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	<title>Arquivo de Bragança - Duas Linhas</title>
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		<title>Inocêncio Pereira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Mar 2025 11:47:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Morreu Inocêncio Pereira</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/03/inocencio-pereira/">Inocêncio Pereira</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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<p>Soube ontem que o Inocêncio Pereira nos deixou.</p>



<p>Foi sempre dos pés à cabeça um salesiano e um transmontano.</p>



<p>Sempre em discurso direto e demolidor sarcástico das vaidades.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Conheci melhor o Inocêncio Pereira em Angola. Era ele Diretor de Programas (se não me engano) da ECA (Emissora Católica de Angola) e eu alferes na CCS do Quartel-General, em Luanda (já tinha regressado das operações para lá de Nambuangongo). A ECA ficava a meio caminho entre a Baixa de Luanda e o Quartel-General. Frequentemente o visitava nas instalações da emissora enquanto preparava os programas. Visitei-o algumas vezes lá para os lados do RI20 onde residia e onde a esposa dirigia um colégio para crianças, propriedade do casal. Quatro episódios.</p>



<p>1/ Desenrascanço. Um dia veio ao quartel desafiar-me. Uma comunidade de freirinhas vivia num musseque (Cazenga, creio) e não tinha eletricidade. Era tudo à luz do candeeiro e gasómetro. Os dois lá arranjamos umas picaretas e sachos e lá fomos abrir uma vala clandestina aí de uns 50 metros que atravessava uma rua e um cruzamento, em terra dura. Lá colocamos o fio de eletricidade, a pouca profundidade, calcamos bem com um maço; um sujeito fez a ligação a um poste de eletricidade e lá ficaram as freirinhas a consumir eletricidade de borla. Felizes, fomos todos agradecer a Deus a uma pequena capelinha que havia dentro daqueles anexos muito pobres do convento. Eu dizia baixinho: é preciso ter muito amor a Jesus Cristo para viver no meio dum musseque desta forma em África. E um jantarinho muito frugal oferecido pelas irmãs, mas muito alegre e feliz porque pela primeira vez havia luz.</p>



<p>2/ Dramático! Aí por fins de agosto de 1974 estava eu de oficial de piquete na CCS do Quartel-General. Já escuro. Na sua carrinha Peugeot 504 aparece o Inocêncio apavorado à porta de armas a pedir para falar comigo com urgência. Não falou. Gritou. Tínhamos de ir já, já, já retirar as tais freirinhas (umas &nbsp;8, quase todas ainda novas) porque havia já um aglomerado de homens frente ao pequeno convento e com ares de assaltar, invadir e molestar as irmãs (casos houve em que foram violadas). As casas dos brancos e cantinas no meio do musseque já estavam a arder. Subi ao cimo do quartel e vi ao longe um mar de chamas. Contra todas as regras e sem medir as consequências, fardado e apenas com uma Valter à cintura, lá fui no meu velho carocha e ele à frente no seu Peugeot. A grande velocidade. Chegados lá, de facto havia um grupo de &nbsp;homens de mau aspeto. Em segundos as freiras entraram nos dois carros, deixaram tudo, tudo para trás e fomos levá-las lá para os lados da Igreja da Sagrada Família. Soubemos depois que tudo foi saqueado naquela noite.&nbsp; Aliás, nessa mesma noite, já regressado ao quartel, por volta das 2 da manhã chegam à porta de armas descalças e em camisa de dormir duas mulheres, mãe e filha (dos seus 18/20 anos). A filha ensanguentada porque tinha sido violada por vários. E nada pudemos fazer por falta de soldados, pois muitos deles fugiram para o musseque com as armas e cheguei a ter as mesmas sentinelas de serviço vários turnos seguidos porque não havia soldados para os revesar. Estávamos já no fim do império, com Rosa Coutinho lá a dar o estoque final.</p>



<p>3. Trágico. Um antigo salesiano, de nome Pereira (a memória já me vai falhando) da zona de Mafra, foi empresário de grande sucesso em Angola. Tinha no Largo da Maianga o Colégio Universal, o Académico e lá para os lados de Alvalade, o Goretti (se não me engano). A sul de Sá da Bandeira tinha uma gigantesca fazenda com cerca de 10 mil cabeças de gado bovino com que ia abastecendo a tropa. Tinha um pequeno avião em que se deslocava por Angola. Estávamos em agosto/setembro de 1974. Já muita barafunda, perda de autoridade da Polícia, já em curso a fuga dos portugueses para a Metrópole por falta de segurança, a debandada das colónias. Na CCS, onde eu estava, uma manhã, um soldado (MPLA) varreu a parada com a metralhadora e refugiou-se numa casa de banho. Para o desalojar teve de vir uma Panhard com comandos. Já só intervinham comandos, paraquedistas e polícia militar. Já não havia praticamente poder militar nem civil. Praticamente já não havia circulação automóvel entre cidades. Mas o Pereira precisava de ir à sua fazenda para pagar ao pessoal. Como já não havia apoio mecânico nos aeroportos do Sul, deixou o avião e foi com a sua mulher (não tinham filhos, tal como o Inocêncio) no seu mercedes para sul de Sá da Bandeira (hoje Lubango). Claro, logo a seguir a Catete (e antes do Dondo), foi mandado parar alegadamente por militares do MPLA. E desapareceram sem deixar rasto.  Muito aflito, o Inocêncio veio ter comigo, mas não tínhamos qualquer informação. Vivemos na incerteza e aflição. O Inocêncio não descansou e foi ter com altas figuras militares do MPLA insistindo pelo paradeiro do Pereira. Passados uns 20 dias informou-me: foram assaltados, roubados e enforcados. Veio a encontrá-los já enterrados num campo e ele com um braço de fora.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>4. Retornado de Angola, o Inocêncio fez-se à vida, voltou para a sua terra transmontana de origem (Bragança) e acabou por ir trabalhar no Mensageiro de Bragança. Numa das suas andanças lá para os lados de Mogadouro, já lusco-fusco, numa estrada descampada, ao volante de outra Peugeot, repara que está no chão uma motorizada já velhota e, na berma da estrada, sentado numa pedra, um vulto com os cotovelos fincados nos joelhos e cabeça entre as mãos. Achou estranho, pára, faz marcha atrás, sai do carro e pergunta ao vulto: então, amigo, o que aconteceu? O vulto levanta a cabeça. Espanto! Ó Padre Vaz, então, o que está aqui a fazer a esta hora? Foi acidente?</p>



<p>&#8211; Não. A motoreta também bebe e acabou-se a gasolina. Não tenho mais dinheiro e fiquei aqui confiando que Deus mandaria alguém para me ajudar. Foste tu.</p>



<p>O Inocêncio meteu a motorizada na mala do carro, foi encher o depósito a uma área de serviço e foi levá-lo a casa.</p>



<p>O P. Vaz convidou o Inocêncio para petiscar alguma coisa com ele. Uma casa muito, muito pobre, despida de tudo o que se possa chamar conforto mínimo.&nbsp; Era pároco de uma das paróquias mais pobres da diocese. Os rendimentos e a côngrua não conseguiam nunca fazer dele um abade transmontano. Lá arranjou metade de um chouriço, um papo seco já bem seco e uma pichorra de água que foi pondo numa pequena mesa sem toalha. A pobreza do jantar, naquelas condições, foi um grande manjar para a minha alma, disse-me o Inocêncio.</p>



<p>Padre Vaz, onde é que dorme? Não tem quarto? Não tem cama? É só a salinha, cozinha e casa de banho?</p>



<p>Não é preciso mais. Quando me dá o sono reclino a cabeça em cima da mesa. É o suficiente.</p>



<p>Lá conseguiu convencê-lo a irem ambos jantar num restaurante modesto.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Conheci pessoalmente o P. Vaz sobretudo em Izeda. Magro, seco e frugal. Um padre rural. Sempre de guarda pó com dois bolsos onde metia algumas batatitas, que punha a assar nas brasas da cozinha, onde punha umas areias de sal e ia comendo. Creio que só tinha uma camisa e uns sapatos. Há imagens que nunca se esquecem. No arranque das batatas, uma junta de bois puxava lentamente o arado guiados pela aguilhada ao ombro do P. Vaz que ia caminhando à frente silenciosamente enquanto ia rezando o breviário.</p>



<p>Com a devolução de Izeda ao Estado, desmoronou o mundo do P. Vaz e… saiu para a diocese porque não conhecia outro mundo que não o de Trás-os-Montes. Às vezes rezo ao P. Vaz. Um diácono permanente, que o conhecia bem, disse-me há dias que tem fama de santo nas redondezas onde paroquiava.</p>



<p>Era sem medida o respeito e carinho que o Inocêncio tinha para com o P. Vaz.</p>



<p>A paz de Deus para ambos.</p>



<p>Inocêncio, vou rezar por ti ao P. Vaz. Um forte abraço.</p>
</div></div>
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