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	<title>Arquivo de História da Maçonaria - Duas Linhas</title>
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		<title>A médica que deu voz às mulheres</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vera Nobre]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Jan 2026 00:00:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Formou-se em 1900 com uma tese que já revelava a sua missão: proteger as mulheres grávidas pobres como forma de garantir um futuro digno às crianças que nasceriam</p>
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<p>Nasceu em Elvas, a 25 de janeiro de 1867, numa terra de fronteira onde a resistência faz parte da paisagem e do carácter. Adelaide de Jesus Brazão, filha de uma família humilde, tornou-se, ainda criança, o apoio da mãe viúva e dos irmãos mais novos. Trabalhou como criada de servir em casas abastadas e em montes alentejanos, enquanto, nas horas roubadas ao cansaço, estudava para alcançar a única instrução possível: a quarta classe.</p>



<p>Cantava enquanto trabalhava. Diz-se que foi ao ouvi-la cantar que o futuro marido se apaixonou. Manuel Cabete, sargento republicano de Elvas, progressista e culto, identificou desde logo grande ambição e inteligência naquela jovem alta e forte, de cabelos negros brilhantes e olhos vivos que o cativara.</p>



<p>Casaram-se em 1886. Manuel não a confinou à vida doméstica. Acreditou nela quando quase ninguém acreditava nas mulheres e incitou-a a prosseguir os estudos. O seu casamento, num tempo em que tantas mulheres eram silenciadas, tornou-se para ela um espaço de apoio e emancipação. Manuel vendeu terras, partilhou tarefas de casa, tudo para que pudessem sustentar o sonho de Adelaide: ingressar na Escola Médico Cirúrgica. Juntos partiram para Lisboa, onde Adelaide enfrentaria o maior desafio da sua vida: estudar Medicina num meio quase exclusivamente masculino e profundamente marcado por preconceitos.</p>



<p>Formou-se em 1900, apresentando uma tese cujo tema já revelava a sua missão: proteger as mulheres grávidas pobres como forma de garantir um futuro digno às crianças que nasceriam. Para Adelaide, a medicina não era apenas ciência — era uma forma de intervenção social. Iniciou o exercício clínico na especialidade de Ginecologia, uma área sensível, ainda envolta em tabus, prestando especial atenção a mulheres em situações de grande vulnerabilidade, incluindo as que viviam da prostituição.</p>



<p>Abriu consultório em Lisboa, mas não se limitou ao atendimento individual. Sem esquecer as suas origens, promoveu sessões públicas sobre alimentação, pedagogia e puericultura, denunciando as causas invisíveis da mortalidade infantil e impulsionou um projeto-lei para garantir licença de maternidade às mulheres trabalhadoras.</p>



<p>Com frontalidade, afirmou que moda das mulheres devia obedecer à saúde e não à vaidade: condenou espartilhos que deformavam corpos, saltos altos usados por grávidas, saias longas e de tecidos pesados (ajudam à proliferação dos ácaros) dietas perigosas e substâncias como o vinagre para emagrecer. Alertou para os riscos do álcool e do tabaco quando ainda eram sinais de estatuto social.</p>



<p>Republicana e feminista, entrou na Maçonaria em 1907, adotando o nome Louise Michel, em homenagem à revolucionária francesa. Fundou o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, com sede no seu consultório e liderou associações, escreveu manifestos, organizou congressos. Em 1910, acreditou que a República poderia melhorar a condição das mulheres e, ao lado de Carolina Beatriz Ângelo, bordou as novas bandeiras — num gesto simbólico de esperança.</p>



<p>Em 1929, viúva e desiludida com o rumo autoritário do país, partiu para Angola com o sobrinho, a quem criava como filho. Em Luanda, abriu um consultório, denunciou condições degradantes, defendeu maternidades, creches e redes de apoio social. Recusou aceitar a miséria como destino — nem em Portugal, nem no mundo colonial.</p>



<p>Regressou a Lisboa enfraquecida e doente, mas fiel a si mesma até ao fim. Morreu a 19 de setembro de 1935. Pediu um enterro simples, amortalhada com a bata médica que a acompanhara toda a vida.</p>



<p>Décadas depois, o país reconheceu-a com a medalha de Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Mas Adelaide Cabete, muito antes de títulos ou honras póstumas, já tinha um lugar na história das grandes mulheres portuguesas: aquelas que ousaram estudar, dar voz às outras mulheres e resistir.</p>
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