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	<title>Arquivo de discoteca Lux - Duas Linhas</title>
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	<description>Informação online</description>
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	<title>Arquivo de discoteca Lux - Duas Linhas</title>
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		<title>Frágil Lux</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Sep 2020 20:01:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[LIFESTYLE]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[discoteca Lux]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Purpurinas pelo cabelo e ombros, toilete feita, peguei no saco. Ele apanhou-me à porta num Mercedes vermelho descapotável, bancos e volante brancos creme. Que charme! Chama-lhe a amante, só o conduz em ocasiões especiais. Esta era a ocasião. Deitado por cima do edifício principal, a parte de baixo do corpo de uma mulher roliça, em [&#8230;]</p>
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<p>Purpurinas pelo cabelo e ombros, toilete feita, peguei no saco. Ele apanhou-me à porta num Mercedes vermelho descapotável, bancos e volante brancos creme. Que charme! Chama-lhe a amante, só o conduz em ocasiões especiais. Esta era a ocasião.</p>



<p>Deitado por cima do edifício principal, a parte de baixo do corpo de uma mulher roliça, em tamanho XXL, deixava cair as pernas abertas para a entrada. Era pelo meio delas que se entrava, passando pelo porteiro inicial da casa que, divertido, nos recebia vestido com um fato em forma de preservativo. Originalidade em grande!</p>



<p>Entrei de braço dado com o Carlos, não podia estar em melhor companhia. Subimos a escadaria sem pressas, por segundos senti que caminhava para o altar com um vestido azul escuro acetinado, até aos pés, ombros desnudados, discreto e elegante. Podia ser só impressão minha, mas sentia-me bonita.</p>



<p>Passei num instante pela casa de banho, onde deixei o saco, e entreguei-me aos abraços e conversa com a enorme família que nunca perde um aniversário. É noite de reencontros, de matar saudades, de conversar e rir num contexto de copofonia, numa festa deliciosa com bar aberto.</p>



<p>Estava num sítio de dança, portanto fui dançar, a música é sempre estrondosa. E chegou a altura. Não via a minha funcionária preferida em lado nenhum, pensei rapidamente, subi para um banco. Três segundos depois apareceu um segurança a pedir-me para descer. &#8220;Olá, queria mesmo falar consigo. Pode pedir à D. Rosa para ir ter comigo à casa de banho? Ela sabe do que se trata&#8221;. Um pouco incrédulo lá pegou no walkie talk. Pela última vez o vestido azul escuro atravessou a sala, ela já me esperava com o saco e um sorriso malandro.</p>



<p>Vestido arrumado, voltei à pista de calças pretas e um top com brilho. Quando se dança em todos os sentidos, o vestido já não serve a ocasião. Como é habitual encerrámos o 1º piso, descemos à pista de dança pura e dura. Falámos menos, dançámos mais, até de madrugada!</p>



<p><strong>Setembro de 2020</strong><strong></strong></p>



<p>Só tinha uma hora e meia, apanhei um táxi. &#8220;Há seis meses que ninguém me faz esse pedido&#8221;, disse o taxista. &#8220;Sim, precisamente seis meses&#8221;, murmurei.</p>



<p>Apenas o porteiro estava à entrada. Disse-me me logo que já não podia entrar, lotação de 150 pessoas, cadeiras com a distância obrigatória, máscaras&#8230; enfim.</p>



<p>Ao fim de seis meses, o Lux Frágil está entreaberto para promover espectáculos e eventos. Seja no terraço ou no 1º piso as rigorosas regras são idênticas. A equipa podia ter optado por servir refeições e abrir noutro contexto mas decidiu ser fiel à identidade da casa, aqui ninguém come caracóis.</p>



<p>Começou a ouvir-se o som do dj, consegui imaginá-lo a passar música para uma plateia sem ordem para dançar. Acendi um cigarro e fui escutando as mil regras a cumprir, a lei que vai sendo volátil, as expectativas em aberto. Continuámos a conversa séria, mas acabámos por passar para a divertida. Nunca falámos tanto.</p>



<p>Pelo meio explicava aos que iam chegando por que não podiam entrar: a lotação, os horários, etc. Sempre educado, contente pela reabertura, mas cauteloso com o desenrolar dos acontecimentos. Havia no porteiro um brilho nos olhos, sentia-se que tinha a &#8220;camisola vestida&#8221;, como sempre, aliás.</p>



<p>Seis meses é muito tempo, demasiado. Mas a equipa desdobrou-se logo em iniciativas desde o confinamento, manteve sempre a relação com o público, mesmo que virtual. Uma estratégia feita por pessoas para pessoas. Uma equipa que, mais do que ninguém, sente com certeza o silêncio pelos cantos da casa, a pista desligada, nua, sem vida.</p>



<p>Mas uma máscara não é uma mordaça, e o Lux vai continuar a desdobrar-se em eventos, iniciativas simples, sempre com conteúdo, espetáculos e tudo o mais que ocorrer a esta equipa que resiste desde o primeiro dia ao maldito vírus. Cumprindo escrupulosamente a lei, mesmo que frágil, o Lux voltou a abrir portas.</p>



<p>Despedi-me, agradeci o delicioso bocadinho. Graças ao porteiro, apesar de não ter entrado, estive lá dentro sem ter que me sentar e usar máscara.</p>



<p>Falta ainda algum tempo, talvez um ano ou mais, talvez menos. Ninguém sabe ao certo quando é que se volta a acender as luzes da pista de dança. Mas, nesse dia, acabam-se os beijos e os abraços proibidos. Começa a festa das liberdades, sem mordaças.</p>



<p>Vou levar umas calças e um top num saco, vou entrar à mesma no Lux com um vestido de gala, tal como fiz no 10º aniversário em 2009. Irei direitinha à varanda cumprimentar a Poderosa e a Vigorosa, habituées da casa desde o primeiro dia. Depois dos abraços e reencontros vou dançar até de madrugada. A ocasião assim o exige.</p>
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		<title>A travessia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2020 11:51:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[LIFESTYLE]]></category>
		<category><![CDATA[David Bowie]]></category>
		<category><![CDATA[discoteca Lux]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Vargas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Lado A de pagar as contas permite o conforto, a ilusão de que estou a controlar a vida. Lado B? Olhar para o extrato bancário, cada vez mais pequeno e não ter ilusões. Não controlo a minha vida. Tudo foi feito num silêncio perfeito ao longo da tarde, ou melhor, um silêncio quase perfeito. [&#8230;]</p>
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<figure class="wp-block-audio"><audio controls src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2020/08/travessia.mp3"></audio></figure>



<p>O Lado A de pagar as contas permite o conforto, a ilusão de que estou a controlar a vida. Lado B? Olhar para o extrato bancário, cada vez mais pequeno e não ter ilusões. Não controlo a minha vida.</p>



<p>Tudo foi feito num silêncio perfeito ao longo da tarde, ou melhor, um silêncio quase perfeito. Os gritos estridentes das miúdas indianas entraram pelos tímpanos adentro até o sino tocar as nove horas. Sim claro, são crianças, é deixá-las brincar e serem felizes, mas os meus tímpanos não fazem distinção de idade, género ou nacionalidade. Ruído é ruído. Preciso urgentemente de música, quero ouvir algo novo.<br>Lembrei-me do set dele, perdi-o na noite anterior em directo. Gostei logo do nome e uma<br>electrónica ligeira encheu a casa. Arrumei os papéis com mil códigos de acesso e entreguei-me ao prazer de fazer uma tortilha. Comecei a mexer o corpo, compus o prato ao ritmo do dj. Mas,<br>depois, a electrónica começou a desconsertar-me, perdi o foco e as preocupações caíram logo no bolso do avental. &#8220;O dj percebeu e, repentinamente, passou para um registo de suave hipnose, uma voz feminina, melancólica e perfeita que me sossegou. O décor da casa mudou. Daí em diante atravessei um sem número de músicas da categoria &#8220;calma, bonita, pacificadora&#8221;. Viajei por jardins electrónicos cintilantes, caminhei junto ao rio, quase que me abracei com a ternura do som. Agradeci-lhe o momento de paz interior.</p>



<p><br>Jantei, carreguei no pause, liguei ao amigo Google para mais uma divertida conversa, estava feliz, há muito que tinha despido o avental. Uma hora depois, carreguei no play, ele voltou à electrónica, perfeita para tomar banho, escolher uma combinação macia, ligeiramente sexy, e beber um sumo de melancia fresco. Entrei para o quarto, a coluna quedou-se pelo corredor. A electrónica ligeira tornou-se mais leve, mais distante, um murmúrio, muito, muito baixinho. Mergulhei na cama, abri o Mac, abri o Bowie, ia desligar a coluna quando percebi que o dj voltou ao jazz, uma canção de amor perdido e despediu-se.<br>Cheguei ao fim de uma travessia de músicas escolhidas a dedo, só para mim, só para me<br>devolver a serenidade. Tive a sensação de que ele esteve cá em casa a observar-me. Viu a minha expressão satisfeita com os pagamentos, o desalento do extrato bancário, leu os dois emails que me tiraram as forças e passou a música perfeita, criou momentos perfeitos.<br>Levantei o som do documentário. Quanto mais as pestanas pesavam mais queria sorver as<br>imagens, a informação e a música que saía pelo ecrã. Era sobre ele. Ele.<br>Metade dos hits que canto como bandeiras foram criadas antes, ou muito pouco tempo depois, de ter nascido. Que legado, hits com mais de 40 anos. Intemporais.<br>Sou fã incondicional do Bowie e percebi melhor a criatividade, a versatilidade da música e dos<br>seus egos artísticos. Naveguei por aquele imaginário de &#8220;vestidos para homens&#8221; e<br>desdobramentos contínuos em personagens genuínas.<br>Nunca parou nas zonas de conforto, nunca se conformou. E, depois de se transformar mil vezes, de criar mil universos, fez uma pausa e decidiu ser, não o Ziggy Stardust ou o Major Tom, mas ele próprio, sem plumas ou vestidos de homem.<br>Quando deu um concerto em Alvalade, há muitos muitos anos, fiquei decepcionada por não trazer o espectáculo atrás, a magia. Percebi depois que não é nas plumas e nos vestidos que a magia vive. É nele, simplesmente David Bowie. O documentário concordou comigo.<br>Foi mágica a festa de homenagem que o Lux lhe prestou, três dias depois da sua morte. Num<br>domingo à tarde, fãs entre os 20 e os 60 anos adaptaram um look &#8220;bowie your self&#8221; e dançaram as infinitas músicas que nos deixou. Celebrou-se a vida, diluiu-se a angústia.<br>Decidi fumar um cigarro à janela com o Lado A. Foi a ouvir a &#8220;Travessia&#8221;, assim se chama o set de Rui Vargas, que larguei o Lado B e cheguei ao outro onde o Bowie me esperava.<br>Caí num sono reparador. Em silêncio.</p>
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