhadas com bombas e eles estavam armados com Kalashnikov, uma arma de cadência superior à nossa G-3.” Dos que morreram, lembra com tristeza o &#8220;Chico Buca&#8221;, como era conhecido. Buca tinha acabado de chegar e morreu na primeira “batida” que o pelotão fez nas redondezas do quartel. Pisou uma mina e ficou lá enterrado em Farim. Na mesma ocasião, um outro morreu com um ataque de coração.</p>



<figure class="wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex"><ul class="blocks-gallery-grid"><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/1KsegQF.jpg" alt="" data-id="5551" data-link="https://duaslinhas.pt/?attachment_id=5551" class="wp-image-5551"/></figure></li><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/wej6Trm.jpg" alt="" data-id="5552" data-link="https://duaslinhas.pt/?attachment_id=5552" class="wp-image-5552"/></figure></li></ul></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/wwm4o6d.jpg" alt="" class="wp-image-5553"/></figure>



<p>Convencido que os territórios dominados pelos Portugueses eram na verdade &#8220;províncias Ultramarinas&#8221; afirma ter ido defender uma região que era tanto nossa como a Madeira.</p>



<p>&#8220;Trabalhámos, sofremos e morremos&#8221;, é a síntese que o “Sintra” faz da guerra na Guiné. &nbsp;A sua mãe fê-lo prometer que enviava fotos com regularidade. As pernas e os braços tinham de estar visíveis, para ela ter a certeza de que o filho continuava inteiro. Aquela guerra não ficou só no mato, chegou às casas dos soldados nem que fosse na mais recôndita aldeia de Portugal.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/DYXtuX3.jpg" alt="" class="wp-image-5547"/><figcaption>mapa da Guiné-Bissau</figcaption></figure>



<p>RB/CN</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2020/11/sintra-foi-a-guerra-na-guine/">Sintra foi à guerra na Guiné</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>O fotógrafo de 61</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rafael Baptista]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Nov 2020 12:06:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi ainda moço para Angola e, contrariamente à ideia generalizada de que os portugueses partiram inocentes e ingénuos, Manuel Delicado foi já com uma noção politizada do que se passava. &#8220;Sempre acompanhei os noticiários e os jornais; sabia bem para o que íamos&#8221;. Embarcou no paquete Vera Cruz rumo a Luanda e por lá ficou [&#8230;]</p>
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<p>Foi ainda moço para Angola e, contrariamente à ideia generalizada de que os portugueses partiram inocentes e ingénuos, Manuel Delicado foi já com uma noção politizada do que se passava. &#8220;Sempre acompanhei os noticiários e os jornais; sabia bem para o que íamos&#8221;. Embarcou no paquete Vera Cruz rumo a Luanda e por lá ficou durante uns tempos no Campo Militar do Grafanil, até ter guia de marcha para Zala. São hoje conhecidas as peripécias a que os portugueses foram sujeitos num dos municípios de Nambuangongo: &#8220;Quando chegámos a Zala, ai é que apanhámos à séria! Não podíamos sair do acampamento que éramos logo atacados… mas, lá sobrevivi&#8221;, diz-nos o senhor Manuel.</p>



<p>Percorreu o Norte de Angola de lés a lés, recorda as longas caminhadas pelas picadas e o perigo constante das minas e as táticas, muitas vezes improvisadas, que utilizavam naquela guerra de guerrilha. &#8220;Eles conheciam o trajeto e montavam uma daquelas armas de avião no topo da colina disparando lá para baixo a ver se nos acertavam. Chegámos inclusive a virar, sempre que por lá passávamos, os capacetes na direção do fogo inimigo (…) até que tivemos de mudar de estratégia. Eles esperavam por nós de dia, então passámos a ir de noite. Mesmo que conhecessem melhor o terreno, seria contraproducente montar as armas com pouca visibilidade&#8221;.</p>



<p>Apelidado pelos camaradas como Jerry Lewis (por o acharem tão parecido com o comediante dos anos 60) era, no entanto, mais conhecido como fotógrafo de serviço. A sua câmara foi, de resto, uma mais valia para a realização deste artigo onde exibimos algumas das fotografias do senhor Manuel. </p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/CBlyDNK.jpg" alt="" class="wp-image-5107"/></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/cWcnwlX.jpg" alt="" class="wp-image-5108"/></figure>



<p>Quando chegou a altura de escolher entre a fotografia e o oficio, acabou por enveredar pelo oficio continuando, após a guerra, a trabalhar como estofador. Não regressou na mesma boleia que muitos dos seus camaradas. Manuel Delicado viu em Angola um bom sítio para fazer a sua vida. Por lá ficou, casou e constituiu família, até ao dia em que os rumores de que as &#8220;coisas estavam prestes a piorar&#8221; ecoaram pelas ruas e todo o homem e mulher brancos foram compelidos a regressar. Descreve o dia 11 de Novembro de 1975 como sendo um dos dias mais tristes. Não em termos políticos mas emocionais. Lembra Angola com saudade e só Deus sabe o quanto lhe custou voltar &#8220;especialmente para um Portugal que olhava os retornados com desprezo&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-gallery columns-3 is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex"><ul class="blocks-gallery-grid"><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/5eyFqqJ.jpg" alt="" data-id="5109" data-link="https://duaslinhas.pt/?attachment_id=5109" class="wp-image-5109"/></figure></li><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/NYqyKEv.jpg" alt="" data-id="5110" data-link="https://duaslinhas.pt/?attachment_id=5110" class="wp-image-5110"/></figure></li><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/HdJKyi5.jpg" alt="" data-id="5111" data-link="https://duaslinhas.pt/?attachment_id=5111" class="wp-image-5111"/></figure></li></ul></figure>
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