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	<title>Arquivo de Confraria da Castanha - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de Confraria da Castanha - Duas Linhas</title>
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		<title>ELOGIO DA MAÇÃ E DA CASTANHA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alberto Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 08:00:26 +0000</pubDate>
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<p>Começo por citar pequeno parágrafo de um bonito texto de Sophia de Melo Breyner Andresen: <em>A coisa mais antiga de que me lembro é de um quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima de uma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, una e inteira.</em></p>



<p>Permito-me parafrasear o texto de Sophia. E dizer que, das imagens mais antigas de que me lembro, não é a do mar, que conheci muito tarde, é a do pequeno horizonte da quinta do meu pai, vestido, ao longe, por uma singular mancha de castanheiros antigos, muitos deles seculares, debruado junto aos ribeiros, que regavam a pequena quinta por renques de macieiras, de que evoco a cor vibrante das maçãs Bravo de Esmolfe, a luzidia cor das maçãs camoesas, o delicioso sabor acre das maçãs reinetas, que aprendi a dizer cabaçais, e eu, como Sofia, nessas poéticas tardes de outono, ali encontrava a felicidade perfeita. Ali, em Sernancelhe.</p>



<p>Nesse vizinho chão, onde teve seu berço a Confraria da Maçã Portuguesa, a maçã, seu emblemático fruto, é designada como “fruto da terra, das raízes e da luz”.</p>



<p>Singulares estes apelativos de profundo significado.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Fruto da terra, deste chão que vem sendo povoado desde o Neolítico, como atesta esse alfobre de monumentos dolménicos, que hoje são cartaz ao longo dos trilhos que atravessam a serra de Leomil ou da Lapa; este chão que foi romano, foi godo, mouro e cristão; este chão que pertenceu ao rei; que pertenceu a senhorios laicos e eclesiásticos, onde habitaram lavradores livres e jornaleiros sujeitos; este chão onde os homens agora se igualam em seus direitos, onde labutam ainda com algum suor.</p>



<p>Chão de húmus propício, no aconchego do vale, onde correm ribeiros e o Rio Távora e onde nasce o rio Vouga.</p>



<p>Chão de encostas soalheiras, onde os frutos ganham os distintivos da cor e do sabor, que, ao despertar o outono, se soltam, agora, sobre as modernas paletes que os levarão aos quatro cantos do mundo.</p>



<p>Fruto da terra!&#8230;</p>



<p>Fruto das raízes e da luz!&#8230;</p>



<p>Fruto das raízes. Quer dizer que vem de longe, do princípio, de um tempo que mal pode chamar-se assim, porque ainda não existia a história.</p>



<p>A maçã vem do tempo em que Javé, o mundo já criado, vinha passear com Eva e Adão nesse Jardim que lhes talhara, o místico Jardim de Éden de que nos conta o <em>Génesis,</em> ao descrever os mitos fundadores da nossa cultura judaico-cristã.</p>



<p>Por esse mito, escrito em livro santo, sabemos que Javé ali fizera desabrochar as macieiras e uma delas havia, preciosa, que estava no meio do Jardim, de que Eva e Adão não poderiam recolher frutos.</p>



<p>Seduzida pela cor, pelo perfume, num outono qualquer, Eva colheu uma maçã e deu outra a Adão.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="799" height="1024" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/05/Tiziano_Vecelli_-_Adam_and_Eve_c_1550_-_MeisterDrucke-768553-799x1024.jpg" alt="" class="wp-image-49384" style="width:795px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/05/Tiziano_Vecelli_-_Adam_and_Eve_c_1550_-_MeisterDrucke-768553-799x1024.jpg 799w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/05/Tiziano_Vecelli_-_Adam_and_Eve_c_1550_-_MeisterDrucke-768553-234x300.jpg 234w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/05/Tiziano_Vecelli_-_Adam_and_Eve_c_1550_-_MeisterDrucke-768553-768x984.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/05/Tiziano_Vecelli_-_Adam_and_Eve_c_1550_-_MeisterDrucke-768553-696x892.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/05/Tiziano_Vecelli_-_Adam_and_Eve_c_1550_-_MeisterDrucke-768553.jpg 983w" sizes="(max-width: 799px) 100vw, 799px" /><figcaption class="wp-element-caption">Adão e Eva de Tiziano Vecelli &#8211;<em>1550</em></figcaption></figure></div>


<p>E, pela vez primeira neles, se gerou o verdadeiro conhecimento, isso que fora atribuição divina até ali. Maçã, fruto da luz. Eva e Adão reconheceram que estavam nus. Conheceram a sua desobediência. E deixaram a seus filhos, mais tarde, nós, essa capacidade de conhecer, de distinguir, o livre arbítrio que nos faz homens.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Maçã, fruto da terra, das raízes e da luz.</p>



<p>Fruto do Paraíso, o primeiro fruto que teve nome na nossa história, na nossa cultura.</p>



<p>Da castanha não nos fala o Livro do <em>Génesis.</em></p>



<p>Mas ei-la, logo ali.</p>



<p>Eva e Adão, fechadas as portas do Éden, caminharam sobre uma terra ainda vazia, abrindo os primeiros caminhos. Javé deu-lhes por agasalho, era outono, tempo das maçãs maduras, uma túnica de cordeiro. Não lhes encheu o bornal da merenda.</p>



<p>E Eva e Adão, os primeiros viventes nesta terra dos homens que agora é nossa, encontraram o primeiro alimento nas castanhas que, nesse virginal outono, se despejavam pelo chão, por onde abriam caminho. Foram eles quem primeiro as conheceu. E chamaram pão às castanhas que comeram. Fruta-pão, nome que nossos avós, seus filhos, mantiveram e Árvore-do-pão chamaram aos castanheiros.</p>



<p>E eis-nos celebrando, hoje, estes dois frutos. São ambos antigos. Desse princípio de mundo. Basta ver alguns troncos de castanheiros vizinhos, que têm mais de mil anos. Vieram, as árvores-mãe de ambos os frutos desse Oriente longínquo, onde o Éden pousara.</p>



<p>Cobrem hoje a nossa terra. Os frutos multiplicaram-se em variedades, a maçã e a castanha, como as raças dos homens.</p>



<p>Ambos se tornaram pão. Ambos foram indispensáveis ao longo da nossa história. Manjares do povo. De reis e senhores. Manjares da gente do trabalho. Manjares de cerimónia operados em cenóbios antigos.</p>



<p>Magníficos frutos celebrados por poetas, por ilustres pintores do tempo de Grão Vasco ou pelos naturalistas do século XIX, que todos deixaram em museus singulares representações.</p>



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</div>
</div>



<p>Maçã e castanha, que estas Confrarias irmãs celebram, ano a ano, e permanentemente os celebram junto de quantos, lavradores diligentes, empresários activos, autarquias empenhadas, que, nestes tempos de globalização, com empenho, com suor, com alegria, com muito trabalho, muita dedicação, com a luz do sol dos verões das Terras do Demo e os frios benfazejos, com as águas de outono, dádiva da Mãe-Natureza, bênção que se tornará propiciadora da colheita que se espera generosa.</p>



<p>Frutos de esperança, nestas terras, a maçã e a castanha.</p>
</div></div>
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