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	<title>Carmo Miranda Machado, autor em Duas Linhas</title>
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	<title>Carmo Miranda Machado, autor em Duas Linhas</title>
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		<title>VIAGENS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carmo Miranda Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Feb 2026 10:00:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[Olga Tokarczuk]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>"Quando viajo desapareço do mapa"</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Tento ler Olga Tokarczuk neste dia cinzento de Lisboa, deixando de lado todas os testes por corrigir porque só um leitor sabe o papel de um bom livro na sua saúde emocional.</p>



<p>Escolho &#8220;Viagens&#8221; , o título desta autora premiada com o Nobel em 2019, por razões que quem me conhece saberá óbvias. Mas o livro não me surpreendeu sobremaneira.</p>



<p>Tirando algumas ideias dispersas que me deixaram a pensar, tudo o resto são fragmentos de experiências de quem viaja, que nem sempre atingem o leitor: O mundo na cabeça;a cabeça no mundo; sete anos de viagem; aeroportos; viagem em busca das próprias raízes; cosméticos de viagem; psicologia da viagem; o tempo certo e o lugar certo entre tantos outros..</p>



<p>Tal como a autora, também eu me dei conta várias vezes de que, apesar de todos os perigos inerentes a quem viaja sem rede, tudo o que está em movimento é sempre melhor do que aquilo que está parado, em repouso. Embora discutível, vejo mudança sempre mais nobre do que a imobilidade, a ventura mais enriquecedora do que a estabilidade pois embora todos venhamos a sofrer do mesmo fenómeno de decomposição final, aquilo que teve movimento consegue durar eternamente.</p>



<p>Também eu, como Olga Tokarczuk, não herdei o gene que faz com que as pessoas criem raízes quando permanecem sempre no mesmo lugar. As minhas raízes, se surgirem, apodrecem. Já tentei várias vezes mas as minhas raízes são sempre superficiais e &#8220;qualquer brisa é capaz de me arrancar à terra&#8221;. Tal como as plantas, também eu não sou capaz de germinar. A minha energia vital provêm do movimento, mais especificamente da oscilação dos comboios e dos barcos, da trepidação dos carros e da descolagem dos aviões.</p>



<p>Temos em comum, eu e autora, essa inevitabilidade que é pormo-nos a caminho pelo mundo fora. &#8220;Quando viajo desapareço do mapa. Ninguém sabe onde estou. Se estou ainda no ponto de partida ou se já estou no ponto de chegada.&#8221;</p>



<p>Como diz Torga, em qualquer viagem, o que importa é partir, não é chegar.</p>
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		<title>LEVAREI O FOGO COMIGO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carmo Miranda Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Feb 2026 17:35:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[escritora Leila Slimani]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A ânsia de liberdade</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em &#8220;Levarei o fogo comigo&#8221;, sobre a terceira geração da família Belhaj, as marroquinas Mia e Inês mostram-se divididas entre o seu desejo de modernidade e o medo de perder a alma e as tradições do seu país. Ganha em ambas a ânsia de liberdade, mantida acesa pela chama das mulheres que as precederam: a avó Mathilde, a mãe Aicha e a tia Selma, essa mulher sozinha e livre, de uma força desmesurada&#8230; Enquanto Inês estudava medicina, Mia procurava nos livros a liberdade e a libertação da sua vida enfadonha e sem brilho.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Para ver uma ilha é preciso sair-se dela, fazer-se ao mar&#8230; Mas para nos integrarmos no novo, teremos de dissolver, apagar e anular de onde viemos? O que fazer quando já não somos do lugar onde nascemos e sabemos que nunca seremos do lugar onde estamos?</p>



<p>Em casa de Mia e Inês podia-se criticar o véu, o fanatismo, inflamar &#8211; se contra os barbudos mas fora de casa não se podia falar&#8230; Era preciso fingir que se respeitava o decoro. Pura hipocrisia, pensava Mia, humilhada por saber que os seus pais não eram livres.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Amar, o que é, afinal? Talvez amar não tenha nada que ver com as palavras. Talvez amar seja não fazer perguntas, não abrir os armários que o outro teve o cuidado de fechar à chave.</p>



<p>Mia também partiu de Marrocos, uma partida daquelas que determinam uma vida inteira. Por vezes, é preciso ir sem olhar para trás porque essa história das raízes não passam de uma maneira de nos pregar ao chão. Não importa o passado, a casa, os objetos, as recordações. Importa atear com todos eles um grande incêndio e levar o fogo connosco.</p>



<p>Não ceder, nunca, no que toca à liberdade.</p>



<p>Por vezes, muitas vezes, temos de ir sozinhas ao encontro dos monstros. Até ao dia em que recomeça em nós o desejo de voltarmos às origens&#8230;</p>



<p>Podemos ser, ao mesmo tempo, daqui e de lá?</p>
</div></div>
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		<title>&#8220;O exército não necessita de poetas ou prosadores&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carmo Miranda Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Apr 2025 23:00:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[LIFESTYLE]]></category>
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		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[Argélia]]></category>
		<category><![CDATA[escritor Yasmina Khadra]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livro "O Escritor"]]></category>
		<category><![CDATA[Mohammed Moulessehoul]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O escritor argelino Mohammed Moulessehoul, revela-nos neste livro a sua verdadeira identidade.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Yasmina Khadra, pseudónimo feminino do escritor argelino Mohammed Moulessehoul, revela-nos neste livro a sua verdadeira identidade. Em &#8220;O Escritor&#8221;, temos acesso à sua vida como cadete militar desde os 9 anos de idade bem como à difícil decisão que teve de tomar entre seguir a vida militar ou pura e simplesmente o sonho de ser escritor.</p>



<p>Desde o início, sentimos a angústia do protagonista, pela sua vida repleta de tentativas para construir um mundo e arranjar um cantinho nele. Sofreu detenção na penitenciária da escola militar com apenas treze anos: e era já um homem. Ousado. Inteligente. Sensível. Nunca desistiu do seu direito de pensar: &#8220;Quem cai, levanta-se. Fingir-se morto, seria estúpido, escavar um buraco, ignóbil. Um dia haveria de voar.&#8221;</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Privado de infância, confiscada a adolescência, a juventude comprometida, estava traçado o caminho de uma renúncia há muito anunciada. O <a></a>estatuto de cadete imposto pelo pai sobrepôs-se sempre à sua individualidade, anulando-a. O exército não necessita de poetas ou prosadores, dizem-lhe. Porém, para o jovem cadete a leitura era a sua principal forma de evasão; falava-lhe do mundo que lhe faltava, das paisagens e civilizações longínquas com que sonhava.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>A mãe, uma mulher pobre que serve o marido com uma devoção tão forte como a fé e que depois é abandonada, trocada por uma jovem.</p>



<p>Depois, o perdão ao pai. &#8220;Nada esqueci. Tudo perdoei. Em momento algum achei útil lembrar-lhe o mal que nos fizera. Para se viver feliz, há que viver sem rancor&#8221;.</p>



<p>Resta sempre a verdade de que &#8220;com o passar do tempo tudo passa&#8221; (Leo Ferré).</p>



<p>E no fim, a coragem para aceitar o seu destino e nunca desistir daquilo que sabia ser mais forte que o destino: a sua vocação de escritor.</p>



<p></p>
</div></div>
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		<title>Uma enorme lição de vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carmo Miranda Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jan 2025 13:00:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[Isabel Allende]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Documento multi-biográfico, relata a dolorosa experiência de uma mãe que perde um filho, mostrando uma introspectiva caminhada pelo silêncio enquanto comprova, mais uma vez, que só o Amor nos pode salvar. E, para Isabel Allende, a escrita também. A morte de Paula foi chegando com um passo leve e enquanto vinha, caía sobre uma mãe [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Documento multi-biográfico, relata a dolorosa experiência de uma mãe que perde um filho, mostrando uma introspectiva caminhada pelo silêncio enquanto comprova, mais uma vez, que só o Amor nos pode salvar. E, para Isabel Allende, a escrita também.</p>



<p>A morte de Paula foi chegando com um passo leve e enquanto vinha, caía sobre uma mãe derrotada, rebentada de tristeza por dentro. Perdida, sem saber quem é, tentando lembrar-se de quem era antes da filha morrer, apenas encontra disfarces, máscaras e imagens difusas de uma mulher que deixou de reconhecer. Paula deu à autora a oportunidade de se olhar por dentro e descobrir esses espaços interiores, vazios e obscuros que nunca antes tinha explorado.&nbsp;</p>



<p>Pode a descoberta dos nossos lugares sagrados surgir associada aos momentos mais duros da nossa vida, quando o Inverno se entranha nos ossos?</p>



<p>Enquanto escreve este livro, Isabel Allende recorda toda a sua vida, os amores, a escrita dos seus romances, a literatura, todas as ténues cicatrizes de risos e prantos do passado. Parece que quanto mais profunda é a ferida, mais recatada tende a ser a dor. O estado de coma e a posterior partida da filha só foram minimamente apaziguados porque existiu a escrita, esse tempo a sós com as palavras, esse tempo mágico, essa hora dos bruxedos, a única coisa que nos salva quando tudo à volta ameaça ruir&#8230;</p>



<p>Allende deixa-nos esta vibrante certeza: tanto a vida como a morte são feitas da mesma matéria. E a única recordação que porventura levamos na viagem é a memória dos amores que deixamos. Talvez estejamos no mundo para procurar o amor, encontrá-lo e perdê-lo, várias vezes. A cada amor voltamos a nascer e com cada amor que acaba abre-se uma chave.</p>



<p>Morremos cheios de orgulhosas cicatrizes&#8230; E talvez todos devêssemos escrever a tal carta &#8220;Para ser aberta quando eu morrer&#8221;.</p>



<p>Fica esta mensagem a reter: nos momentos mais desesperados, quando todas as portas se fecham e nos sentimos prisioneiros num beco sem saída, sempre se abre uma estreita passagem inesperada pela qual podemos sair.&nbsp;</p>



<p></p>
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		<title>O AVESSO DA PELE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carmo Miranda Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jan 2025 09:42:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Sim, raça. Sem medo das palavras, eis um romance que encara de frente os preconceitos em relação à identidade negra. A negritude percorre todas as 194&#160; páginas em que um homem vai em busca do seu pai e nessa sua caminhada acredita que os livros podem fazer algo pelas pessoas. Anos a fio o protagonista [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2025/01/o-avesso-da-pele/">O AVESSO DA PELE</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Sim, raça. Sem medo das palavras, eis um romance que encara de frente os preconceitos em relação à identidade negra. A negritude percorre todas as 194&nbsp; páginas em que um homem vai em busca do seu pai e nessa sua caminhada acredita que os livros podem fazer algo pelas pessoas. Anos a fio o protagonista suportou a pobreza, o racismo e a ausência paterna, para quem viver passou a ser uma&nbsp; questão de evitar a dor a qualquer custo.</p>



<p>Professor, procura ensinar não só aos seus alunos mas ao próprio filho como os livros nos podem ajudar a suportar as tragédias da vida.</p>



<p>Um professor brasileiro, como tantas outros, transformado numa mera máquina de dar aulas, numa maquina de paciência, numa máquina de repetições&#8230; Alguém que simplesmente&nbsp; não sabe como sobreviveu à escola, primeiro como aluno e depois como professor, transformando-o num ser indiferente e desencantado, um mero operário como tantos outros. Um professor que não abandonou o barco, como tantos outros, permanecendo na linha da frente, ou por ingenuidade ou por imbecilidade. E que aprendeu esta sábia lição: quando se lida com alunos durante vinte anos, uma linha muito ténue começa a separar a lógica do absurdo.</p>



<p>E um adulto cuja vida fora um desfile de abismos, um grande catálogo de perdas.</p>



<p>Um livro sobre o amor entre brancos e pretos, sempre um desafio numa sociedade hipócrita, relações condicionadas e medidas pela raça, afetos e desejos, aos olhos da sociedade, dependentes de mais ou menos melanina.&nbsp;</p>



<p>Um livro sobre a infância, essa fase que nos oferece as mágoas contra as quais passaremos o resto da vida a lutar. Um livro sobre perspetivas sempre, mais tarde ou mais cedo, estilhaçadas pela realidade.</p>



<p>Um livro sobre ter ou não filhos, para muitos uma espécie de segurança contra a solidão. E também, um livro sobre mulheres que se deixam engolir pelo matrimónio.</p>



<p>Será que a certa altura da vida, as pessoas perdem a capacidade de amar? Um homem que com apenas 52 anos deixou de saber como perdoar, depois de passar uma vida num campo minado, no fundo do poço de uma relação.</p>



<p>Por fim, uma reflexão sobre a vida e a morte: quando morremos, quando o nosso coração deixa de bater, não importa o que fizemos com a nossa vida, quantos planos abandonámos ou quantas pessoas magoámos ou nos magoaram, quantas vezes perdemos ou ganhámos&#8230; Não! Apenas interessa o que estávamos a fazer quando a morte nos visitou. Mas a morte é sempre uma ofensa, uma saída em silêncio. O protagonista morre, baleado pelo polícia, no sul do Brasil. Será um corpo negro sempre um corpo em risco em determinados lugares deste planeta?</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" src="https://i.imgur.com/Ypzf5RN.png" alt="" class="wp-image-38710"/><figcaption class="wp-element-caption">recorte</figcaption></figure></div>


<p>Deste livro, resta o mar como remédio. Sempre o mar. A proximidade com o mar como condição a seguir. Era assim que a mãe do protagonista se salvava. E é também assim que eu me salvo.</p>
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		<title>Mulheres que choram sempre devagar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carmo Miranda Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Dec 2024 11:09:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
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		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[Jeferson Tenório]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livro Estela Sem Deus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Jeferson Tenório, escritor brasileiro do Rio de Janeiro, escreveu esta delícia de livro que eu devorei numa viagem entre Luanda e a Cidade do Cabo só para confirmar que a escrita é uma poderosa forma de confissão. São apenas 181 páginas de uma escrita simples mas intensa, onde uma menina negra de nome Estela nos [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Jeferson Tenório, escritor brasileiro do Rio de Janeiro, escreveu esta delícia de livro que eu devorei numa viagem entre Luanda e a Cidade do Cabo só para confirmar que a escrita é uma poderosa forma de confissão. São apenas 181 páginas de uma escrita simples mas intensa, onde uma menina negra de nome Estela nos apresenta o seu mundo (a avó, a mãe, o irmão), a realidade da <a></a>sua pobreza e, particularmente, a sua relação com Deus.</p>



<p>A jovem Estela aprendeu desde cedo com a sua &#8220;vó Delfina&#8221; tudo o que havia a saber de importante sobre a perda. Desde cedo se habituou que a vida chega sempre a galope. Depois, com a mãe, aprendeu o que é a dignidade na pobreza, em importantes lições que a deixavam convencida de que alguns sonhos eram mesmo mais honestos do que a vida.</p>



<p>Uma vida quase reduzida a Estela, à sua mãe e a um irmão. Havia também um pai &#8211; habitualmente ausente como tantos pais &#8211; e sobretudo à beira do abismo, desesperadamente a segurar a mão de Estela para ele próprio não cair. Deveria haver mesmo uma lei que impedisse os pais de chorar à frente dos filhos, confessa-nos&#8230; A mesma Estela que afirma sentir um profundo silêncio dentro de si embora a sua mente voe para longe, porque pensar era a única coisa que a salvava.</p>



<p>Um livro sobre mulheres que choram sempre devagar como se tivessem de economizar a sua tristeza. Um romance sobre gente que nunca parou a vida por causa do pranto, o que é uma forma de milagre. Mulheres que aprenderam desde cedo a administrar a má sorte e o desalento. E talvez a felicidade seja só isso: saber administrar a tristeza.</p>



<p>Quando pensa ter descoberto o amor, Estela rapidamente percebeu que o Isaías era uma mosca-morta e, obviamente, a Estela, que inventava várias casas dentro da sua cabeça, seria impossível gostar de moscas-mortas. Na igreja, quando o pastor afirma que os homens são violentos porque são habituados a lidar com guerras e que as mulheres têm a obrigação de os acalmar, Estela não resiste a afirmar que Deus não tem memória e que muitas vezes se esquece das mulheres. Por isso, vai à igreja para lhe lembrar que as mulheres existem.</p>



<p>Do início ao fim, Estela interroga-se onde estará Deus&#8230; Mas, sabemo-lo, Deus não gosta de perguntas.</p>



<p>&#8220;Então, eu fechei os olhos e chamei por Deus. Mas Deus não veio.&#8221;</p>



<p>Para Estela, o mundo é muito maior que Deus.</p>
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		<title>Ai, se eu pudesse viver de ler livros e escrever sobre eles</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carmo Miranda Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Nov 2024 00:30:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[LER LIVROS]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
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		<category><![CDATA[ler livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Sándor Márai]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;As velas ardem até ao fim&#8221; é um livro que li várias vezes e que releio sempre que constato como os anos começam a tropeçar já uns nos outros, avisando para a inevitabilidade do fim e para os segredos que guardamos ou escondemos do tempo e da vida. Um livro sobre a amizade, essa rigorosa [&#8230;]</p>
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<p>&#8220;As velas ardem até ao fim&#8221; é um livro que li várias vezes e que releio sempre que constato como os anos começam a tropeçar já uns nos outros, avisando para a inevitabilidade do fim e para os segredos que guardamos ou escondemos do tempo e da vida.</p>



<p>Um livro sobre a amizade, <a></a>essa rigorosa lei humana. Um livro sobre o amor. Um livro sobre a necessidade de verdade. Um livro sobre a velhice e sobre a morte. Um livro sobre a força peculiar dos (mais) velhos. E um livro sobre Krisztina, uma pessoa soberana por dentro, algo tão raro hoje em dia, alguém que não suportava as limitações, em nenhuma sentido. Um livro também sobre o destino onde constatamos que cada um gera aquilo que acontece consigo: &#8221;o homem e o seu destino seguem-se um ao outro, evocam-se e criam-se mutuamente.&#8221; Esse destino que entra pela porta que nós próprios lhe abrimos, convidando-o a passar.</p>



<p>Quando não podemos morrer sem resolver um último enigma, sem confessar um último pecado, sem responder aquela pergunta, sem obter a última resposta. É assim tão forte a natureza humana. Não morremos sem conhecer a resposta para a verdadeira, a grande pergunta da nossa vida.</p>



<p>Este livro mexe sempre comigo porque sobreviver a alguém, sobreviver a quem amámos tanto que seríamos quase capazes de matar, sobreviver a alguém a quem estávamos ligados de tal maneira que quase morremos por isso, é doloroso, é inexplicável, é maravilhoso. Porque nele percebemos que só através dos detalhes podemos perceber o essencial. Porque é preciso saber como é que tudo aconteceu assim nas nossas vidas. Onde está o limite entre os seres humanos? Onde está o limite da traição? O que fazer quando as coisas nos começam a falar, quando a vida se nos dirige através da sua linguagem simbólica, convidando-nos a procurar compreender os sinais e as respostas.</p>



<p>Eis um livro sobre a solidão, esse estado em que conhecemos tudo e já não temos medo de nada. Um romance sobre um homem em busca da verdade. E quem procura a verdade só pode começar por buscá-la dentro de si porque, no fim, &#8220;o mundo não importa nada. Só importa o que fica nos nossos corações.&#8221;</p>



<p>E eu lembro-me disto todos os dias.</p>
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		<title>Um sniff de &#8220;O PERFUME&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carmo Miranda Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Nov 2024 08:15:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livro de Patrick Suskind]]></category>
		<category><![CDATA[livro O Perfume]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;O Perfume&#8221;, de Patrick Suskind, narra de forma brilhante a história de um assassino que vive no reino fugaz dos odores. Jean-Baptiste Grenouille, dotado de um extraordinário olfato, o menos nobre de todos os sentidos (como se o inferno cheirasse a enxofre e o paraíso a incenso e mirra), tem ao seu dispor a maior [&#8230;]</p>
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<p>&#8220;O Perfume&#8221;, de Patrick Suskind, narra de forma brilhante a história de um assassino que vive no reino fugaz dos odores.</p>



<p>Jean-Baptiste Grenouille, dotado de um extraordinário olfato, o menos nobre de todos os sentidos (como se o inferno cheirasse a enxofre e o paraíso a incenso e mirra), tem ao seu dispor a maior reserva de odores do mundo: a cidade de Paris do séc XVIII.</p>



<p>Um livro que é um autêntico tratado sobre o odor humano, sempre carnal e, por conseguinte, um odor de pecado&#8230; Mas antes de mais, a história do jovem Jean-Baptiste, dividido entre a riqueza do seu mundo olfativo e a pobreza da sua linguagem, levando-o mesmo a duvidar de que as palavras pudessem ter algum sentido&#8230; De modo que, com apenas seis anos, já o jovem tinha explorado olfativamente o mundo ao seu redor &#8211; flor de laranjeira, óleos de lima, cravo, rosa, extratos de jasmim, de bergamota, rosmaninho &#8211; possuindo um gigantesco vocabulário de odores com o qual elevava os seus discursos olfativos quase ao infinito.</p>



<p>Tendo como objetivo principal da sua vida revolucionar o universo dos odores e ser o maior perfumista de todos os tempos, o protagonista deste livro transporta-nos para um mundo de velas, incensos, especiarias, grãos de anis, casca de canela, mel, cafés, chás, almíscar&#8230; um caos de odores com um poder irresistível e contra o qual não se conhece nenhuma forma de defesa possível. Mas não só. Jean-Baptiste fartou-se dos odores das coisas e passou a desejar apenas o odor dos seres humanos, de determinados seres humanos, mais precisamente desses raríssimos seres que inspiram o amor.</p>



<p>Todo o livro é uma festa olfativa, uma gigantesca orgia de fumo de incenso e vapores de mirra conjugados com o assassino irrepreensível de várias jovens.</p>



<p>Era obviamente um homem escuro e estranho e que não possuía qualquer honra. Sabemo-lo por todas as mulheres que mata mas, sobretudo, pelo facto de conseguir deitar um olhar de ódio ao próprio sol!</p>
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		<title>Julgamos conhecer aqueles que amamos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carmo Miranda Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Oct 2024 00:00:11 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Andrew Sean Greer]]></category>
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		<category><![CDATA[livro A História de um Casamento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A &#8220;História de um Casamento&#8221; que hoje vos trago é simplesmente isso, a história de um casamento onde a narradora começa por desabafar connosco: &#8220;Julgamos conhecer aqueles que amamos.&#8221; Todo o romance se desenvolve em volta desta reflexão num contexto dos anos cinquenta norte-americanos, onde o contexto da guerra e dos que a ela tentaram [&#8230;]</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>A &#8220;História de um Casamento&#8221; que hoje vos trago é simplesmente isso, a história de um casamento onde a narradora começa por desabafar connosco: &#8220;Julgamos conhecer aqueles que amamos.&#8221; Todo o romance se desenvolve em volta desta reflexão num contexto dos anos cinquenta norte-americanos, onde o contexto da guerra e dos que a ela tentaram fugir está muito presente. Pensamos que conhecemos as pessoas com quem partilhamos a nossa vida e uma manhã acordamos e ao nosso lado, na cama, está alguém que desconhecemos.</p>



<p>A protagonista é confrontada com o regresso de um desconhecido, um visitante improvável, um companheiro de guerra, um amante antigo que chegara para recuperar o marido dela&#8230; Este homem chegou como uma onda na maré alta, destruindo o pequeno castelo que ela julgara ter construído.</p>
</div></div>



<p>Talvez seja impossível ver-se um casamento, talvez seja impossível desvendar os segredos de uma guerra, talvez seja impossível não sentir uma terrível solidão quando vemos a nossa vida como uma ficção que escrevemos e na qual acreditámos.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>As páginas deste romance narram as muitas dúvidas que assaltam a protagonista, ao juntar pontas soltas de uma vida, agora que o seu mundo construído com tanto esforço e cuidado foi arrastado por uma tempestade levando desde as fundações, as paredes, as janelas&#8230; O que fez ela com as duas dúvidas? Encerrou-as como se faz às traças, num frasco, para as matar. Com que então, o marido era &#8220;um deles&#8221;, estavam agora em todo o lado, este género de homens que &#8220;andavam agora a nascer&#8221;&#8230;</p>



<p>Há uma dignidade de gigante nesta personagem feminina, negra, esposa e mãe. De facto, não havia muitos sítios onde um homem branco gay e uma rapariga de cor pudessem encontrar-se em 1953.</p>



<p>O que se faz com os afetos? Andrew Sean Greer escreve sobre as muitas formas do amor, narradas com uma subtileza que não deixa ninguém indiferente. Enquanto autor homossexual, as relações &#8220;gay&#8221; e o amor são dois dos temas fortes das suas obras, sendo o casamento o centro deste livro, aqui brilhantemente comparado com o chuveiro de um hotel: &#8220;regulamos a temperatura correta e alguém do outro lado da parede abre a torneira do seu chuveiro e nós levamos com a água gelada, regulamos outra vez a temperatura, apenas para o ouvir berrar de dor, ele regula a sua, e assim sucessivamente, até alcançarmos um compromisso tépido que ambos possamos suportar.&#8221;</p>
</div></div>



<p>Une as três personagens principais desta obra aquilo que liga um ser humano a outro: o sofrimento. Talvez o amor seja uma loucura que, tal como a loucura, é intolerável ser vivido a sós. E quando a única pessoa que nos pode aliviar é exatamente a pessoa à qual não podemos recorrer &#8211; aqueles que amamos &#8211; acabamos todos por procurar aliados entre aqueles que são nossos semelhantes por já terem sentido algo que os magoou quase tão fundo.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Julgamos conhecer aqueles que amamos, muito simplesmente pensamos que os conhecemos mas não os conhecemos de todo. São facetados de centenas de lados ocultos, impossíveis de descobrir. Ninguém consegue ser forte, prudente, bom e fiel, de verdade, ou pelo menos durante uma vida inteira&#8230;</p>



<p>Muito bom! </p>



<p>Acompanhem-me para <strong><a href="https://duaslinhas.pt/author/carmo-miranda-machado/">mais indicações (boas) de leitura</a></strong>.</p>
</div></div>
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		<title>LIVRO PROIBIDO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carmo Miranda Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Oct 2024 09:27:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[LER LIVROS]]></category>
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		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livro Cisnes Selvagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Jung Chang em Cisnes Selvagens &#8211; Três Filhas da China &#8211; conseguiu dar-me um verdadeiro murro no estômago. Houve passagens descritivas das torturas feitas que amarfanharam as minhas entranhas e em que quase me apeteceu vomitar. Eis a história da China antes, durante e depois de Mao, ao longo de três gerações: avó, filha e [&#8230;]</p>
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<p>Jung Chang em Cisnes Selvagens &#8211; Três Filhas da China &#8211; conseguiu dar-me um verdadeiro murro no estômago. Houve passagens descritivas das torturas feitas que amarfanharam as minhas entranhas e em que quase me apeteceu vomitar. Eis a história da China antes, durante e depois de Mao, ao longo de três gerações: avó, filha e neta, de 1924 à Primavera de 1989, ano em que a autora regressa à China e faz a pesquisa que lhe faltava para este livro.</p>



<p>Que viagem pela cultura chinesa este livro nos oferece, meu Deus! Desde a barbaridade dos costumes e tradições milenares como enfaixar os pés das mulheres &#8211; essencial para obter um bom casamento, à prática frequente do sistema de concubinato, ao estigma de nascer e ser mulher, aos pesados preconceitos morais, passando pelo ópio, chegando a Pu Yi, o último imperador da China, à invasão japonesa, à chegada do Exército Vermelho soviético, ao Kuomintang e depois ao Comunismo de Mao e à Revolução Cultural, às perseguições, às atrocidades da tortura, tudo neste livro é um documento sólido de uma cultura de ritos, de uma sociedade feroz, de um povo sofrido, quase inerte, desumano&#8230;</p>



<p>Em 1924 a China estava mergulhada num caos onde a miséria, a fome, o frio, a escravidão do trabalho imperavam. Na década de 30, os comunistas começaram a montar uma apreciável organização clandestina de resistência aos japoneses cuja invasão teve início em 1937. O que se seguiu foi a desastrosa tentativa de construir uma sociedade justa que, até à época de começar a sacudir o maoísmo, transformou a China num verdadeiro campo de batalha a céu aberto, dominando firmemente cerca de noventa e cinco milhões de pessoas, abolindo qualquer tipo de individualidade. Já nada podia ser considerado pessoal ou privado, sendo necessário pedir instruções ao partido para TUDO. Este tudo não especificado haveria de tornar-se o traço elementar do regime comunista. Isto significava, obviamente, que as pessoas não podiam fazer nada por iniciativa própria de forma a evitar problemas de nepotismo.</p>



<p>Juntar-se à Revolução significava abdicar de absolutamente tudo, sobretudo da humanidade. E os &#8220;camaradas&#8221; encarregar-se-iam de perseguir, punir, violentar, massacrar, torturar todos os que não seguissem à risca as leis do partido que exigiam pessoas &#8220;endurecidas&#8221;, frias, déspotas, portanto ignorantes. Assim, quem &#8220;entrava para a revolução&#8221; nunca mais podia sair.</p>



<p>Mao exigiu tudo de todos. A sua máquina propagandista, trituradora e panfletária de desinformacao e de compor a realidade obrigava a agitar bandeirinhas de papel vermelho com cinco estrelas (a nova bandeira da China comunista) e a usar &#8220;os sapatos da revolução&#8221;.</p>



<p>Mas isso era o menos&#8230; A família, a higiene, o prazer, o conforto, tudo era considerado antiproletário, logo sancionado e punido. A reforma do pensamento, pedra de toque do regime, levava a uma permanente intromissão do Partido nas vidas privadas das pessoas e todas as semanas decorriam sessões de &#8220;exame de pensamento&#8221; e de &#8220;autocrítica&#8221;. O controlo comunista da informação &#8211; altamente compartimentalizada e racionada, paralelamente à invenção-chave de Mão que consistia em envolver toda a população no mecanismo de controlo, transformou a vida das pessoas num inferno.</p>



<p>Pensar por si mesmo era considerado inaceitável e qualquer tipo de pensamento independente era visto como uma ameaça à união que Mao proclamava. O que se seguiu todos sabemos: os meios de comunicação ficaram sob controlo do Partido. Se tivermos em conta o facto de o nível de instrução do povo chinês sempre ter sido muito baixo e de o país sempre ter vivido sob regimes ditatoriais que funcionavam conservando o povo ignorante e, em consequência, submisso, encontramos aqui o contexto ideal para o domínio e a liderança de Mao.</p>



<p>Passou a ser proibido cozinhar em casa e obrigatório comer nas cantinas, 100 milhões de camponeses foram desviados para a produção de aço, foram criadas as comunas e, com a chegada dos anos sessenta, a grande fome espalhou-se por toda a China. Milhões de camponeses morreram de fome e pais comeram filhos&#8230;</p>



<p>Em suma, sob a ditadura de Mao, &#8220;a nação inteira mergulhou na mentira.&#8221; O culto e o endeusamento de Mao encheu o povo de ódio pelos inimigos da classe e o que se seguiu deve ser lembrado por todos: o Medo alastrou de tal forma que as pessoas nem se atreviam a pensar&#8230;A dita Revolução Cultural reduziu a pó a essência da China e do seu povo. O sofrimento e a angústia humana eram coisas que não preocupavam Mao, cego pelo poder demoníaco: &#8220;O que fora que transformara as pessoas em monstros? Foi neste período que a minha devoção a Mao começou a esmorecer&#8221;.</p>



<p>Citando Confúcio: &#8220;Jiang-xin-bi-xin&#8221;. Ou seja, &#8216;imagina que o meu coração é o teu coração&#8221;. Só assim poderemos perceber as violentas e desumanas atrocidades praticadas, aqui narradas, vividas e sentidas pela autora antes de deixar a China e conseguir &#8220;esse feito enorme&#8221; que foi vir para o Ocidente: &#8220;Foi a partir desta altura que desenvolvi a minha maneira de julgar os chineses, dividindo-os em duas categorias: uma humana, a outra não.&#8221;</p>



<p>Cisnes Selvagens é ainda hoje, obviamente, um livro proibido na China.</p>
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