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	<title>Arquivo de experiência de vida - Duas Linhas</title>
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	<description>Informação online</description>
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		<title>A SOCIEDADE QUE ARQUIVA OS VIVOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Manuel Tomaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2026 23:10:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A experiência acumulada não deveria ser descartada. Deveria ser integrada.</p>
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<p>Vivemos mais anos. Temos hoje milhões de pessoas com mais de 65, 70 ou 80 anos plenamente lúcidas, intelectualmente activas, criativas e capazes de continuar a contribuir para a sociedade.<br>Mas os sistemas continuam organizados segundo modelos antigos, concebidos numa época em que envelhecer significava incapacidade.<br>Hoje já não é assim. Existe uma diferença profunda entre idade biológica, mental e administrativa.<br>A primeira pertence ao corpo. A segunda pertence à curiosidade, criatividade, inteligência e vontade de continuar a participar no mundo. A terceira pertence aos formulários e mecanismos burocráticos que classificam seres humanos através de números. E é precisamente aí que nasce uma das grandes injustiças silenciosas do nosso tempo.<br>A sociedade continua a investir fortemente na preparação dos jovens para entrarem no sistema, mas investe muito pouco na continuidade criativa, intelectual e humana daqueles que chegam às fases maduras da vida. Muitas reformas transformaram-se numa espécie de corredor de espera social. Como se a vida criativa tivesse terminado apenas porque terminou um vínculo profissional.</p>



<p>Mas o ser humano não é apenas função laboral. Há pessoas que atingem precisamente nas fases mais maduras da vida a sua maior profundidade humana, capacidade crítica e visão do mundo. A experiência acumulada não deveria ser descartada. Deveria ser integrada.<br>No entanto, continuamos a viver numa cultura obcecada pela velocidade, juventude, estética e novidade permanente, confundindo frequentemente juventude com valor e envelhecimento com irrelevância. É um erro civilizacional.</p>



<p>Nunca precisámos tanto de memória, pensamento crítico, experiência e capacidade de interpretação humana. E, paradoxalmente, afastamos precisamente aqueles que poderiam ajudar a compreender melhor o tempo em que vivemos.<br>O mais curioso é que aquilo que hoje acontece às gerações mais velhas acontecerá inevitavelmente aos jovens actuais. Também eles descobrirão um dia a distância dolorosa entre aquilo que continuam capazes de fazer e aquilo que os sistemas lhes permitirão continuar a fazer.</p>



<p>Esta não é apenas uma reflexão sobre envelhecimento. É uma reflexão sobre o modelo de sociedade que estamos a construir. Uma sociedade saudável não pode desperdiçar inteligência, experiência e criatividade apenas porque passaram determinados anos sobre um documento de identificação.<br>Talvez esteja na altura de reinventar o lugar da maturidade nas democracias contemporâneas. Porque envelhecer não deveria significar desaparecimento. Poderia significar exactamente o contrário: mais profundidade, mais consciência, mais humanidade e uma nova forma de contribuição social.</p>
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		<title>Os meninos do rio Águeda que se fizeram homens</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luís Grego]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Feb 2024 07:42:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
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		<category><![CDATA[a vida tal como ela é]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Já conhecia o rio das férias em casa dos meus tios, na Borralha, mas foi no dia de corpus christi que fui viver para o Sardão. As suas margens, os campos de milho, a piscina, o Fojo, o Poço do Conde e o Souto do Rio deram-me a liberdade da condição de ser menino. Ainda [&#8230;]</p>
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<p>Já conhecia o rio das férias em casa dos meus tios, na Borralha, mas foi no dia de <em>corpus christi</em> que fui viver para o Sardão. As suas margens, os campos de milho, a piscina, o Fojo, o Poço do Conde e o Souto do Rio deram-me a liberdade da condição de ser menino.</p>



<p>Ainda não sabia nadar, mas depressa lhe tomei o jeito e aos poucos fui ganhando a batalha contra a água. Primeiro com a Lola e depois com o Tio Bério que nos atirava para as pistas mais fundas, aquelas onde não tínhamos pé. Vivia dentro de água, vivíamos todos, a minha casa a cinquenta metros do rio.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/xQRkxf3.jpeg" alt="" class="wp-image-32373" style="width:769px;height:auto"/></figure></div>


<p>E ganhei amigos para a vida, o Noronha, companheiro de quilómetros debaixo de água, (desde já mandatado para lançar as minhas cinzas no lugar do costume), os irmãos Pina, o Paulo e o João que me telefona da Suíça sempre que lhe apetece, o Acácio (Cacito), o José e Paulo Seara, o Claudio, o Jorge Miguel da escola de condução, o Jorge Costa, o Pelicano (Carlos), o Bano, o Peles, o António Borges, os irmãos Brinco, o Zé Carlos, o já falecido Tónio da louça e tantos outros que a memória não me acompanha.</p>



<p>E aquele que nos imortalizou nas suas crónicas, o nosso querido Afonso de Melo. Sabes, meu querido, a Francisca tem nos olhos o azul do nosso rio. Um dia iremos todos com ela nadar até ao Alfusqueiro. Está prometido.</p>



<p>Logo bem cedo pela manhã atravessávamos o rio e construíamos um verdadeiro arsenal de guerra. As terroas eram feitas com palha misturada na lama para não se desfazerem no ar, antes de atingirem o alvo. Algumas até tinham pequenos seixos para deixarem marcas no animal. Lá para o meio da tarde começava a verdadeira batalha.</p>



<p>De uma para a outra margem, alguns metros acima da piscina, todos enlameados, mergulhávamos no rio para não mais aparecermos. E assim de repente as águas ficavam castanhas, para desespero da Lola.</p>



<p>Uma corrente de miúdos a nadar em apneia para baixo dos estrados, para não sermos vistos. Com alguma sorte, por entre as tábuas de madeira, podíamos espreitar as pernas das senhoras mais distraídas que acudiam aos seus filhotes. Os olhitos cheios de água a tentar descobrir pipis por entre as frestas. E elas a andar de um lado para o outro e nós cá em baixo a bailar também, a ajustar a mira.</p>



<p>Nós inventámos os nossos rituais iniciáticos, fomos viris e descobrimos o sexo, deixando para trás, aos poucos, a infância e a adolescência. Os meninos aprenderam a ser homens.</p>



<p>Dito de outro modo, como eu viria a aprender mais tarde “a infância prolongada é específica da espécie humana em função da imaturação do ser humano à nascença”.</p>



<p>Esse rio já não existe, mas ficaram os amigos e a saudade.</p>



<p>Depois houve um tempo em percorri a estrada lado a lado com o Zé Luís Martins e com ele partilhei a vida em Coimbra. Tornaram possível eu lá ter estado. Trago na memória o cheirinho dos rojões da D. Lisete.</p>



<p>Nos anos mais recentes velhas amizades reacenderam. Reencontrei o meu querido Luís Fonseca: e como cresceste Luís, como te fizeste esse pensador enorme. Um orgulho tão grande em continuares a ser meu amigo. E continua a telefonar a horas palermas, três da manhã sei lá, só para nos ouvirmos.</p>



<p>O Artur e o Fortunato sempre estiveram comigo, nunca nos afastámos. São do xadrêz do Orfeão. O Nuno Melo reapareceu em boa hora, tal como o João Oliveira que ganhou um protagonismo imenso na minha vida. Dás tanto à tua terra e ela nem sabe. Bem hajas.</p>



<p>O Eduardo Girão que nos junta religiosamente para daqui a alguns anos estarmos todos sentados no pavilhão a ver jogar o Paulo Ramos, sequinho, e o filho do Quim Zé.</p>



<p>O Augusto Semedo que me desafiou e que bem que ele escreve. Excelentes editoriais que tocam com justiça e clareza nos assuntos da terra. Só precisa de carinho, e vamos falando várias vezes ao dia nem que seja apenas para dizer que <em>no pasa nada</em>.</p>



<p>O meu filho Luís é músico clarinetista na Banda Marcial de Fermentelos. O Criador a colocar as peças no tabuleiro.</p>



<p>Neste balanço da minha vida feito com homens guardei para o final a mulher amiga que esteve sempre presente ao longo destes anos, que sempre me ouviu e aconselhou.</p>



<p>Obrigado Guidinha. Guida Borja que conheci como Guida Cunha. É mais fácil se disser que é a filha da professora Zaira e do professor Flávio.</p>



<p><em><sup>O autor escreve em português tal como o seu pai lhe ensinou, ao colo, a ler “Abola”.</sup></em></p>
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		<title>Publicidade, propaganda, mentiras</title>
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		<dc:creator><![CDATA[José d'Encarnação]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Aug 2022 00:33:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ouvi com toda a atenção o discurso do político recém-chegado. Tudo iria ser feito, salvar do marasmo de décadas toda uma população que, até ele vir, votara errado, &#160;noutras formações partidárias. Uma lástima, um zero. Do princípio se iria agora começar. Por sinal, eu recebera dias antes um vídeo em que se dava conta do [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ouvi com toda a atenção o discurso do político recém-chegado. Tudo iria ser feito, salvar do marasmo de décadas toda uma população que, até ele vir, votara errado, &nbsp;noutras formações partidárias. Uma lástima, um zero. Do princípio se iria agora começar.</p>



<p>Por sinal, eu recebera dias antes um vídeo em que se dava conta do que um ancião aprendera, das mudanças que em si, agora, já setuagenário, sentia: «Aprendi a não corrigir as pessoas, mesmo quando sei que estão erradas. A responsabilidade de tornar todos perfeitos não é minha» – era uma das conclusões a que chegara.</p>



<p>Abençoado! Resisto, pois, tranquilo, à reacção – outrora impetuosa – de corrigir o recém-chegado. Que é bem verdade, amigo ancião, também isso não é da nossa responsabilidade.</p>



<p>E não é que, de supetão, me vieram à mente experiências e normas e ditos e cenas?</p>



<p>A primeira, a da guerra actual, a das balas, dos mísseis e dos drones e, sobretudo, a da desinformação. Sei bem o que isso vale; na tropa, quando fiz a especialidade, tive a disciplina de «Acção Psicológica»…</p>



<p>A segunda, a da exímia interpretação do actor João Vasco em «La Nonna»: a idosa, sorrateira, ia à cozinha quando todos dormiam e banqueteava-se com tudo o encontrava, porque, de dia, a obrigavam a mui rigorosa dieta.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1552" height="1109" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2022/08/Joao-Vasco-em-La-Nonna.jpg" alt="" class="wp-image-21219"/><figcaption>João Vasco, LA NONNA de Roberto Cossa</figcaption></figure>



<p>A terceira (associada à ideia de noite), a do senhor que, tendo-se levantado para ir à casa-de-banho, explica à mulher: «Ouvi um barulho, a televisão estava acesa…».</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2022/08/Capa-de-Psicologia-das-Multidoes.jpg" alt="" class="wp-image-21220" width="320" height="512"/></figure></div>


<p>A quarta, o livro de Gustave Le Bon, <em>Psicologia das Multidões</em> (de 1895!), que não me canso de citar, nomeadamente naquela parte em que diz que o candidato pode «prometer sem receio as mais amplas reformas», porque a promessa produz efeito e não compromete o futuro, o eleitor depressa se esquece disso. Aliás, «o candidato que consegue descobrir uma fórmula nova, bastante destituída de significado preciso e, por consequência, adaptável às mais diversas aspirações, obtém um sucesso infalível». E cita o caso do slogan «Salud y republica federal» que norteou a revolução espanhola de 1873 e cuja interpretação foi a mais variada e… serviu para tudo e todos!</p>



<p>Isso mesmo! Nada de imposições. A não ser uma, no caso dos anciãos e na sequência da sabedoria daquele que falava no vídeo: importa é <em>envelhe<strong>s</strong>er!</em> Exacto, com s, como se lembraram escrever, a dado passo, os técnicos da Misericórdia de Cascais: envelhecer + ser! Ser é o mais importante!</p>



<p>E olhar com um sorriso para quem se desfaz em promessas; para quem garante que se levantou porque ouviu barulho; ou para com a avozinha que garante: «Eu? Não comi nada, não! Juro! Dormi a noite toda!».</p>
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