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	<title>Arquivo de Angola no tempo colonial - Duas Linhas</title>
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	<title>Arquivo de Angola no tempo colonial - Duas Linhas</title>
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		<title>PATRÃO É CAMPEÃO, MATA TUDO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vítor Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Sep 2025 23:00:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
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		<category><![CDATA[memórias de Angola]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Memórias da vida colonial em Angola</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Estou a sair de casa no Cubal para ir até à fazenda do Franklim, comemorar os anos do pai. A minha família entra no carro. Abro o porta-luvas para ver se tinha os documentos e vejo um papel dobrado, que não estava na minha alçada, fazia tempo&#8230; Peguei-lhe e a mulher diz que o tirou de um livro que estava na estante e pergunta-me quando é que eu tinha escrito o poema. Desdobrei o papel, li e sorri. Respondi que tinha sido em Luanda. A inspiração surgiu de uma “quitandeira” que solicitava a uns rapazes a compra de uns doces que ela confeccionava. Escrevi-o assim:</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="623" height="272" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/09/poema-angola.png" alt="" class="wp-image-44302" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/09/poema-angola.png 623w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2025/09/poema-angola-300x131.png 300w" sizes="(max-width: 623px) 100vw, 623px" /></figure></div>


<p><em>A mulher diz-me:</em></p>



<p>– Sensibilidade para agarrares o lamento da quitandeira. Noto que continuas assim, deo gratias!</p>



<p>Quando cheguei à fazenda, já o Matos e o Borges se encontravam com as famílias. Notei, notámos, que Franklin andava “derrancadinho” para sair, queria ver se caçava uma onça. É que lhe tinham garantido a pés juntos que andava uma a rondar a fazenda todas as noites. O vício dele era tal…</p>



<p>Bom, Franklin, às vezes, contava umas histórias que mais nos pareciam anedotas. Porquê? Sabe-se l!. Foi essa a informação que teve: onça na “costa”.</p>



<p>Dizia então Franklin, que, por vezes – aqui sabíamos ser verdade – ia à noite caçar uma ou outra cabra, aproveitando para verificar as extremas da fazenda,&nbsp; ver o gado que os pastores deixavam acomodado no mato, etc., e que até tinha visto pistas de onça…</p>



<p>Tanto andou que conseguiu que o desculpassem, tamanho era o vicio da caça. A ausência dele seria de, mais ou menos, uma hora, no máximo, dizia. Saiu com o inseparável capataz e guia de caça, o Tavongo.</p>



<p>Estava uma bela noite e, por acaso, não o vimos sair com a arma na mão, já a tinha no estrado do jeep. Seguiu. Depois de algumas voltas dadas, quem lhe aparece vindo do nada? O fiscal, bem nosso conhecido. O homem, tal como todos, vivia no Cubal. Aparece-lhe silenciosamente, o que era inacreditável para quem conhece o Franklin. Este fiscal era um sujeito que farejava o pessoal, tinha um andar de onça, como o Borges dizia.</p>



<p>Seria perto da meia-noite e meia. Estava Franklin numa extrema da fazenda com o Tavongo a seu lado. Franklin tinha combinado com o seu “braço direito”: antes que um qualquer fiscal chegasse junto deles e perguntasse se o patrão estava a caçar, ou se matava muita caça, devia dizer que não. “Olha, Tavongo, defende-me! Diz sempre que não!” O fiel “escudeiro” sabia como se comportar.</p>



<p>Chegou o fiscal junto deles, cumprimentou e começou um interrogatório disfarçado. Ia sabendo o que lhe interessava e, a determinada altura, dispara:</p>



<p>– Então e o farolim no jipe, é só para ver melhor o mato, não é, senhor professor?</p>



<p>Franklin ia respondendo:</p>



<p>– O senhor sabe bem que não é, mas também sabe que, tendo gado a pastar por todo o lado, necessito, por vezes, de saber onde é que os animais pernoitam. Ver se tudo está bem. É claro que não vou para perto deles ver. Ligo o farolim e vejo bem o que se passa.</p>



<p>E o fiscal continuava:</p>



<p>– Pois claro que é assim, nem uma arma o senhor traz, pois não?</p>



<p>– Tenho, sim, senhor! Também sabe que tenho armas e legalizadas. Preciso de me defender, para o caso de, alguma vez, uma onça me atacar. Sabe que por aqui há muitas. Também sabe que tenho tudo legalizado – ia respondendo Franklin.</p>



<p>– Muito bem – brincava o fiscal. –Toda a gente sabe, nas redondezas, até os seus empregados o dizem, que o senhor não percebe nada de caça e é um mau atirador, que não acerta sequer num elefante, nem a dois metros.</p>



<p>Aqui Tavongo, furioso, entra num repente na conversa e exclama:</p>



<p>– Não sinhôr, não é vérdáde! O pátrão és cámpião, máta tuto!”</p>



<p>Franklin ficou sem pinta de sangue.</p>



<p>O fiscal desata à gargalhada. Achou graça à defesa que o capataz estava a fazer do patrão e… não o multou! Teria por base o depoimento da “testemunha”, que afirmou peremptoriamente que o patrão caçava mesmo. Franklin, primeiro com riso amarelo, mas, depois, num riso franco, acabou por levar o fiscal para a fazenda a beber uns uísques. E regressámos todos ao Cubal, fiscal incluído.</p>



<p>Foi assim… A simplicidade das coisas a criar afectos, a despertar sorrisos, a gerar entre nós cumplicidades sorridentes…</p>



<p>(fotografia <strong><a href="https://livrosultramarguerracolonial.blogspot.com/2014/05/angola-caca-africa-homens-e-animais.html">partilhada daqui</a></strong>)</p>
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		<title>E LA NAVE VA…</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vasco Gil Mantas]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Nov 2024 00:00:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[Angola no tempo colonial]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra Colonial]]></category>
		<category><![CDATA[memórias da Guerra Colonial]]></category>
		<category><![CDATA[paquete Vera Cruz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É uma e quinze da noite de Sábado, 20 de Novembro de 1965. Em Estremoz está húmido e frio, embora de momento não chova. De qualquer forma, o frio é outro. Na estação de caminho-de-ferro, o Batalhão de Cavalaria 1868 está a bordo da composição que em breve partirá em direcção a Lisboa, por Vendas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>É uma e quinze da noite de Sábado, 20 de Novembro de 1965. Em Estremoz está húmido e frio, embora de momento não chova. De qualquer forma, o frio é outro. </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/77DpSL6.jpeg" alt="" class="wp-image-37690"/><figcaption class="wp-element-caption">Estação da CP de Estremoz</figcaption></figure></div>


<p>Na estação de caminho-de-ferro, o Batalhão de Cavalaria 1868 está a bordo da composição que em breve partirá em direcção a Lisboa, por Vendas Novas. Há bastante gente no cais, na maioria militares e familiares dos soldados, quase todos alentejanos, que aproveitaram para introduzir no comboio os vários canídeos que se aproximaram. O veterano cão <em>Totobola</em> acompanhou a Companhia 1465 e connosco permaneceu até morrer quase no final do tempo a cumprir. Mas isso são outras histórias, como diria Kipling.</p>



<p>Despedi-me da minha noiva horas antes, num dos momentos mais intensos da nossa vida. Tínhamos a angustiante sensação de que, encontrados, logo eramos afastados por uma prova que nos ultrapassava e na qual nada dependia de nós. Valeu-nos a devoção um ao outro, consagrada sem palavras numa pequena capela dos arredores de Estremoz, alguns meses antes. Nada de lágrimas, na altura do adeus, pois isso apenas nos enfraqueceria. A viagem de comboio foi lenta e incómoda, através de paisagens envoltas em escuridão, dando azo, como é natural, a pensamentos controversos. Era a guerra, que se instalara inevitável no quotidiano português. Mas tinha comigo algo que me ia sustentar até ao fim da viagem, em Luanda.</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-1 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/zDm9TvL.png" alt="" class="wp-image-37694" style="width:503px;height:auto"/><figcaption class="wp-element-caption">embarque no Cais de Alcântara (imagem partilhada da net)</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/fw4a9wh.png" alt="" class="wp-image-37696"/><figcaption class="wp-element-caption">embarque no Cais de Alcântara (imagem partilhada da net)</figcaption></figure></div></div>
</div>



<p>O paquete <em>Vera Cruz</em> estava no cais, ainda imponente, e o embarque verificou-se pelas onze horas de uma manhã sombria e decerto triste para muitos dos que iam e dos que ficavam. </p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-2 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/3upoHEb.png" alt="" class="wp-image-37699"/><figcaption class="wp-element-caption">embarque no Cais de Alcântara (imagem partilhada da net)</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/Ocyb9Fz.png" alt="" class="wp-image-37695" style="width:503px;height:auto"/><figcaption class="wp-element-caption">embarque no Cais de Alcântara (imagem partilhada da net)</figcaption></figure></div></div>
</div>



<p>A partida de um grande navio é sempre emocionante, em particular quando se trata de um transporte militar. E lá fomos barra fora, passando sobre os restos de alguns da Carreira da Índia que por ali repousam, ecoando as proféticas palavras do <em>Velho do Restelo</em>, idênticas em sentido às que Albuquerque terá dito a propósito da nossa empresa imperial:<em> Glória e Fumo! </em></p>



<p>Foram dez dias de viagem, um tanto monótona, entrecortados por algum serviço e reuniões preparatórias do desembarque. As estrelas foram mudando no horizonte e o calor começou a fazer-se sentir e até o ar ganhou novos aromas sobre um mar tranquilo, liso. Sendo velho, tudo começava a ser novo!</p>



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-3 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/DCbfXkT.png" alt="" class="wp-image-37700" style="width:456px;height:auto"/><figcaption class="wp-element-caption">Paquete Vera Cruz no Tejo (imagem partilhada da net)</figcaption></figure></div></div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow"><div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/nhoJmyn.jpeg" alt="" class="wp-image-37701"/><figcaption class="wp-element-caption">eu, Vasco Gil Mantas, a bordo do Vera Cruz</figcaption></figure></div></div>
</div>



<p>De vez em quando refugiava-me no Jardim de Inverno do navio, para escrever e ler tranquilamente – os livros que me acompanharam foram <em>O Visconde Cortado ao Meio</em> e <em>O Cavaleiro Inexistente</em>, de Italo Calvino, bem como o muito ambíguo <em>Calafrio</em>, de Henry James – mas sobretudo para ler o lenitivo com que enfrentei a separação: as dez cartas, uma para cada dia de viagem, que a minha noiva me escreveu para que a tivesse comigo de alguma forma mais íntima ao longo da travessia, cartas entregues na véspera do embarque.</p>



<p>Num transporte militar não há privacidade pelo que este espaço do navio era o ideal para uma leitura sempre seguida de várias releituras, até à próxima carta no dia seguinte. Todas estavam numeradas, e assim permanecem na minha mesa-de-cabeceira. Claro que não vou aqui revelar o que era apenas entre nós e assim deve ficar. Mas não se imaginem coisas, pois, como disse, tínhamos convicções claras quanto ao casamento, que nos aguardava no Verão seguinte, durante as férias docentes dela e a minha licença, ia a comissão angolana a um terço.</p>



<p>A minha noiva já vivera em África, pelo que não deixou de me alertar para as tentações diversas de um cenário diferente do europeu, por vezes dizendo-o veladamente. Dos outros perigos, os da guerra, não falou muito, tão presentes eles estavam que não era preciso evocá-los. Tentou, sim, fazer-me crer que tudo correria bem. Mas sei que essas linhas lhe custaram a escrever e a mim a lê-las, sem que alguma vez tivesse questionado a causa da separação, decerto por atenção comigo. Havia muitos parágrafos sobre momentos vividos e sobre intenções a concretizar, uma forma de fazer antecipar o futuro <em>depois</em>, dado que então tudo se media pela experiência a vencer. Como é humano, parte desse <em>depois</em> sucedeu de forma diferente, mas o fio condutor de todas estas cartas transmitia uma inabalável confiança protectora, que permanece e revive a cada leitura, agora pontuada de tristeza, esgotados os muitos anos que nos foram concedidos.</p>



<p>O navio avançava, sem escalas nem costa visível. Sabia que teria uma carta à espera em Luanda, prometida na última das que levei comigo. Tornou-se visível o Cruzeiro do Sul e as noites definitivamente quentes, embaladas pelo ronronar dos motores, diziam-me que se aproximava o há muito esperado. Chegámos cedo a Luanda. Sobre um mar sem rugas pairavam raros ruídos, apenas o sopro pujante da terra africana se imiscuía, dominador. Luanda resumia-se a uma longa fiada de edifícios no limite do mar, velados por uma neblina ligeira, sugerindo um vazio absoluto para lá deles. Compreendi então os relatos medievais sobre os confins do mar onde os navios se despenhavam no abismo, porque era isto. </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" width="726" height="452" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/10/LUANDA-2.jpg" alt="" class="wp-image-37702" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/10/LUANDA-2.jpg 726w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/10/LUANDA-2-300x187.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2024/10/LUANDA-2-696x433.jpg 696w" sizes="(max-width: 726px) 100vw, 726px" /><figcaption class="wp-element-caption">O porto de Luanda, 1965</figcaption></figure></div>


<p>Depois foi o desembarque, já sem as paradas ovacionadas de 1961, e o comboio até ao Campo Militar do Grafanil, atravessando os musseques, rodeados de garotada. Foi uma visão que me impressionou, pois não era esta a minha ideia de Império. Mas eu já vira os bairros de lata a crescer à volta de Lisboa. Porque haveria de ser diferente? Felizmente estava em Luanda a carta prometida.</p>
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		<title>Tito, engenheiro de carrinhos de arame</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Orlando Castro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Oct 2023 23:49:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
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		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
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		<category><![CDATA[Angola no tempo colonial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Já lá vai uma eternidade. As chamadas Águas Quentes do Alto Hama, em Angola, uma espécie rudimentar mas pura de termas, eram um dos locais habituais onde, por o horizonte saber a infinito, eu passava muitos fins-de-semana e, nos derradeiros tempos, as semanas do fim. Das pessoas que frequentavam o local pouco recordo, para além [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Já lá vai uma eternidade. As chamadas Águas Quentes do Alto Hama, em Angola, uma espécie rudimentar mas pura de termas, eram um dos locais habituais onde, por o horizonte saber a infinito, eu passava muitos fins-de-semana e, nos derradeiros tempos, as semanas do fim.</p>



<p>Das pessoas que frequentavam o local pouco recordo, para além de alguns amigos sonhadores que, no meio de umas churrascadas e de umas tantas grades de cucas, davam largas à imaginação.</p>



<p>No entanto, um morador nas redondezas é para mim sinónimo daquele local. Não existem Águas Quentes sem ele e, certamente para mim, sem ele aquele local nunca seria o mesmo. Era o Tito.</p>



<p>Um puto albino que estava sempre lá, calmo e sereno como antevendo que não valia a pena chatices. Sorria, falava pouco mas tinha um olhar tão vago e penetrante como o pôr-do-sol. Junto ao asfalto da estrada para Luanda, o Tito montava o seu negócio.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/11/carrinho-de-arame-11.jpg" alt="" class="wp-image-29765"/></figure>



<p>Com carolos de milho, cápsulas de cerveja e uns pedaços de arame, construía os automóveis que vendia a todos quantos amassem verdadeiras obras-primas do artesanato. Apesar de serem diversos os modelos, uns mais desportivos outros mais de serviço, o Tito só fabricava uma marca: Toyota.</p>



<p>Nenhuma outra conseguiu cativar o Tito, aquele puto albino de olhar tão vago e penetrante como o pôr-do-sol.</p>



<p>Comprei-lhe vários modelos e, não fora o canibalismo daqueles que nunca tiveram a honra de conhecer o Tito, ainda hoje os poderia ter.</p>



<p>Penso que esses Toyotas do Tito estarão algures no fundo mar junto a Moçâmedes, local onde foram guardados para a eternidade os caixotes daqueles cujo único erro que cometeram foi amarem Angola.</p>



<p>No entanto, como hoje aqui comprovo, o Tito, aquele puto albino de olhar tão vago e penetrante como o pôr-do-sol, deixou no meu coração um dos seus últimos Toyotas.</p>



<p>Obrigado Tito.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2023/11/carrinho-de-arame-10.jpg" alt="" class="wp-image-29762"/></figure>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2023/11/tito-engenheiro-de-carrinhos-de-arame/">Tito, engenheiro de carrinhos de arame</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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