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	<title>Arquivo de Secções - Duas Linhas</title>
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	<description>Informação online</description>
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	<title>Arquivo de Secções - Duas Linhas</title>
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		<title>A MULHER FATAL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[José d'Encarnação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jul 2026 08:00:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[HISTÓRIAS...]]></category>
		<category><![CDATA[LER LIVROS]]></category>
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		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[ler livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura de Camilo Castelo Branco]]></category>
		<category><![CDATA[livro A Mulher Fatal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O protagonista vai de amor em amor, sofredor e desastrado a maior parte das vezes e cai, por fim, mas mãos peçonhentas de Cassilda Arcourt.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Não fiquei desiludido, porque o retrato se me antojava, mais ou menos, como Camilo o descreve, com ares respirados em Paris, vestindo-o de roupagens voluptuosas, atraentes, perfumes fortes, olhar felino. E, por outro lado, insaciável devoradora de fortunas, depois que a tal a obrigava a sua intensa vida social no meio da burguesia lisboeta ou da fidalguia que não hesitava em arruinar-se em vassalagem à Beleza.</p>



<p>O protagonista, Carlos Pereira, vai de amor em amor, sofredor e desastrado a maior parte das vezes e cai, por fim, mas mãos peçonhentas de Cassilda Arcourt, mesmo depois de – na verdade – ter logrado uma existência aparentemente viável.</p>



<p>Mais do que uma vida campestre, o narrador – amigo e confidente do protagonista – delicia-se a contar das desgraças alheias no ambiente que apresenta como sendo o da Lisboa desses meados do século XIX.</p>



<p>Recorde-se que Camilo Castelo Branco nasceu em 1825 e este livro foi publicado em 1870, ou seja, quando o autor se considerava já velho de 45 anos.</p>



<p>Confesso que, sendo eu epigrafista e estudar epitáfios romanos em que se lavra a idade em que a morte ocorreu, esse foi o primeiro aspecto que mais me impressionou. Camilo, aos 45 anos, considerava-se velho, dando a entender ser mesmo essa a percepção das pessoas nessa altura. E o protagonista, Carlos Pereira, que ele diz ter conhecido em 1849, tinha 32 anos em 1857. «Em vinte anos», comenta Camilo, «enfolha, enflora, fruteia e fenece uma geração [&#8230;] E alguns tinham pavor da velhice dos 40 anos!» (p. 22 – estou a seguir a edição de Livros de Bolso Europa-América, nº 292).</p>



<p>Do ambiente burguês da capital os traços camilianos são os costumados: alojamento em hotéis, recepções em casa de amigos, noites de tavolagem, uma sociedade de expedientes, em que se antoja amiúde a compra de um título de Conde ou Marquês. Em relação à província, a figura que não se oblitera é a do padre sempre ganancioso, frequentemente a quebrar as juras do celibato.</p>



<p>Enganar-me-ia, contudo, se não alvitrasse ter sido a sua linguagem tersa, riquíssima, incisiva e pura o que mais me encantou, não só porque não hesitou em dar conta, aqui e ali, dos livros que se liam (que ele lia), sobretudo franceses, como se sabe, mas, de modo especial, pela sua exemplar sujeição à vernaculidade:</p>



<p>«Um homem que saíra em rapaz para África e lá vivera em navios, e sertões, e portos de mar, veniagando as suas mercadorias de carne viva com alma e feitio à semelhança do Criador» (p. 27).</p>



<p>&nbsp;Quase se esquece, por detrás das palavras, o seu significado: o homem foi… um negreiro!</p>



<p>«O milionário que se dói do ultraje compra diplomas de estima pública; isso é fácil: dê banquetes, embriague os convivas para a vertigem do baile; lá irá tudo, desde a honra que se vendeu até à honra que se almoeda» (p. 29).</p>



<p>Só esmiuçando se enxerga bem o que ele quer dizer: corrupção!</p>



<p>Aqui e além, uma nota erudita, não desprovida de carga irónica:</p>



<p>«Imaginei que ele estivesse alapado na tulha das Açudes, lendo alguns capítulos paradoxais de Manon Lescaut, ou quejando romance justificativo das paixões ignóbeis! (p. 62).</p>



<p>Ou ainda:</p>



<p>«Que anjo naquele homem &nbsp;restituiria a Deus a sociedade, se ela não fosse em toda a parte, o inferno dos anjos e o paraíso dos demónios, como, da de Paris, dizia Henri Heyne! (p. 63).</p>



<p>O toque crítico à mudança da toponímia das cidades por razões políticas:</p>



<p>«Quem se lembra já hoje da Rua do Coruche? Há doze anos que passou por ela o Progresso, esse iconoclasta implacável que subverte as coisas santas da religião artística de antiquários e poetas. O Progresso é barrigudo, não cabe em ruas estreitas. Aquela, a do Coruche, levou-a ele diante de si; e, como às cavaleiras desse pujante demolidor andem os bons progressistas para darem o seu nome às empresas que ele comete, aquela rua das minhas saudades ficou-se chamando do Visconde da Luz» (p. 64).</p>



<p>Neste caso, é de Coimbra que se fala, mas tal visconde teve nome de rua um pouco por toda a parte.</p>



<p>Não falta uma crítica que, de repente, té poderia arvorar-se agora:</p>



<p>«Não se restauram patrimónios a estudar: extinguem-se. E, concluída uma formatura em Portugal, quem a comprou com o seu trabalho e todo o seu haver, sente-se apenas habilitado para ir mendigar um ofício de quatro libras mensais às portas das secretarias» (p. 68).</p>



<p>É bem conhecido o hábito, no século XIX, mormente na sua segunda metade, de os burgueses comprarem títulos de nobreza. Falando em cem contos, declara o protagonista:</p>



<p>«A &nbsp;mim convinha me possuí-los, para comprar um título de marquesa para Estela» (p. 69).</p>



<p>Voltando à vernaculidade da linguagem, não hesito a transcrever mais uma passagem em que a negativa está presente de forma, a meu ver, bem airosa: o uso corrente do prefixo des-, patente, noutras passagens, em despenar, desvalidar, desafecto e que – disso nem sempre nos damos conta – também existe em despedir e desconfiar. Ora veja-se:</p>



<p>«Na verdade, eu havia apostolado tão incompetente quanto inconvenientemente a contrição dos pecados. Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as cristalizações do amor, formadas naquela alma, ramo desflorido e seco, submerso no lago congelado, conforme a teoria de Stendhal. A meu ver, cristalizações de lágrimas só o calor da mortalha as degela (p. 118).</p>



<p>Tudo imagens para se declarar arrependido de haver incitado Carlos a largar a amante e a voltar para a mulher que, no final de contas, ainda amava.</p>



<p>Camilo, um Mestre!</p>
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		<title>BRUXELAS EMPENHADA EM REDUZIR A CULTURA EUROPEIA A INSTRUMENTO DE GUERRA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[António da Cunha Justo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Jul 2026 23:00:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Bienal de Veneza]]></category>
		<category><![CDATA[duplo critério da Comissão Europeia]]></category>
		<category><![CDATA[geopolítica europeia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Europa deve olhar para os seus povos, não para os seus generais. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Dois milhões de euros, ninharia para os cofres opulentos de Bruxelas, mas cifra vital para a alma de uma Bienal que sempre se quis universal, ficaram suspensos por um capricho geopolítico. A senhora comissária, Henna Virknen, brande o seu telemóvel como outrora se brandia uma espada, anunciando na efémera praça digital que a cultura deve pagar o preço da desobediência. Eis o primeiro sintoma da bílis de que fala o povo: a razão turva-se quando o poder resolve vestir a farda do moralismo.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="785" height="295" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal.jpg" alt="" class="wp-image-50501" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal.jpg 785w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-300x113.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-768x289.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-696x262.jpg 696w" sizes="(max-width: 785px) 100vw, 785px" /><figcaption class="wp-element-caption">fonte <a href="https://www.dn.pt/cultura/ue-anuncia-fim-de-subsdio-de-dois-milhes-de-euros-bienal-de-veneza-devido-participao-da-rssia#goog_rewarded">UE cancela subsídio de dois milhões de euros à Bienal de Veneza devido à participação da Rússia</a></figcaption></figure></div>


<p>Ora, independentemente do xadrez económico e político que se joga na Ucrânia, essa pobre terra transformada em cavalo de Troia dos grandes estrategas globais, uma coisa se nos afigura cristalina. A Europa, velha de séculos mas surpreendentemente imatura na sua gerontocracia, julga rejuvenescer apostando apenas nas suas qualidades guerreiras. É um equívoco trágico e profundamente irónico: um continente que inventou a universidade, a sinfonia e a declaração dos direitos do homem reduz-se agora à retórica do bombardeiro e ao gesto do diplomata que só conhece a provocação como forma de diálogo. O poder, nessa Bruxelas asfixiante, parece ter esquecido todas as línguas, excepto a do dinheiro e a da sanção. Impõem-se “valores subversivos” contra “valores sagrados”, mas ninguém se dá ao trabalho de definir quais são uns e outros, porque, neste conflito surdo contra o povo europeu e contra o povo russo, parece reger o argumento cínico do tudo vale.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="1024" height="506" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-arte-1024x506.jpg" alt="" class="wp-image-50507" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-arte-1024x506.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-arte-300x148.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-arte-768x380.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-arte-696x344.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-arte-1068x528.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-arte-324x160.jpg 324w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-arte-648x320.jpg 648w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-arte.jpg 1183w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Escutemos, com atenção, os hinos do fanatismo contemporâneo. Lá longe, do outro lado do Atlântico, ouvimos o eco gutural de “América acima de tudo”. Aqui, no velho continente, respondemos com o timbre melífluo, mas igualmente vazio de “Valores democráticos da Europa acima de tudo”. É a mesma moeda, cunhada em lados diferentes, servindo o mesmo espírito do globalismo que sopra das torres de marfim financeiras para as planícies do sofrimento real. Cada vez se tem mais a impressão, e o senso comum, esse bem raro, teima em confirmá-lo, de que a grandeza das potências tem como condição necessária a humilhação metódica do cidadão comum. A dissidência, nessa Europa embriagada de si mesma, é simplesmente pensar de forma diferente; a heresia, hoje, é querer a paz sem submeter a alma ao dogma.</p>



<p>É preciso, pois, que o povo desperte. Não o povo abstracto dos discursos oficiais, mas a carne e o osso que pagam impostos e criam os filhos. Bruxelas estende-se como um polvo de braços tecnocráticos, avassalando até os sagrados espaços da cultura, transformando a arte num campo de batalha rasteiro. A Bienal de Veneza, que devia ser um oásis de contemplação, arrisca-se a tornar-se um museu da censura. E esta é a maior tragédia: quando os burocratas se arrogam o direito de definir o que é ou não “democrático” na paleta de um pintor ou na música de um compositor, estamos a trocar a utopia pela polícia.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="1024" height="556" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-danca-1024x556.jpg" alt="" class="wp-image-50506" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-danca-1024x556.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-danca-300x163.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-danca-768x417.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-danca-696x378.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-danca-1068x580.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/bienal-de-veneza-danca.jpg 1158w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>O humanismo, esse velho amigo esquecido, dita que a cultura não é instrumento de guerra, mas trégua. A cultura não é arma de arremesso, mas ponte. Se a Europa quer verdadeiramente rejuvenescer, que olhe para os seus filhos, não para os seus generais; que se inspire nos seus filósofos e teólogos, não nos seus comissários. Que guarde o cinismo para a política, que é, afinal, a sua matéria-prima e a generosidade para a arte. Caso contrário, a Bienal de Veneza não será a única a afogar-se nas suas águas turvas; afogar-se-á a própria ideia de Europa, vítima da sua própria bílis, sufocada pelo polvo que criou para a defender.</p>



<p>E quando isso acontecer, não digam que o povo não avisou.</p>



<p><sup>(crónica publicada também em <strong><a href="https://antonio-justo.eu/?p=11163" type="link" id="https://antonio-justo.eu/?p=11163">Pegadas do Tempo</a></strong>)</sup></p>
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		<title>O CARACOL É MARROQUINO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Cristina Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Jul 2026 08:00:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
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		<category><![CDATA[Festival do Caracol Saloio]]></category>
		<category><![CDATA[Guiness Book of Records]]></category>
		<category><![CDATA[Loures]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>o (pobre do) caracol passou a saber o que é levar com temperos de toda a ordem</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A imaginação não tem limites e o (pobre do) caracol passou a saber o que é levar com temperos de toda a ordem, aparecer nos pratos dos gulosos escondido em fofos e pataniscas e, até, ser apresentado como um (quase) afilhado do <strong><a href="https://expresso.pt/boa-cama-boa-mesa/restaurantes-gastronomia/aberturas-novidades/2026-05-18-omelete-patanisca-a-bulhao-pato-ou-a-bras--siga--sem-pressas--esta-rota-do-caracol-saloio-0745ecda" type="link" id="https://expresso.pt/boa-cama-boa-mesa/restaurantes-gastronomia/aberturas-novidades/2026-05-18-omelete-patanisca-a-bulhao-pato-ou-a-bras--siga--sem-pressas--esta-rota-do-caracol-saloio-0745ecda">Bulhão Pato</a></strong>. E mais, muito mais. A competição estimula a criatividade dos cozinheiros para além do simples ato de cozer o caracol, bem temperado com orégãos. Que o caracol pode ser fraco, mas o molho é ótimo!</p>



<p>Porém, neste início de século, a aventura do caracol ainda mal tinha começado. Empenharam-se, um dia, as vontades, na concretização de algo inédito que foi conceber e concretizar um tacho gigante, bem como respetiva colher à medida, para mexer os tantos, os muitos, os…, enfim, os imensos quilos de caracóis cozinhados numa única empreitada. Para a história ficaram os números, 1.111 Kg de caracóis, um tacho de 3 metros de diâmetro e 1 metro de altura. A tampa pesava 200 quilos e era necessária a ajuda de uma grua, para a abrir. </p>



<p>Para o interior do caldeirão foi deitada mais de uma tonelada de caracóis, vindos de Marrocos. Para completar a receita, entraram para o tacho gigante 40 quilos de alhos, 30 de cebola e outros tantos de sal, 13,5 quilos de caldos de carne, 20 quilos de chouriço, quatro quilos de orégãos e cinquenta malaguetas. Tudo isto regado por muitos litros de água despejada por uma mangueira dos bombeiros.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="591" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/fig-6-copia-2-1024x591.jpg" alt="" class="wp-image-50462" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/fig-6-copia-2-1024x591.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/fig-6-copia-2-300x173.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/fig-6-copia-2-768x443.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/fig-6-copia-2-696x401.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/fig-6-copia-2-1068x616.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/fig-6-copia-2.jpg 1302w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>À boleia do caracol, em 2009, o município de Loures candidatou-se ao recorde mundial do Guinness para o “Maior Tacho de Caracóis do Mundo”. E atingiu o seu propósito. O tacho magnífico está exposto no Parque Adão Barata, na extremidade sul da cidade de Loures, no que se interpreta como um ato de partilha com a comunidade. Uma memória, ao orgulho coletivo local. Exibe detalhes inesperados, a tampa, que, por segurança, está fixada ao recipiente, ou o engenho adaptado para servir o produto cozinhado…</p>



<p>Também, o historial do Festival do Caracol Saloio e o devido destaque para o recorde do Guinness. Os registos fotográficos que fiz em 2023 assumem um valor documental, que não estava à espera.<br>Voltei a fotografá-lo agora e vejam-se as diferenças… </p>



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<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="546" height="413" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/fig-7-copia.jpg" alt="" class="wp-image-50465" style="width:427px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/fig-7-copia.jpg 546w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/fig-7-copia-300x227.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 546px) 100vw, 546px" /></figure></div></div>
</div>



<p>O tempo já se encarregou de fazer desaparecer boa parte da informação alusiva ao evento e ao recorde alcançado, estando o tacho magnífico em risco de ser apenas, e só, um tacho. O que me dá que pensar. Símbolo de um entusiasmo local, coletivo, marca de uma prática que reúne um número sempre crescente deapreciadores, o tacho dir-se-ia abandonado… O Festival do Caracol Saloio conquistou um espaço no município, tem uma história e adquiriu um valor cultural. A equipa terá deitado fora o emblema?</p>



<p>No ano que corre, a propósito de mais uma edição do Festival que, por sinal, já terminou, as surpresas continuam a acontecer. Em maio passado, na Revista do Expresso, um dos Flashes do Planetário de João Pacheco, “Loures-Paris”, sugeria ao leitor a aventura do Caminho das Estrelas pelo concelho de Loures e pelos restaurantes participantes na Rota do Caracol Saloio. Já em Paris, o caminho levaria o leitor a ver “uma secção de escada de caracol da Torre Eiffel, de 1889”.<br>O caracol, entre Loures e Paris, como traço de união ou como denominador comum. Certamente, uma inspiração.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/07/o-caracol-e-marroquino/">O CARACOL É MARROQUINO</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>REVELAÇÕES &#038; OUTRAS MERDAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Jul 2026 23:00:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CRÍTICAS E PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia política]]></category>
		<category><![CDATA[Jean-Jacques Rousseau]]></category>
		<category><![CDATA[Michel Foucault]]></category>
		<category><![CDATA[Nicolau Maquiavel]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>... o guião escrito por três fantasmas que gerem a nossa existência.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>Porque a Sua Abnegação é uma Ratoeira</strong></h4>



<p>Tentar abnegar o sistema político atual é um exercício de uma ingenuidade comovente. O leitor acredita piamente que, ao cruzar os braços e recusar o jogo, está a ser um rebelde original. Na verdade, está apenas a cumprir, à risca, o guião escrito por três fantasmas que gerem a sua existência.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>1. A Gargalhada de Maquiavel: A Abnegação como Submissão Voluntária</strong></h4>



<p>O velho Nicolau Maquiavel observa a sua &#8220;plena diferença&#8221; e sorri com um cinismo paternalista. Para o Príncipe moderno, o cidadão abnegado é o maior milagre administrativo de sempre. Ao retirar-se da ágora por uma questão de pureza moral, o leitor não está a boicotar o poder; está a limpá-lo de obstáculos.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>A lição maquiavélica:</strong> O poder detesta o vácuo. Se o leitor abdica do seu espaço por &#8220;nojo&#8221; do sistema, a única consequência real é que o seu vizinho menos escrupuloso passa a governar a sua vida. A sua abnegação não é um protesto; é uma rendição disfarçada de superioridade intelectual. O Príncipe agradece o seu silêncio oportuno.</li>
</ul>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>2. A Ratoeira de Rousseau: O Contrato que Nunca Assinou, Mas Paga</strong></h4>



<p><strong>O leitor pergunta:</strong> &#8220;Como poderei fazer parte dum sistema se o abnego veemente?&#8221; Jean-Jacques Rousseau responde-lhe com a cláusula mais leonina da história da humanidade: o Contrato Social. O leitor nunca assinou este contrato, não leu as letras miúdas, mas nasceu carimbado por ele.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>A lição rousseauísta:</strong> Segundo Rousseau, para ser livre, o indivíduo deve alienar-se totalmente a favor da comunidade (a &#8220;Vontade Geral&#8221;). Se o leitor tenta ser &#8220;totalmente diferente&#8221;, o sistema considera-o um erro de digitação social. A democracia rousseauísta tem um<strong> </strong>requinte satírico: ela obriga-o a ser livre nos termos dela. Se recusar ser livre dentro do rebanho, será &#8220;forçado a ser livre&#8221; através da<strong> </strong>exclusão, do ostracismo ou do manicómio.<strong> </strong>A sua vontade individual é um luxo que a Vontade Geral consome ao pequeno-almoço.</li>
</ul>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>3. A Jaula de Foucault: A Biopolítica do Corpo Abnegado</strong></h4>



<p>Aqui reside o golpe de misericórdia na sua revolta. Michel Foucault entra na sala para lhe explicar que a sua &#8220;abnegação&#8221; chega atrasada: o sistema já se apropriou de si antes mesmo de o leitor aprender a dizer &#8220;não&#8221;.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>A lição foucaultiana:</strong> O leitor acha que o poder é um político num palácio. Foucault ri-se. O poder é a clínica que o registou ao nascer, a escola que moldou a sua postura, o hospital que vigia a sua saúde e o algoritmo que prevê a sua depressão. A sua &#8220;abnegação&#8221; ocorre dentro de uma linguagem e de um corpo que o próprio Estado produziu. Mesmo quando o leitor se isola na sua total interdição, está a usar os conceitos de &#8220;liberdade&#8221; e &#8220;diferença&#8221; que o próprio poder normalizou. O leitor não está fora do sistema; o leitor é a parede da ala psiquiátrica do sistema.</li>
</ul>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>A Resposta à Pergunta Proibida</strong></h4>



<p><em>Qual é a alternativa para o atual sistema político?</em></p>



<p>A alternativa, vista pelos olhos deste trio, é de um niilismo sublime. Não há alternativa externa, porque não há &#8220;fora&#8221;. A única alternativa é aceitar a esquizofrenia política:</p>



<p>Viver como um Príncipe Sem Trono (Maquiavel), que finge obedecer ao Contrato Sagrado (Rousseau), enquanto sabota subtilmente as Métricas dos Corpos (Foucault). É a resistência não através do isolamento, mas através da ironia absoluta: cumprir todas as regras de forma tão literal e robótica que o próprio sistema acabe por entrar em curto-circuito por excesso de zelo.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="862" height="540" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/3-mestres.jpg" alt="" class="wp-image-50454" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/3-mestres.jpg 862w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/3-mestres-300x188.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/3-mestres-768x481.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/3-mestres-696x436.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 862px) 100vw, 862px" /></figure></div></div></div>
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		<title>FALTA DE AR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sónia Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Jul 2026 16:00:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[LIFESTYLE]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[escutar rádio]]></category>
		<category><![CDATA[rádio]]></category>
		<category><![CDATA[rádio Oxigénio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A rádio vive em comunhão comigo, É minha companhia diária. É perfeita.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><br>Não posso crer. A Oxigénio deixou de dar-me música para respirar. O botão do play fica ali a rodar a rodar, mas a música não arranca. Nem um pio. Apenas o irritante barulho da vida lá fora.</p>



<p>Envio uma mensagem ao Paulo, tranquilamente diz-me que a ouve “na boa”, irrita-me a tranquilidade da escrita. Ainda acrescenta que o Benfica está a ganhar, como nesse momento isso me servisse de consolo. Além de já saber que o Benfica ganha sempre, desde que eu não assista ao jogo. Ele mora na Amadora eu em Lisboa, portanto o problema é local. Óbvio!</p>



<p>A rádio vive em comunhão comigo, é exclusiva, não precisa de cama, comida ou roupa lavada. É minha companhia diária. É perfeita. Fui à procura de uma solução chamada João e o seu o rol de hipóteses técnicas.<br>Here we go! Vai a definições, som, saída, desliga e liga a coluna Bluetooth, liga e desliga o Mac, qual é o modelo da coluna, qual o modelo do Mac, a versão do MacOS, abre outro navegador, fecha o navegador. Abre uma janela privada. Talvez o navegador esteja a bloquear a reprodução automática, ou então a rádio utiliza um formato de streaming AAC ou HLS que está a falhar no navegador, ou ainda há um problema específico do navegador, o Safari pode ocasionalmente ter este comportamento com alguns streams!</p>



<p>João, deixa-me enrolar um cigarro, isto é um stress. Nunca aconteceu antes… Primeira vez? Ok, espera. Experimenta abrir a rádio no teu telemóvel. Usa o WiFi. Nada? E com os dados móveis? Nada também? E, vamos tentar perceber outra coisa: abre a Radar no Mac e no telemóvel, são ambas rádios do mesmo grupo económico. Não dá também? Voilá!!! O problema não está no teu equipamento, está no streaming das rádios. Se a rádio toca na Amadora, não toca em nenhum dos teus dispositivos, a solução paira no ar! Envia já um email a explicar tudinho.</p>



<p>Ok, João vou enviar já. Mais uma vez obrigada pela persistência. Um beijo grande. Dois. Queres vir cá jantar amanhã? Ok, desta vez para outra caldeirada, vale?</p>



<p>Olho de novo para o site com o botão irritante a rodar e nenhum som. Preciso tanto da Oxigénio para respirar, tanto. Acendo outro cigarro e vou digerindo a aventura.<br>Às vezes não vale de nada reiniciar a vida, às vezes não somos nós que temos de nos formatar, a resolução está lá fora. Às vezes focamo-nos tanto nos nossos defeitos, limitações, nas dúvidas, nos receios, no nosso umbigo, que não percebemos que a solução está mesmo à frente nariz.</p>



<p>Abro o site da RTP, quero ver o que se passou no mundo enquanto nada se passou nada por aqui. Trump, Irão, exames nacionais, Venezuela… está tudo na mesma.<br>Volto, por mera teimosia, ao <strong><a href="https://www.oxigenio.fm/" type="link" id="https://www.oxigenio.fm/">site da Oxigénio</a></strong>. Envio um sms: João Voltou!<br>Levanto o volume. Levanto a atitude. Já não me falta ar</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="897" height="99" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/oxigenio.jpg" alt="" class="wp-image-50483" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/oxigenio.jpg 897w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/oxigenio-300x33.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/oxigenio-768x85.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/oxigenio-696x77.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 897px) 100vw, 897px" /><figcaption class="wp-element-caption"><a href="https://www.oxigenio.fm/">OXIGÉNIO 102 6 FM | Música para respirar | Novas tendências musicais</a></figcaption></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/07/falta-de-ar/">FALTA DE AR</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>POESIA DE COMBATE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Jul 2026 09:00:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CRÍTICAS E PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[poesia de Alfredo Quintas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>manifesto poético existencialista e visceral que confronta o leitor com a ilusão da sua própria relevância.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<p><strong>INFAUSTO SERVIL</strong></p>



<p>Tu, o infausto servil,<br>essa carcaça oca que deambula e não habita,<br>tu, que te dizes presente mas não és:<br>Sabe que nenhum Deus reclamará a tua sombra.<br>Não há altar para o que nunca teve substância,<br>nem redenção para o escravo que ama as suas correntes.</p>



<p>Serás, vezes sem conta,<br>uma abstração moldada pelo medo,<br>um rasto de pó numa engrenagem cega.<br>Pouco importa o teu grito ou o teu silêncio,<br>pois ergueste o teu templo sobre certezas que não tens.<br>O teu fôlego é um mentir de ti mesmo,<br>uma máscara colada ao vazio,<br>um inventário de tudo o que não és.</p>



<p>Olha para as tuas mãos:<br>estão sujas de tempo e de submissão.<br>Se queres a vida, ama o Mundo na sua fúria e no seu cansaço,<br>ama-o como quem aceita o naufrágio, sem esperança de porto.<br>E humilha-te, enfim.<br>Não a humildade dos fracos, mas a dos lúcidos,<br>a daqueles que sabem que o &#8220;Eu&#8221; é a maior das mentiras.</p>



<p>Acende a candeia com o óleo do teu próprio desengano.<br>Ilumina-te de uma luz que queime, que desfaça o acessório,<br>até que reste apenas o osso, o frio e o rigor.<br>Só na mais solene e cruel convicção da tua insignificância<br>poderá brotar, talvez, uma libertação.</p>



<p>Não esperes misericórdia nem retorno.<br>A existência é o sentido único da lâmina:<br>uma verdade que se corta em tudo o que se vive.<br>O resto é o servilismo dos mortos que esqueceram de deitar-se.</p>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<p><strong>O Cântico da Escudela Universal: Da Fome à Unidade</strong></p>



<p>Em tempos se construíram cidades e vilas de pedra e ego,<br>Onde o pobre vive de escudela na mão, em perpétuo rogo.<br>O rico, arquiteto de espelhos, do suor alheio se alimenta,<br>Enquanto a cidade, em seu brilho, a própria miséria sustenta.<br>Ó Povos destroçados, que nas margens medonhas caminhais,<br>Por que buscais em Deuses esquecidos a paz que vós mesmos negais?</p>



<p>Vós, que escreveis a proemial história com mãos calejadas,<br>Aventais motivos vãos e seitas em rotas estilhaçadas.<br>Navegais em rios estreitos, temendo a imensidão do mar,<br>E destronais os sonhos sentidos antes mesmo de os ousar.<br>A escudela que carregais não é apenas o fardo da fome,<br>É o símbolo de uma Humanidade que esqueceu o seu próprio nome.</p>



<p>Por que não ser Único? Por que a vergonha sorri sem coragem,<br>Enquanto evocais destrezas que são apenas miragem?<br>O pobre guarda o seu aforro e um cantar que é terno e profundo,<br>Mas o povo, em seitas dividido, permanece órfão do mundo.<br>Sibilai o longo caminho, mas não como quem vai vencido,<br>Pois quem vive na separação, morre sem nunca ter vivido.</p>



<p>Oh rico Povo, de alma imensa e voz de séculos unida,<br>Que a vossa grata voz desperte para a profecia da vida!<br>Que a escudela se torne o cálice de um sentido afável e novo,<br>Onde não haja mais rico ou pobre, mas apenas um único Povo.<br>Uni-vos nos novos caminhos, para além do medo e do olvido,<br>Pois só na Humanidade inteira o destino será cumprido.</p>
</div>
</div>
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		<title>O CAPITAL HUMANO ESQUECIDO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Manuel Tomaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Jul 2026 23:00:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
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		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<category><![CDATA[TEMPO de PENSAR]]></category>
		<category><![CDATA[capital humano]]></category>
		<category><![CDATA[economia e desenvolvimento]]></category>
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		<category><![CDATA[saber fazer]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O verdadeiro capital de uma sociedade não está apenas nas infraestruturas, na tecnologia ou nos recursos financeiros. Está, acima de tudo, nas pessoas.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/07/o-capital-humano-esquecido/">O CAPITAL HUMANO ESQUECIDO</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><br>Vivemos numa época em que o conhecimento é apresentado como o recurso mais valioso para o desenvolvimento económico, científico e social. Fala-se da economia do conhecimento, da inovação e do talento como os motores do futuro. Contudo, quando milhões de pessoas atingem a idade da maior maturidade intelectual e profissional, deixam de ser vistas como um ativo e passam a ser tratadas como um custo.<br>É um paradoxo difícil de compreender.</p>



<p>Uma sociedade investe durante décadas na formação dos seus cidadãos. Acompanha-os desde a escola até à universidade, promove especializações, incentiva a aprendizagem ao longo da vida e beneficia da experiência que cada profissão vai acumulando. Mas, precisamente quando esse património humano atinge o seu ponto mais elevado de conhecimento, muitas dessas pessoas são empurradas para a margem.<br>Não porque perderam competência.<br>Não porque deixaram de pensar.<br>Não porque deixaram de criar.<br>Apenas porque envelheceram.</p>



<p>Este é um dos maiores desperdícios do nosso tempo.<br>O verdadeiro capital de uma sociedade não está apenas nas infraestruturas, na tecnologia ou nos recursos financeiros. Está, acima de tudo, nas pessoas. E entre essas pessoas encontram-se milhares de homens e mulheres que acumularam décadas de experiência, de capacidade de decisão, de memória institucional, de sentido crítico e de sabedoria prática.<br>Ignorar esse património é desperdiçar riqueza.</p>



<p>As sociedades mais inteligentes serão aquelas que souberem criar novas formas de participação para quem continua a querer contribuir. Não se trata de impedir reformas nem de obrigar ninguém a trabalhar para além da sua vontade. Trata-se de abrir portas a quem deseja continuar a ensinar, a orientar, a inovar, a aconselhar ou simplesmente a colocar a sua experiência ao serviço da comunidade.<br>A longevidade alterou profundamente a condição humana. Hoje, muitas pessoas chegam aos setenta ou oitenta anos com saúde, lucidez e uma enorme capacidade de intervenção. Persistir em modelos sociais construídos para uma realidade demográfica do século passado significa desperdiçar um dos maiores recursos do século XXI.</p>



<p>O futuro não depende apenas da energia dos mais jovens. Depende também da inteligência coletiva que nasce quando a juventude e a experiência trabalham lado a lado.<br>Precisamos de abandonar a ideia de que a idade marca o fim da utilidade social. Pelo contrário, pode representar o início de uma nova forma de participação, menos condicionada pela carreira e mais orientada para a transmissão de conhecimento, para a mentoria, para o voluntariado qualificado e para a construção de projetos com significado.<br>Nenhum país se pode dar ao luxo de desperdiçar o seu capital humano mais experiente.<br>Valorizar esse património não é um gesto de solidariedade para com os mais velhos. É um investimento inteligente no futuro de toda a sociedade.<br>Porque uma nação que esquece os seus cidadãos mais experientes não perde apenas memória. Perde capacidade de construir o amanhã.</p>



<ol start="9" class="wp-block-list">
<li></li>
</ol>
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		<title>A ROMARIA DE SANTO ANTÓNIO DOS CABAÇOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alberto Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Jul 2026 14:00:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[UM CRONISTA DE PROVÍNCIA]]></category>
		<category><![CDATA[Mangualde]]></category>
		<category><![CDATA[romaria]]></category>
		<category><![CDATA[São Cosmado]]></category>
		<category><![CDATA[tradição religiosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No dia 13 de Junho de cada ano, o dia que o calendário dedica a Santo António, ali vem o povo de uma larga redondeza</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/07/a-romaria-de-santo-antonio-dos-cabacos/">A ROMARIA DE SANTO ANTÓNIO DOS CABAÇOS</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Na planura austera da Serra dos Cabaços, onde assenta o pequeno povoado de S. Gosmado, do Município de Mangualde, lá onde já ninguém corta lenhas de lareira nem vagabundeiam gados como antigamente, levantou o pároco José Rebelo de Mesquita – que, à data de 9 de Junho de 1758, assinava o texto das <em>Memórias Paroquiais,</em> que o Marquês de Pombal, através de circular enviada ao seu bispo, lhe solicitara – uma pequena capela de planta sextavada ao jeito do barroco então em moda.</p>



<p>E é esse solícito pastor de almas, que não de rebanhos, quem nos fala da importância do lugar no longo texto que assina:</p>



<p><em>À ermida de Santo António de Cabaços acodem muitos fiéis cristãos em romaria todos os dias do ano, e nos dias santos em maior número, oferecendo ao mesmo santo muitas ofertas de dinheiro, trigo, centeio, milho, feijões, borregos, porcos vivos e muitas cabeças de carne de porco, ovos, mel, azeite, cera, e mortalhas, tudo com grande abundância.</em></p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Nesse <em>caminho de transumância,</em> que levava os rebanhos à Serra do Montemuro e, hoje, apenas se percorre e celebra como festa, se instituíra, decerto, uma espontânea prática devocional a Santo António, que o povo tomara como patrono dos seus gados e animais domésticos e que o atento pároco oficialmente sacraliza com o levantamento da capela, que se tornou local de devoção popular.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="906" height="601" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/romaria.jpg" alt="" class="wp-image-50389" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/romaria.jpg 906w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/romaria-300x199.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/romaria-768x509.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/romaria-696x462.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 906px) 100vw, 906px" /><figcaption class="wp-element-caption">Mangualde. S. Gosmado. Capela de Santo António dos Cabaços. Romaria dos gados. (volta no sentido <em>sinistrorsum</em>)</figcaption></figure></div>


<p>No dia 13 de Junho de cada ano, o dia que o calendário dedica a Santo António, ali vem o povo de uma larga redondeza, cumprindo votos ou tão só atraídos pela mística do lugar. E ali vêm, de há séculos, agora mantendo a tradição, os pastores que ainda resistem.</p>
</div></div>



<p>Vestem com os tradicionais enfeites de festa, cores garridas e lãs de cores, chocalhos que impressionam pela grandeza e pelo soar festivo, o rebanho que conduzem, como promessa antiga, o velho cão por companheiro e, à meia tarde, sob os curiosos olhares da gente, inicia-se a tradicional romaria de cada um dos rebanhos à volta da popular ermida.</p>



<p>Evocando velha tradição, a primeira volta conduzida à volta da capela faz-se no sentido <em>sinistrorsum</em>, mágico caminho que prevenirá potencial desgraça que possa acontecer ao rebanho. E, só depois da primeira volta completa, o rebanho retorna, caminhando no sentido <em>dextrorsum,</em> uma e outra vez, dando depois lugar ao rebanho seguinte.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>E o voto fica cumprido com a oferta de um cordeiro ao santo tutelar. O sacerdote fará depois, de acordo com o texto do ritual, a bênção dos rebanhos, que voltarão à sua serra.</p>



<p>Ao findar da tarde, de sob as tendas montadas onde se partilharam merendas e conversas, despedem-se os romeiros. Muitos deles prometerão voltar.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="884" height="584" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/procissao.jpg" alt="" class="wp-image-50391" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/procissao.jpg 884w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/procissao-300x198.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/procissao-768x507.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/procissao-696x460.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 884px) 100vw, 884px" /><figcaption class="wp-element-caption">Festa de Santo António dos Cabaços (procissão)</figcaption></figure></div></div></div>
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		<title>A MÁSCARA DO OPORTUNISMO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 23:00:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CRÍTICAS E PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[LER LIVROS]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[POLÍTICA]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[livro Repensar Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[padre Manuel Antunes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O excerto de Repensar Portugal, da autoria do Padre Manuel Antunes, constitui uma das críticas mais acutilantes e intemporais à futilidade do oportunismo político e à fragilidade das convicções democráticas na história do pensamento português contemporâneo. Escrita num período de profunda transição e instabilidade ideológica, a obra disseca com precisão cirúrgica a fauna política que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="280" height="393" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/repensar-portugal.jpg" alt="" class="wp-image-50444" style="width:307px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/repensar-portugal.jpg 280w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/repensar-portugal-214x300.jpg 214w" sizes="auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px" /></figure></div>


<p>O excerto de <em>Repensar Portugal</em>, da autoria do Padre Manuel Antunes, constitui uma das críticas mais acutilantes e intemporais à futilidade do oportunismo político e à fragilidade das convicções democráticas na história do pensamento português contemporâneo. Escrita num período de profunda transição e instabilidade ideológica, a obra disseca com precisão cirúrgica a fauna política que se alimenta das crises nacionais. O autor expõe a hipocrisia de agentes que instrumentalizam causas nobres para benefício estritamente pessoal, transformando a governação e o debate público num palco de vaidades e de usurpação de poder.</p>



<p><em>(&#8230;) E ainda hoje. Demasiado bem conhece o País os &#8220;socialistas&#8221; eletivos dos próprios interesses, os zelotes de si mesmos, os saduceus da própria pátria a pretexto de um futuro melhor, de uma ideologia &#8221; universalista&#8221; e terrorista. Como demasiado bem conhece os democratas provisórios de todas as bandas que apenas o são enquanto não conseguem impor a própria ditadura. Como demasiado bem conhece os oportunistas de todas as cores, do negro ao vermelho, que não perdem ocasião para se locupletarem com as desgraças da Pátria. (&#8230;)</em></p>



<p class="has-text-align-right"><em>Manuel Antunes In &#8211; Repensar Portugal</em></p>



<p>No primeiro plano da sua denúncia, Manuel Antunes foca-se nos &#8220;socialistas&#8221; eletivos, indivíduos que adotam o rótulo do progresso social apenas como uma máscara para salvaguardar os seus próprios privilégios. Ao apelidá-los de &#8220;zelotes de si mesmos&#8221; e &#8220;saduceus da própria pátria&#8221;, o pensador estabelece uma analogia com figuras bíblicas associadas ao fanatismo cego e ao legalismo hipócrita. O texto alerta para o perigo das ideologias que se vendem como &#8220;universalistas&#8221;, mas que escondem uma matriz terrorista e dogmática, sacrificando a realidade concreta e o bem-estar dos cidadãos em nome de uma utopia abstrata e impositiva.</p>



<p>A análise estende-se depois aos &#8220;democratas provisórios&#8221;, uma categoria política cuja atualidade permanece assustadora. Trata-se daqueles que defendem as regras da liberdade e do pluralismo apenas enquanto estas servem de veículo para alcançar o poder. Manuel Antunes desmascara a volatilidade deste compromisso cívico, sublinhando que tais atores políticos abandonam a postura democrática no instante em que reúnem as condições necessárias para edificar a sua própria ditadura. A democracia surge aqui não como um valor absoluto, mas como uma mera conveniência tática e transitória.</p>



<p>A abrangência da crítica atinge o seu zénite quando o autor aborda o espetro dos oportunistas &#8220;de todas as cores, do negro ao vermelho&#8221;. Com esta expressão, o ensaísta recusa fixar a corrupção moral a apenas uma fação partidária, demonstrando que o aproveitamento sem escrúpulos cruza todo o arco ideológico, dos extremismos de direita aos de esquerda. O oportunismo político surge como uma patologia transversal, onde a retórica serve apenas para camuflar o desejo primordial de enriquecimento, influência e autopromoção à custa do erário público e do sacrifício coletivo.</p>



<p>Em suma, este fragmento de <em>Repensar Portugal</em> transcende o seu contexto histórico original para se assumir como um tratado de ética política universal. Manuel Antunes não se limita a constatar a degradação do debate público, mas convoca o País a uma vigilância cívica permanente contra aqueles que se &#8220;locupletam com as desgraças da Pátria&#8221;. O texto permanece um aviso solene de que a sobrevivência de uma comunidade livre e justa depende da capacidade dos seus cidadãos distinguirem o verdadeiro serviço público da demagogia egoísta e parasitária.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="421" height="577" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/padre.jpg" alt="" class="wp-image-50441" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/padre.jpg 421w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/padre-219x300.jpg 219w" sizes="auto, (max-width: 421px) 100vw, 421px" /><figcaption class="wp-element-caption">Padre Manuel Antunes</figcaption></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/07/a-mascara-do-oportunismo/">A MÁSCARA DO OPORTUNISMO</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>O REBENTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sílvia Quinteiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 09:00:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[LIFESTYLE]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>o Vicente cresceu num mundo erguido pela fortuna que o pai construíra ao longo de cinquenta anos de trabalho árduo</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Filho de um industrial do calçado, o Vicente cresceu num mundo erguido pela fortuna que o pai construíra ao longo de cinquenta anos de trabalho árduo, couro curtido e pele de vaca. Estudou nos melhores colégios e universidades internacionais, frequentou os mais exclusivos círculos da elite económica, política e cultural. O dinheiro era-lhe tão natural quanto a própria existência. Vivia sem amarras de espécie alguma.</p>



<p>Um dia, porém, o pai anunciou que chegara a altura de assumir responsabilidades na empresa.</p>



<p>— O Homem não nasceu para ser escravo — respondeu o Vicente. — Nasceu para despertar.</p>



<p>O pai ficou uns instantes em silêncio. Depois perguntou:</p>



<p>— E quem paga esse despertar?</p>



<p>O Vicente sorriu. Como podia o pai compreender? Vivia naquela fábrica. Trabalho, tabalho, trabalho. Nunca fizera outra coisa. Faltava-lhe mundo.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Meses mais tarde, enviou-me uma fotografia diante de uma autocaravana verde-musgo. A legenda dizia apenas: “Finalmente livre!” </p>



<p>Seguiram-se os anos da conversão. Nepal, Índia, Butão, Tailândia, Costa Rica, Brasil, Bali. Ecovilas. Comunidades regenerativas. Retiros de silêncio. Meditação. Jejuns. Roupas de algodão orgânico que pareciam encontradas num contentor. Gurus com quem aprendeu a desconfiar do açúcar, do glúten, da lactose e, sobretudo, de quem persistia em cometer o ato selvagem de os consumir. Pecados modernos.</p>



<p>Em contrapartida, confiava plenamente em si próprio. Não no Vicente, personagem ultrapassada, mas em Bodhin.</p>



<p>— Agora sou Bodhin. Significa “aquele que despertou” — esclareceu quando nos reencontrámos anos mais tarde.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Aconteceu num festival de verão. Bodhin descera do seu retiro perdido na serra para dar uma oficina sobre escrita intuitiva: “Os teus sentimentos e emoções interessam”, intitulava-se. Um sucesso, tal como o eram os 32 títulos publicados e assinados por Mestre Bodhin.</p>



<p>Convidou-me para almoçar. Aceitei. Tinha saudades do Vicente: das férias no iate ao largo da Costa Amalfitana e das ilhas gregas, das noites de festa em Ibiza e Las Vegas e, quem diria agora, das viagens para conhecer as melhores churrascarias da Argentina, do Brasil e dos Estados Unidos.</p>



<p>Pediu por mim. Há hábitos que não desaparecem facilmente. Uma salada com ar refrescante mas de pouco sustento. Pedi que acrescentassem ovo cozido.</p>



<p>Bodhin não disse nada. Limitou-se a olhar com ar de reprovação.</p>



<p>— É das minhas galinhas — disse imediatamente a senhora. — Andam completamente à solta. São galinhas felizes.</p>



<p>O Vicente teria dado uma gargalhada. Bodhin limitou-se a escutar, com serenidade e compaixão. A mais absoluta superioridade moral.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Quando o prato chegou, o meu ovo vinha coberto de pequenos rebentos que não consegui identificar. Perguntei se eram de soja. Na verdade, era-me indiferente. Estava apenas a fazer conversa. Bodhin sorriu. Escolheu cuidadosamente um único rebento. Cheirou-o. Observou-o contra a luz. Depois mastigou-o lentamente.</p>



<p>— Não é soja. Feijão-mungo é mais crocante. A rúcula tem um toque amargo.</p>



<p>O veredito:</p>



<p>— É alfafa.</p>



<p>E, não fosse eu ficar com dúvidas do seu conhecimento, puxou do telemóvel topo de gama e mostrou-me as imagens que o comprovavam. No final, pediu kombucha para ambos. Nem me atrevi a sugerir um café, receando cometer alguma heresia gastronómica.</p>



<p>Acompanhei-o depois até à sua nova casa. O Ferrari das autocaravanas.</p>



<p>— Consome menos. Passo muito tempo isolado, longe de tudo. Tenho de ter frigorífico, computador, rede. Os meus alunos. Os seguidores. Os editores…</p>



<p>Vicente e Bodhin eram afinal a mesma planta. O rebento apenas mudara de vaso.</p>
</div></div>



<p></p>
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