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	<title>Arquivo de livro de Domingos Sim - Duas Linhas</title>
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		<title>UM OLHAR SERENO E CONSTRUTIVO SOBRE A OBRA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Óscar Barbosa "Cancan"]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Sep 2026 11:00:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>há diagnósticos no livro que correspondem à realidade guineense: corrupção, clientelismo, fragilidade institucional, pobreza e défice de capital humano</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/09/um-olhar-sereno-e-construtivo-sobre-a-obra/">UM OLHAR SERENO E CONSTRUTIVO SOBRE A OBRA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O livro é composto por 325 páginas e conta com testemunhos de Aníbal Cavaco Silva, economista e antigo Presidente de Portugal, Pedro Pires, um ilustre e grande Comandante da Luta de Libertação da Guiné e Cabo Verde sob os auspícios do PAIGC e ex-Presidente da República de Cabo Verde, Carlos Lopes, economista e antigo Secretário Executivo da Comissão Económica para África das Nações Unidas, entre outras personalidades.</p>



<p>Aproveito, igualmente, esta oportunidade para felicitar esta enorme contribuição que o livro trás para a juventude guineense e não só. Contudo, no livro, o autor traz uma reflexão profunda sobre os desafios da democracia, da governação e da construção do Estado em África. Procurei contrapor esta tese, suponho, escrita em defesa do seu Mestrado. Não venho criticar, mas sim, dar uma contribuição analítica sobre algumas passagens deste livro.</p>



<p>A contraposição não deve procurar negar tudo o que Domingos Simões Pereira afirma. Pelo contrário: há diagnósticos no livro que correspondem à realidade guineense: corrupção, clientelismo, fragilidade institucional, pobreza e défice de capital humano. O ponto vulnerável está na explicação das causas, na distribuição das responsabilidades e, sobretudo, no risco de transformar conceitos como “<em>autovitimização</em>” numa explicação demasiado abrangente para uma crise histórica muito mais complexa.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>1. O colonialismo não explica tudo &#8211; mas também não pode ser relativizado</strong></h4>



<p>A afirmação de que a estagnação da Guiné-Bissau “<em>não pode ser explicada apenas pelas heranças da escravatura ou do colonialismo</em>” é, em sentido estrito, correta. Cinquenta anos depois da independência, seria intelectualmente insustentável atribuir todos os fracassos atuais exclusivamente a Portugal. Mas há uma diferença enorme entre dizer que <strong>o colonialismo não explica tudo</strong> e sugerir que invocá-lo constitui “<em>autovitimização</em>”.</p>



<p>A realidade histórica é mensurável. Segundo um estudo do Banco Mundial, no momento da independência a Guiné-Bissau tinha uma taxa de alfabetização de aproximadamente 1%, somente 60 quilómetros de estradas asfaltadas, uma oferta extremamente reduzida de serviços de saúde e educação e praticamente nenhuma base institucional moderna sobre a qual construir o novo Estado.</p>



<p>Isto significa que a República não herdou simplesmente “um Estado fraco”. Herdou, em larga medida, a ausência das condições materiais, humanas e administrativas necessárias ao funcionamento de um Estado moderno. Portanto, reconhecer esse ponto de partida não significa desresponsabilizar os dirigentes pós-independência. Significa apenas estabelecer corretamente a linha de partida histórica.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>2. O primeiro Estado dirigido pelo PAIGC tem responsabilidades &#8211; mas não pode ser analisado fora desse ponto de partida</strong></h4>



<p>Aqui há uma parte importante da tese de Simões Pereira que merece ser aceite. O Estado construído depois da independência não conseguiu criar instituições suficientemente robustas, previsíveis e inclusivas. O partido único, a concentração política, as tensões entre poder civil e militar e as sucessivas ruturas internas contribuíram para uma fragilidade que se tornaria estrutural.</p>



<p>O golpe de 1980, a guerra de 1998-1999, os golpes e tentativas posteriores e, finalmente, a nova rutura militar de novembro de 2025 demonstram que a Guiné-Bissau nunca resolveu definitivamente a questão fundamental da subordinação das Forças Armadas ao poder civil constitucional. A sequência de golpes e tentativas é amplamente documentada.</p>



<p>Mas existe uma diferença entre reconhecer os erros do primeiro Estado e concluir implicitamente que o projeto da independência criou a própria instabilidade contemporânea. O Banco Mundial sublinha precisamente a combinação dos dois fatores: um território colonial profundamente negligenciado e, posteriormente, décadas de fragilidade política, instituições deficientes, guerra e golpes de Estado.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>3. Corrupção e clientelismo são reais; “autovitimização” é muito mais difícil de provar</strong></h4>



<p>Neste ponto, os dados dão alguma razão a Simões Pereira. A corrupção constitui uma grave vulnerabilidade institucional. No Índice de Perceção da Corrupção de 2025, a Guiné-Bissau obteve apenas 21 pontos em 100, ficando na parte inferior da classificação mundial. O FMI continua também a exigir reformas de contratação pública, transparência, auditoria, governação e combate à corrupção.</p>



<p>Portanto, negar o problema seria fugir à realidade. Todavia, “autovitimização” não possui o mesmo estatuto analítico que corrupção, pobreza, dívida pública ou analfabetismo. Corrupção pode ser medida; receitas públicas podem ser medidas; escolarização pode ser medida. “Autovitimização” é uma categoria político-psicológica que necessita de definição, indicadores e demonstração causal. Caso contrário, corre-se o risco de transformar a expressão numa espécie de conceito guarda-chuva: sempre que o Estado falha, conclui-se que a sociedade se “<em>autovitimiza</em>”.</p>



<p>Uma coisa é dizer<em>: temos de assumir a nossa parcela de responsabilidade histórica. </em>Outra completamente diferente é sugerir: <em>a referência às condições históricas e estruturais constitui uma cultura de vitimização. </em>A primeira proposição é defensável. A segunda necessita de muito mais prova.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>4. A realidade social confirma a gravidade do diagnóstico — mas também mostra que o problema ultrapassa atitudes individuais</strong></h4>



<p>Os números atuais são particularmente eloquentes. O PNUD estima, com base no último inquérito disponível, que 64,4% da população vivia em pobreza multidimensional, enquanto outros 20% se encontravam vulneráveis a essa condição.</p>



<p>O Banco Mundial assinala que quase um terço das crianças entre 6 e 11 anos nunca frequentou a escola e que a taxa média de conclusão do ensino primário ronda apenas 27%. Portanto, quando Simões Pereira diz que é necessário combater a pobreza, o analfabetismo e as desigualdades, o diagnóstico é dificilmente contestável.</p>



<p>A questão é outra: por que razão, depois de cinco décadas, o Estado continua incapaz de fornecer adequadamente esses bens públicos?</p>



<p>Responder apenas “<em>corrupção, clientelismo e autovitimização</em>” não chega. É necessário incluir capacidade fiscal, administração pública, qualidade da educação, fragilidade judicial, interferência militar, instabilidade governamental, dependência externa, reduzido setor privado, baixa produtividade, pequena dimensão do mercado e dependência quase absoluta do caju.</p>



<p>O Banco Mundial identifica precisamente a conjugação de fragilidade política, fraco capital humano e reduzido setor privado como obstáculos centrais ao desenvolvimento.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>5. Há ainda um problema na ideia de que primeiro se constrói desenvolvimento e depois democracia</strong></h4>



<p>A formulação reproduzida pela editora é particularmente importante: a democracia liberal só poderia prosperar mediante a “<em>construção prévia</em>” de um Estado forte, funcional e orientado para o desenvolvimento.</p>



<p>É aqui que a tese merece maior discussão. Porque a experiência da própria Guiné-Bissau demonstra que Estado de Direito, estabilidade institucional e desenvolvimento não podem ser colocados numa sequência linear, ou seja, primeiro desenvolvimento → depois democracia.</p>



<p>Sem tribunais previsíveis, segurança jurídica, estabilidade constitucional, prestação de contas, Parlamento funcional e alternância pacífica do poder, torna-se muito mais difícil atrair investimento, aumentar receitas, executar políticas públicas e combater a pobreza.</p>



<p>O Economic Update do Banco Mundial publicado em junho de 2026 confirma exatamente isso: empresas identificam cada vez mais tribunais, alfândegas e imprevisibilidade regulatória como obstáculos, e a instabilidade política está entre os fatores que limitam as perspetivas económicas.</p>



<p>Logo, democracia e desenvolvimento não são duas estações sucessivas. São processos interdependentes. Não é necessário escolher entre pão e liberdade, entre escolas e Estado de Direito, entre desenvolvimento e democracia. Um Estado funcional necessita simultaneamente dessas dimensões.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>6. Existe uma pergunta inevitável: onde termina o investigador e começa o protagonista?</strong></h4>



<p>Este talvez seja o ponto mais delicado da obra.</p>



<p>Domingos Simões Pereira não observa a história recente da Guiné-Bissau de fora. Foi Primeiro-Ministro entre 2014 e 2015, lidera o PAIGC há vários anos e foi eleito Presidente da Assembleia Nacional Popular em 2023. Consequentemente, quando um protagonista dessa importância escreve sobre desresponsabilização das elites, clientelismo, captura do Estado e incapacidade institucional, surge legitimamente uma pergunta metodológica: onde está a sua própria responsabilidade e a responsabilidade das organizações que dirigiu?</p>



<p>Não se trata de acusá-lo de corrupção — isso exigiria provas específicas que não devem ser inventadas — nem de desvalorizar a obra pelo percurso político do autor. Trata-se de exigir autorreflexão histórica.</p>



<p>Se o problema foram as elites políticas, o autor pertenceu e pertence à elite dirigente. Se o problema foi o PAIGC pós-independência, ele dirige o PAIGC desde 2014. Se houve clientelismo partidário, importa explicar quais mecanismos combateu quando teve poder e quais permaneceram. Se houve falhas do Estado, importa distinguir entre as que tentou corrigir, as que não conseguiu corrigir e aquelas pelas quais eventualmente partilha responsabilidade política.</p>



<p>Sem esse exercício, a análise corre o risco de transformar o autor simultaneamente em protagonista da história e observador externo das responsabilidades dessa mesma história.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>7. Mas seria igualmente injusto dizer que a experiência governativa de Simões Pereira foi simplesmente um fracasso</strong></h4>



<p>E aqui a contraposição deve conservar rigor. Fontes independentes reconhecem que o Governo de Domingos Simões Pereira lançou reformas e elaborou o Terra Ranka, mobilizando em Bruxelas cerca de 1,3 mil milhões de euros em compromissos internacionais.</p>



<p>O FMI registou nessa altura medidas destinadas a melhorar a gestão do Tesouro e a mobilização de receitas públicas. O relatório BTI 2026 chega mesmo a avaliar favoravelmente a capacidade reformadora daquele Governo, observando que o processo foi interrompido pela crise política que culminou na sua demissão em agosto de 2015.</p>



<p>E precisamente aqui aparece uma contradição interessante para a tese do próprio livro: <strong>se um Governo considerado relativamente competente, portador de um programa estruturado e beneficiário de extraordinário apoio internacional foi incapaz de permanecer no poder durante muito mais de um ano, então a explicação da crise guineense dificilmente pode resumir-se à corrupção ou à “autovitimização”.</strong></p>



<p>O episódio demonstra a importância da arquitetura constitucional, da luta pelo controlo do Estado, da personalização do poder e da fragilidade das instituições de arbitragem.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>8. O grande ausente de qualquer explicação excessivamente centrada nas elites civis é o problema militar</strong></h4>



<p>A trajetória da Guiné-Bissau não pode ser explicada adequadamente sem responder a uma pergunta: por que razão o poder das armas continuou repetidamente a poder interromper o poder das urnas?</p>



<p>O problema atravessa diferentes Presidentes, Governos e partidos. Passou pelo golpe de 1980, pela guerra de 1998, pelo golpe de 2003, pelos acontecimentos de 2009, pelo golpe de 2012, por sucessivas alegações ou tentativas posteriores e pela tomada militar do poder em novembro de 2025.</p>



<p>Isso sugere um problema de natureza estrutural: o Estado nunca concluiu a construção de um monopólio constitucional e civil do poder político. Uma teoria da democracia guineense que não coloque a reforma profunda do setor da defesa, a doutrina republicana das Forças Armadas e a submissão definitiva do poder militar às instituições civis no centro da análise ficará necessariamente incompleta.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>A formulação que considero mais próxima da realidade guineense</strong></h4>



<p>A Guiné-Bissau não está onde está por uma única causa. Não é simplesmente vítima do colonialismo. Não é simplesmente vítima dos militares. Não é simplesmente vítima dos políticos. Não é simplesmente vítima da corrupção. E muito menos pode toda a explicação ser condensada numa alegada propensão nacional para a “autovitimização”.</p>



<p>O que existe é uma <strong>acumulação histórica de fragilidades</strong>: <strong>subdesenvolvimento colonial + herança institucional quase inexistente + opções políticas problemáticas depois da independência + partido único + deficiente separação entre Estado, partido e Forças Armadas + golpes e guerra + fragilidade constitucional + personalização do poder + corrupção e clientelismo + baixa capacidade fiscal + pobreza e défice educacional + dependência do caju + reduzido setor privado + interferências e dependências externas.</strong></p>



<p>No meu modesto entender, a força do livro de Domingos Simões Pereira poderá estar precisamente em provocar este debate. Mas a sua tese tornar-se-á muito mais convincente se a noção de responsabilidade nacional não substituir a responsabilidade histórica concreta de instituições, partidos, dirigentes civis e chefias militares.</p>



<p>E há uma frase que, a meu ver, resume a contraposição: <strong>A Guiné-Bissau precisa, sim, de abandonar a cultura da desculpa; mas não deve substituir a leitura rigorosa da História por uma cultura da culpa. </strong>O desafio não consiste em escolher entre culpar o colonialismo ou culpar os guineenses. Consiste em identificar quem decidiu o quê, em que momento, com que meios, com que consequências e que reformas institucionais podem impedir a repetição dos mesmos ciclos. É aí que a análise deixa de ser ideológica e passa verdadeiramente a servir a construção do Estado.</p>
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