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	<title>Sílvia Quinteiro, autor em Duas Linhas</title>
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	<description>Informação online</description>
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	<title>Sílvia Quinteiro, autor em Duas Linhas</title>
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		<title>A SINFONIA DA PREGUIÇA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sílvia Quinteiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2026 13:09:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Há uma orquestra que só toca no verão</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há uma orquestra que só toca no verão. Não sei onde se esconde durante o resto do ano. Talvez se desmonte peça por peça. Ou, talvez, quem sabe, continue a tocar baixinho, abafada pelo ruído dos dias apressados. Em agosto, porém, ouço-a refastelada, a bater o compasso com as pálpebras pesadas.</p>



<p>A abrir o concerto, o naipe dos sopros, com o piar entediado das gaivotas. Depois, a brisa, a empurrar a cortina que roça pelo chão. Ao longe, os clarinetes trazem-me vozes difusas. Conversas que se perdem antes de chegar até mim.</p>



<p>Entra então o mar, pelas cordas. O marulhar vai e vem, sem pressa, indiferente ao mundo, como se não soubesse o efeito que produz. Mas sabe. Sabe perfeitamente. Há qualquer coisa de <em>blasé</em> naquele ir e vir, ir e vir, no ondular <em>ad infinitum</em> da mesma nota perfeita.</p>



<p>Depois do almoço+, entra a percussão. O som miúdo da água da piscina. E, a sustentar a melodia, o pulsar das cigarras. Os tímbalos vibrantes e o calor em harmonia.  Eu, entre o sono e o sonho. Em transe.</p>



<p>O adágio demora-se. Ainda mais lento. Quase sem dar por isso, o meu respirar encontra o da cadela adormecida a meu lado. Sobe o peito dela, sobe o meu. Desce o dela, desce o meu. E, nesse movimento sincronizado e manso, deixo-me levar. É ela que me adormece.</p>



<p>Quando acordo, a luz já mudou. A tarde começa a cair e as cigarras deram lugar aos grilos. Entram as cordas, de novo, mas agora mais finas, mais espaçadas, num som que parece vir de todos os lados e de lado nenhum. Depois, o violoncelo. Uma nota grave e longa.</p>



<p>Fico deitada mais um pouco, a ouvir. Estamos a meio do verão. Ainda falta o segundo andamento desta  sinfonia da preguiça. Mal posso esperar.</p>
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		<title>O REBENTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sílvia Quinteiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 09:00:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>o Vicente cresceu num mundo erguido pela fortuna que o pai construíra ao longo de cinquenta anos de trabalho árduo</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Filho de um industrial do calçado, o Vicente cresceu num mundo erguido pela fortuna que o pai construíra ao longo de cinquenta anos de trabalho árduo, couro curtido e pele de vaca. Estudou nos melhores colégios e universidades internacionais, frequentou os mais exclusivos círculos da elite económica, política e cultural. O dinheiro era-lhe tão natural quanto a própria existência. Vivia sem amarras de espécie alguma.</p>



<p>Um dia, porém, o pai anunciou que chegara a altura de assumir responsabilidades na empresa.</p>



<p>— O Homem não nasceu para ser escravo — respondeu o Vicente. — Nasceu para despertar.</p>



<p>O pai ficou uns instantes em silêncio. Depois perguntou:</p>



<p>— E quem paga esse despertar?</p>



<p>O Vicente sorriu. Como podia o pai compreender? Vivia naquela fábrica. Trabalho, tabalho, trabalho. Nunca fizera outra coisa. Faltava-lhe mundo.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Meses mais tarde, enviou-me uma fotografia diante de uma autocaravana verde-musgo. A legenda dizia apenas: “Finalmente livre!” </p>



<p>Seguiram-se os anos da conversão. Nepal, Índia, Butão, Tailândia, Costa Rica, Brasil, Bali. Ecovilas. Comunidades regenerativas. Retiros de silêncio. Meditação. Jejuns. Roupas de algodão orgânico que pareciam encontradas num contentor. Gurus com quem aprendeu a desconfiar do açúcar, do glúten, da lactose e, sobretudo, de quem persistia em cometer o ato selvagem de os consumir. Pecados modernos.</p>



<p>Em contrapartida, confiava plenamente em si próprio. Não no Vicente, personagem ultrapassada, mas em Bodhin.</p>



<p>— Agora sou Bodhin. Significa “aquele que despertou” — esclareceu quando nos reencontrámos anos mais tarde.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Aconteceu num festival de verão. Bodhin descera do seu retiro perdido na serra para dar uma oficina sobre escrita intuitiva: “Os teus sentimentos e emoções interessam”, intitulava-se. Um sucesso, tal como o eram os 32 títulos publicados e assinados por Mestre Bodhin.</p>



<p>Convidou-me para almoçar. Aceitei. Tinha saudades do Vicente: das férias no iate ao largo da Costa Amalfitana e das ilhas gregas, das noites de festa em Ibiza e Las Vegas e, quem diria agora, das viagens para conhecer as melhores churrascarias da Argentina, do Brasil e dos Estados Unidos.</p>



<p>Pediu por mim. Há hábitos que não desaparecem facilmente. Uma salada com ar refrescante mas de pouco sustento. Pedi que acrescentassem ovo cozido.</p>



<p>Bodhin não disse nada. Limitou-se a olhar com ar de reprovação.</p>



<p>— É das minhas galinhas — disse imediatamente a senhora. — Andam completamente à solta. São galinhas felizes.</p>



<p>O Vicente teria dado uma gargalhada. Bodhin limitou-se a escutar, com serenidade e compaixão. A mais absoluta superioridade moral.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Quando o prato chegou, o meu ovo vinha coberto de pequenos rebentos que não consegui identificar. Perguntei se eram de soja. Na verdade, era-me indiferente. Estava apenas a fazer conversa. Bodhin sorriu. Escolheu cuidadosamente um único rebento. Cheirou-o. Observou-o contra a luz. Depois mastigou-o lentamente.</p>



<p>— Não é soja. Feijão-mungo é mais crocante. A rúcula tem um toque amargo.</p>



<p>O veredito:</p>



<p>— É alfafa.</p>



<p>E, não fosse eu ficar com dúvidas do seu conhecimento, puxou do telemóvel topo de gama e mostrou-me as imagens que o comprovavam. No final, pediu kombucha para ambos. Nem me atrevi a sugerir um café, receando cometer alguma heresia gastronómica.</p>



<p>Acompanhei-o depois até à sua nova casa. O Ferrari das autocaravanas.</p>



<p>— Consome menos. Passo muito tempo isolado, longe de tudo. Tenho de ter frigorífico, computador, rede. Os meus alunos. Os seguidores. Os editores…</p>



<p>Vicente e Bodhin eram afinal a mesma planta. O rebento apenas mudara de vaso.</p>
</div></div>



<p></p>
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		<title>O PINTAINHO, O LEÃOZINHO E AS TRÊS GRAÇAS MUDAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sílvia Quinteiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 08:00:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Toda a gente parecia partilhar um mesmo código de alegria colorida, descontraída, exuberante.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O problema é que o concerto vinha embrulhado num festival e eu não sou pessoa de festivais. Nunca tive paciência para multidões, filas intermináveis para tudo, casas de banho que põem à prova a elasticidade e a fé humana, já para não falar nas &nbsp;horas de espera a aguardar o momento desejado. Mas o cantor que eu queria ver encerrava a noite. Era a grande atração, o nome que fazia aquele cartaz inteiro valer a pena e que me levou a fazer muitas centenas de quilómetros.</p>



<p>Assim sendo, restava esperar. Em pé, porque os supostos bilhetes VIP, eram VIP nos assentos mas não na vista (lateral e distante). Seis horas e meia. Ditas assim parecem um suplício medieval. Mas o que são seis horas e meia para quem esperou quase cinquenta anos? As pernas discordavam. Os pés também. Venceu a vontade, que era muita.</p>



<p>Resignei-me à imobilidade forçada e comecei a fazer aquilo que mais gosto quando estou no meio de muita gente: observar. A fauna humana de um festival é uma coisa extraordinária.</p>



<p>Neste caso, note-se, a ave rara era claramente eu. Toda a gente parecia partilhar um mesmo código de alegria colorida, descontraída, exuberante. Havia brilhos, roupas improváveis, botas gigantes com saias minúsculas, cabelos de todas as cores, brincos em todos as protuberâncias possíveis e imaginárias, e uma felicidade coletiva que, devo admitir, me estava a agradar bastante.</p>



<p>Foi então que o vi. Um rapazito louro pintainho. Olhos lindos sublinhados pela maquilhagem, blazer e calções, botas de cowboy. Uma fusão improvável de clássico e excesso. Acreditem ou não, a coisa funcionava.  Mas o que me prendia o olhar a este rapaz não era o visual que, ali, era apenas mais um. O que me encantou foi a dança. Enquanto toda a gente dançava ao ritmo da música, ele movia-se a um ritmo só seu.</p>



<p>Lembrei-me daquela velha anedota do homem que conduz em contramão e acha que todos os outros é que estão errados. Só que, este rapaz, nem sequer parecia notar a presença dos outros. Na verdade, parecia de tal modo estar a ouvir uma música própria dentro da cabeça, que tentei perceber se teria auriculares a rivalizar com o som das colunas que quase me ensurdeciam. Mas nada. Os braços moviam-se num compasso impossível. Os passos não coincidiam com a batida. O corpo obedecia à tal melodia secreta que só ele escutava e que, por esta altura, queria muito que partilhasse comigo.</p>



<p>Com a noite a cair, entrou em palco uma banda que levou o público ao delírio. Só conhecia de nome. Fiquei curiosa. O ritmo convidava a um pezinho de dança. O pintainho continuava no seu ritmo desalinhado. A miudagem entoava as letras. Até aqui, tudo normal. Pelo menos para eles, porque para mim, rapidamente ficou estranhíssimo.</p>



<p>Acontece que não consegui perceber se as  três vozes femininas anunciadas com pompa e circunstância eram as das pequenas que estavam em palco ou as que saiam das colunas. Sim, porque se, no início, as bocas abriam e fechavam sincronizadas com a música, passados poucos minutos nem isso. O público a delirar com o enorme talento. E eu ali, perplexa. Já tinha ouvido a expressão “cantas bem, mas não me alegras”. Mas era a primeira vez que via alguém alegrar uma multidão sem cantar rigorosamente nada. Nem bem, nem mal. Nada!</p>



<p>É provavelmente do meu ADN (que me explicaram recentemente significar Afastamento da Data de Nascimento), mas confesso ter ficado muito aliviada quando entrou em palco o cantor que eu esperava e percebi que cantava e tocava mesmo. Melhor do que isso, tocou só para mim. Cantou comigo. Implorou-me que não o deixasse tão só. O planeta podia explodir, a aparelhagem incendiar-se.</p>



<p>A multidão sumiu-se. O pintainho desapareceu, ofuscado pelo leãozinho. Hoje estou com menos voz que as Três Graças Mudas da banda e ainda a dançar a um ritmo que só eu ouço.</p>
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		<title>O LIMOEIRO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sílvia Quinteiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 May 2026 00:48:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>- Dê-lhe com um pau. Mas com força.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/05/o-limoeiro/">O LIMOEIRO</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Durante anos, o limoeiro do meu quintal deu um limão por temporada. Um único. Esquisito, disforme. Feio, coitado: nem verde nem amarelo, coberto de cicatrizes acastanhadas.</p>



<p>Perguntei-me sempre se seria do solo ou se o limoeiro, sábio à sua maneira, sentiria que para azeda basta a vida e que um limão era suficiente.</p>



<p>Fosse porque fosse, ali continuava ele, teimoso, a dar o seu fruto anual, como se assim justificasse as regas, os cuidados e o pedaço de chão ocupado.</p>



<p>E estava eu prestes a cortá-lo quando uma vizinha me disse que o segredo era simples: bater-lhe. Isso mesmo. Segundo ela, os limoeiros gostam de ser postos na ordem.</p>



<p>&#8211; Dê-lhe com um pau. Mas com força. Olhe, aproveite quando estiver marafada com alguma coisa. Uma pessoa alivia e eles aprendem.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>A princípio, não sei se por não acreditar no remédio milagroso ou por pena da pobre árvore, ignorei a sugestão. Mas um limão? Um único? É muita falta de consideração. Não há como não levar a peito tamanha desfeita. E, vai de lá, num dia menos bom, mais por impulso do que por convicção, acabei por seguir o conselho. Primeiro, umas pancadinhas hesitantes, mas depois…</p>



<p>Tomei-lhe o gosto e, nos últimos meses, não há crise de mau feitio que não acalme com umas boas pauladas. Se foi por isso ou não, não sei, mas este ano parece outro. Enlouqueceu. Tem mais limões do que folhas. Frutos enormes, brilhantes, amarelos e perfumados. Nunca tinha dado para mais do que um mísero chá; agora, são às dezenas &#8211; centenas, talvez. Não falta cá por casa limonada, <em>lemon curd</em>, <em>limoncello,</em> bolos, tartes e tortas de limão, mousses e gelados, tudo polvilhado com umas raspas, claro está…</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Diz o povo que não há fome que não dê em fartura, que quanto mais me bates mais gosto de ti, que quando a esmola é muita o santo desconfia… E eu fico a olhar para esta abundância e pergunto-me: será esta uma forma de demonstrar obediência? Um gesto tardio de afeto? Um desabafo vegetal? Um ataque cítrico em resposta às tareias? Haverá algum mecanismo de defesa arborícola que transforme trauma em vitamina C? Ou terá a humanidade andado a subaproveitar uma técnica agrícola de enorme eficácia e baixo custo?</p>



<p>Ah, se ao menos eu fizesse parte da brigada da gratidão… agradeceria mais e questionaria menos.</p>
</div></div>
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		<title>EM DEFESA DO MAIO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sílvia Quinteiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 May 2026 09:00:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[festa da maia]]></category>
		<category><![CDATA[tradições]]></category>
		<category><![CDATA[usos e costumes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Iniciamos o ataque com um brinde. Engolir medronho em jejum não é para fracos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Amanhece. Sobre a mesa da casa de jantar, uma toalha de renda desenha penas de pavão. A mesa foi posta de véspera. Medronho. Folar. Bolo de laranja. Figos secos. Pratos antigos e cálices de vidro muito fino. Ao centro, uma jarra vazia aguarda que a encha de maios e calças de cuco. É, por isso, hora de ir até ao mato colher as flores. A família não tarda a despertar e há que atacar o Maio de imediato.</p>



<p>Caminho um pouco por entre os pinheiros e encontro uma mulher que traz um molho na mão.</p>



<p>– Tem chovido bem. Está tudo verde. Há muitos anos que não via tantos maios. Olhe ali. Maios e calças de cuco com fartura. – diz.</p>



<p>Também eu estou espantada com tamanha abundância de flores. Ficamos à conversa. Talvez já não haja tanta gente a apanhá-los. Talvez o hábito de pôr a mesa para atacar o Maio se esteja a perder. Rimos do facto de ambas termos bebido um copo de medronho mal acordámos. Não fosse o Maio entrar… Há que jogar pelo seguro.</p>



<p>– Tenho 94 anos. Se é para afastar o bicho, tanto vale o comprimido para o colesterol como um copinho de medronho. A Fátima é que já não vou, que fico cansada. Mas ainda cá quero andar mais uns dias. – afirma, divertida.</p>



<p>Pergunto-lhe se conhece as rolhas de maio. Se se faziam na sua infância. Nunca ouviu falar. “Em moça”, medronho e figos secos. Folar, mais tarde. Nos bons tempos. Em criança, nada. Explica-me que a tradição só existia para os ricos. A vida foi melhorando, mas até casar não se lembra de tal coisa. Os figos eram a refeição que levava para o trabalho. Não se podiam desperdiçar. E, enquanto vamos caminhando pelo mato e compondo os nossos molhos, entra por uma fabulosa viagem no tempo. Recorda sem qualquer esforço outros Dias de Maio. A comparação surge com naturalidade: o antigamente e o agora. Percebo que, quando se tem 94 anos, o agora pode ter 50.</p>



<p>– Naquele tempo, era tudo uma barrigada de fome. Esses “moce pequenes” que andam pr’aí a dizer que antigamente é que era bom, era dar-lhes com um pano encharcado nas ventas. – diz com rispidez. O ar de brincadeira e a leveza da conversa desaparecem. Mostra-se incomodada. Zangada. Só volta a sorrir quando nos despedimos.</p>



<p>Regresso a casa. Entro de ramo na mão. Acerto os caules e encho a jarra. Um volumoso molho de maios lilases salpicado pelo rosa vivo das calças de cuco. Ficou lindo. Sinto uma felicidade quase pueril. A mesa está finalmente pronta. Iniciamos o ataque com um brinde. Narizes franzidos. Os rapazes, ainda ensonados, fazem caretas. Engolir medronho em jejum não é para fracos. Como todos os anos, eu explico o que está na mesa. Lembro como se fazia em casa dos meus bisavós, avós e pais. Não o digo abertamente. Mas, o que realmente pretendo é que estes momentos fiquem gravados na memória dos meus filhos. Que registem todos os pormenores e não deixem que se perca o ritual algarvio.</p>



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<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" width="300" height="300" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/05/Calcas-de-cuco.webp" alt="" class="wp-image-48880" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/05/Calcas-de-cuco.webp 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/05/Calcas-de-cuco-150x150.webp 150w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></figure></div></div>
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<p>A família dispersa-se pela casa e eu sento-me, então, a escrever esta crónica. Hesito em usar a expressão da senhora a propósito dos que têm tantas saudades de outros tempos. Dou voltas ao texto. Procuro alternativas mais poéticas. Menos gráficas. Sinónimos. Eufemismos. E decido que ficará exatamente como me foi dito.</p>



<p>Pela minha parte, rabisco este texto que poderão sempre imprimir e encharcar, dando-lhe depois bom uso, em defesa deste e dos Maios que virão.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/05/em-defesa-do-maio/">EM DEFESA DO MAIO</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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