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	<title>Arquivo de investigação académica - Duas Linhas</title>
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		<title>Os predadores na investigação científica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[José d'Encarnação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Jan 2024 00:00:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[revistas científicas exigem pagamento pelas publicações]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Diz o título do artigo de Tiago Ramalho: «Pagar para publicar: ciência em Portugal cada vez mais refém de revistas predadoras»; subtítulo elucidativo também: «As taxas de publicação de artigos estarão a retirar pelo menos oito milhões de euros da ciência portuguesa. Ciência aberta é opção advogada pelos cientistas. A meu ver – e perdoem-me [&#8230;]</p>
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<p>Diz o título do artigo de Tiago Ramalho: «Pagar para publicar: ciência em Portugal cada vez mais refém de revistas predadoras»; subtítulo elucidativo também: «As taxas de publicação de artigos estarão a retirar pelo menos oito milhões de euros da ciência portuguesa. Ciência aberta é opção advogada pelos cientistas.</p>



<p>A meu ver – e perdoem-me se me considero de pleno direito no rol dos cientistas – a raiz de todo esse escândalo reside na palavra ‘submissão’, que corresponde, na prática, a uma palavra mais forte e que, apesar de não se crer, bem real: ESCRAVATURA! Assim, em letras garrafais. De resto, a palavra entrou de tal modo no cotio que já se não estranha que, em vez de se apresentar uma «proposta» de publicação, sejamos de imediato enviados para uma página que tem por título SUBMISSÃO! Aí, camarada, vamos ao jugo!</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="599" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-1024x599.jpg" alt="" class="wp-image-31545" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-1024x599.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-300x175.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-768x449.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-696x407.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-1068x624.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico.jpg 1204w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">recorte do jornal Público do dia 21 de janeiro de 2024</figcaption></figure></div>


<p>Não há muito tempo, as instituições editavam revistas onde os seus membros e outros publicavam o resultado das suas investigações em curso ou em vias de conclusão. O artigo era apresentado à direcção da revista, que o lia, ajuizava do seu interesse e, embora pudesse num ou noutro ponto discordar das conclusões a que se havia chegado, sempre que o texto apresentasse lógica expositiva e obedecesse minimamente às regras da publicação, publicava-se. Se alguma dúvida subsistisse, havia sempre duas ou três pessoas do seu conselho de redacção a serem consultadas para dar parecer. Caso houvesse depois quem tivesse ideias diferentes, também elas devidamente alicerçadas em argumentos, a porta estava aberta para publicação.</p>



<p>Hoje, não. A direcção ou o conselho editorial não mandam! Quem manda são os <em>referees, </em>palavra estrangeira que designa uns senhores muito importantes, supostamente especialistas na matéria em questão. O artigo é-lhes enviado e os senhores dizem da sua justiça: publica-se, remodela-se, rejeita-se liminarmente. E o director vê-se de pernas cortadas e, amiúde, nem ousa contrapor, «se eles é que são os especialistas!&#8230;».</p>



<p>Mais: criou-se internacionalmente um rol de instituições de sábios &nbsp;e, menino, se a tua revista não logrou aceitar ser admitida nesse rol, esquece, artigo nela publicada vale… zero!</p>



<p>Criaram-se, pois, critérios de avaliação artificiais, &#8211; os tais predadores! – que foram impostos às comissões de avaliação. E chegamos ao ponto de um livro inovador publicado por um catedrático não ter cotação, enquanto o artigo feito por quem soube manusear bem os dados colhidos aqui e além na Internet, tira um parágrafo deste, outro daquele, tenta coser tudo mais ou menos, esse artigo, com muitas citações e, sobretudo, se for redigido em inglês (não interessa se mal ou bem), vale muito mais, na opinião dos avaliadores, boa parte estrangeiros (tem que ser!) que mal arranham (no nosso caso) a língua de Camões. Alias, nem Camões eles sabem quem foi!&#8230;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="1024" height="173" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-2-1024x173.jpg" alt="" class="wp-image-31543" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-2-1024x173.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-2-300x51.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-2-768x130.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-2-1536x259.jpg 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-2-696x117.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-2-1392x235.jpg 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-2-1068x180.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/01/artigo-publico-2.jpg 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">recorte do jornal Público do dia 21 de janeiro de 2024</figcaption></figure></div>


<p>Tive como Mestre o Doutor D. Fernando de Almeida, catedrático de Arqueologia só depois de se ter formado em Medicina (Obstetrícia e Ginecologia) e de ter estagiado com o primeiro Nobel português, Egas Moniz. E ele dizia-nos:</p>



<p>– Sabem quantas páginas tem o artigo que mais célebre me tornou enquanto estagiário de Egas Moniz? Cinco, meninos! Apenas cinco! Dava ali a conhecer o resultado inédito de uma das experiência que então leváramos a efeito!</p>



<p>Fez bem o jornal <em>Público</em> em ter aceitado a chamada de atenção de Tiago Ramalho e a entrevista que ele deu a Eloy Rodrigues. Primeiro, porque ele tocou bem a tecla: o dinheiro! O quanto se esvai do bolso de cada um, quando poderia ser mais bem empregado em apoiar a investigação em si. «É a Economia, estúpido!», soube acentuar o diretor de campanha de Bill Clinton nas eleições de 1992. Pois é, senhores, a economia, o dinheirinho que, assim, se vai sub-repticiamente esgueirando para os bolsos de… sabe-se lá quem!</p>



<p>Somos, de resto, constantemente ‘assaltados’ por esses predadores. Hoje mesmo, às 14.33 h, recebi uma mensagem do Science Publishing Group, que começava assim:</p>



<p>«Since your previous publісatіon&nbsp;<em>&#8220;Entrevista com José d’Encarnação […]</em>&nbsp;“ has been widely recognized, we&#8217;re pleased to invite you to&nbsp;<strong>contribute research works</strong>&nbsp;in your specialized/interested fields. If you are interested in рaреr ѕuЬmiѕѕion, please ϲlіϲk».</p>



<p>E vinha o atalho que me levaria a saber condições da republicação do que eu já divulgara, porque assim teria maior divulgação, etc. etc.</p>



<p>Em conclusão: caso a Junta Nacional de Investigação Científica não mude os seus paradigmas e não se rebele contra essas normas estrangeiras, vamos continuar assim, escravos, a perder dinheiro e a não contribuir eficazmente para o progresso da Ciência.</p>



<p>E o pior de tudo está bem à vista e, daí, a grande oportunidade do artigo: é que já começou a campanha eleitoral para o 10 de Março e quem é que já ouviu falar&nbsp;um candidato em novas regras para o incremento da investigação científica?</p>



<p>Tempo é de acordar, cientistas!</p>
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