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	<title>Arquivo de comandos africanos - Duas Linhas</title>
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		<title>QUANDO A MEMÓRIA É OFENDIDA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Óscar Barbosa "Cancan"]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Apr 2026 23:00:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Há propostas políticas que são atos de provocação</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/04/quando-a-memoria-e-ofendida/">QUANDO A MEMÓRIA É OFENDIDA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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<p>Há propostas políticas que não são apenas erros de julgamento, são atos de provocação. A tentativa de atribuir o nome de Marcelino da Mata a uma rua em Portugal, levada ao Parlamento português por setores ligados ao Partido Social Democrata e ao Chega, não pode ser lida como um gesto inocente. Trata-se de uma escolha política carregada de simbolismo e, no atual contexto guineense, de uma gravidade que não deve ser subestimada.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Não é sobre uma rua. É sobre memória, dignidade e poder</p>



<p>A atribuição de um nome a um espaço público é um ato político de consagração. É uma forma de dizer quem merece ser lembrado. E como deve ser lembrado. Ao propor a elevação de Marcelino da Mata à condição de referência pública, certos setores políticos portugueses procuram impor uma narrativa que ignora, deliberadamente, a memória histórica de um povo que sofreu diretamente as consequências da guerra colonial.</p>



<p>Para muitos em Portugal, Marcelino da Mata pode ser apresentado como um “herói militar”. Para os guineenses, porém, essa leitura é, no mínimo, incompleta e ofensiva. A sua atuação enquanto membro dos chamados Comandos Africanos está associada, na memória coletiva, a operações de repressão brutal contra populações locais, num contexto de dominação colonial.</p>



<p>Não é irrelevante que esta proposta surja num momento particularmente sensível da vida política da Guiné-Bissau. Quando um país enfrenta tensões internas, disputas de narrativa e tentativas de deslegitimação institucional, iniciativas externas com forte carga simbólica podem funcionar como instrumentos de pressão indireta.</p>



<p>A pergunta impõe-se: porquê agora?</p>



<p>A resposta mais plausível é desconfortável: porque há setores políticos em Portugal, particularmente na extrema-direita representada pelo Chega, que continuam a instrumentalizar o passado colonial como arma ideológica. Ao fazê-lo, não apenas reabilitam figuras controversas, como também enviam sinais políticos a determinados atores internos africanos que se alimentam de divisões históricas.</p>
</div></div>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>A falsa neutralidade da História</strong></h4>



<p>Há quem argumente que “a História deve ser vista no seu contexto”. Esse argumento, embora tecnicamente correto, é frequentemente utilizado como escudo para evitar julgamentos morais. Mas há um limite. Uma democracia madura não é neutra face à violência histórica. Não pode ser.</p>



<p>A tentativa de glorificação acrítica de figuras associadas à repressão colonial revela uma recusa em confrontar o passado com honestidade. E pior: revela uma hierarquização implícita das vítimas, onde o sofrimento africano continua a ser relativizado.</p>



<p>A bravura em combate, por si só, não é critério suficiente para a consagração pública. A História está repleta de figuras militarmente eficazes que, ainda assim, não são, nem devem ser, celebradas.</p>



<p>O que está em causa não é negar a existência de Marcelino da Mata. É recusar a sua elevação simbólica num espaço público que representa valores universais: dignidade humana, justiça e memória inclusiva.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>Portugal perante o seu próprio espelho</strong></h4>



<p>Esta proposta coloca Portugal diante de uma escolha clara: ou assume uma leitura crítica e responsável do seu passado colonial, ou cede à tentação revisionista de sectores políticos que procuram reescrever a História à luz de nostalgias imperiais.</p>



<p>O chumbo da proposta no Parlamento português, se confirmado e mantido, não será um ato de fraqueza. Será, pelo contrário, um sinal de maturidade democrática e de respeito pelas relações históricas com os povos africanos.</p>



<p>Guiné-Bissau não é um detalhe na História portuguesa. Há uma linha que não pode ser ultrapassada: a desconsideração pela memória de um povo. A Guiné-Bissau não é um apêndice da História de Portugal. É uma nação soberana, com a sua própria narrativa, construída com sangue, resistência e dignidade. Ignorar essa realidade é mais do que um erro político. É uma forma de violência simbólica.</p>



<p>A proposta de homenagear <strong><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcelino_da_Mata" type="link" id="https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcelino_da_Mata">Marcelino da Mata</a></strong> revela que, décadas após o fim do colonialismo, persistem forças que se recusam a aceitar plenamente as implicações morais desse período.</p>



<p>Mas também revela algo mais importante: que há resistência, que há memória e que há dignidade. E essa, ao contrário de qualquer rua, não pode ser renomeada.</p>
</div></div>
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