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	<title>Alfredo Quintas, autor em Duas Linhas</title>
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	<title>Alfredo Quintas, autor em Duas Linhas</title>
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		<title>O EXÍLIO DA INTELIGÊNCIA (Jorge de Sena)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2026 23:00:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O homem que recusava rebaixar-se à bitola da mediocridade nacional.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O exílio de Jorge de Sena foi a consequência inevitável de uma inteligência que recusava rebaixar-se à bitola da mediocridade nacional. Ao trocar a engenharia civil em Portugal pelas cátedras universitárias nas Américas, Sena não procurou apenas a sobrevivência, mas o oxigénio intelectual que o Estado Novo lhe negava.</p>



<p>No Brasil e, mais tarde, nos Estados Unidos, a sua carreira académica atingiu uma dimensão internacional fulgurante, transformando o engenheiro emparedado pela censura num dos mais respeitados ensaístas da sua geração. Contudo, esta consagração carregou sempre uma ironia amarga e tipicamente seniana.</p>



<p>Enquanto as prestigiadas universidades americanas disputavam a erudição do mestre, o Portugal burocrático e tacanho que o escorraçara continuava a preferir a segurança dos seus imbecis diplomados à incómoda altivez do génio. Sena brilhava no topo do mundo académico e sofria na solidão cultural do estrangeiro, mas a sua maior vingança contra a pátria foi provar que o “reino da estranheza e da estupidez” continuava exilado de si próprio, orgulhoso da sua própria ignorância enquanto os outros o aplaudiam de longe.</p>



<p>Como preâmbulo a esse afastamento físico, e no seu tom profundamente desmistificador de falsos heroísmos, ergue-se uma das suas composições mais célebres e fundamentais, escrita em Lisboa a 25 de junho de 1959, escassas semanas antes da sua partida. Intitulado “Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, o poema diz o seguinte:</p>



<pre class="wp-block-verse">CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA<br>Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.<br>É possível, porque tudo é possível, que ele seja<br>aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,<br>onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém<br>de nada haver que não seja simples e natural.<br>Um mundo em que tudo seja permitido,<br>conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,<br>o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.<br>E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto<br>o que vos interesse para viver. Tudo é possível,<br>ainda quando lutemos, como devemos lutar,<br>por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,<br>ou mais que qualquer delas uma fiel<br>dedicação à honra de estar vivo.<br>Um dia sabereis que mais que a humanidade<br>não tem conta o número dos que pensaram assim,<br>amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,<br>de insólito, de livre, de diferente,<br>e foram sacrificados, torturados, espancados,<br>e entregues hipocritamente à secular justiça,<br>para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”<br>Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,<br>a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas<br>à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,<br>foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,<br>e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,<br>ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.<br>Às vezes, por serem de uma raça, outras<br>por serem de uma classe, expiaram todos<br>os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência<br>de haver cometido. Mas também aconteceu<br>e acontece que não foram mortos.<br>Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,<br>aniquilando mansamente, delicadamente,<br>por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.<br>Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,<br>foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha<br>há mais de um século e que por violenta e injusta<br>ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,<br>que tinha um coração muito grande, cheio de fúria<br>e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.<br>Apenas um episódio, um episódio breve,<br>nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)<br>de ferro e de suor e sangue e algum sémen<br>a caminho do mundo que vos sonho.<br>Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém<br>vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.<br>É isto o que mais importa – essa alegria.<br>Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto<br>não é senão essa alegria que vem<br>de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez<br>alguém está menos vivo ou sofre ou morre<br>para que um só de vós resista um pouco mais<br>à morte que é de todos e virá.<br>Que tudo isto sabereis serenamente,<br>sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,<br>e sobretudo sem desapego ou indiferença,<br>ardentemente espero. Tanto sangue,<br>tanta dor, tanta angústia, um dia<br>– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –<br>não hão-de ser em vão. Confesso que<br>muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos<br>de opressão e crueldade, hesito por momentos<br>e uma amargura me submerge inconsolável.<br>Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,<br>quem ressuscita esses milhões, quem restitui<br>não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?<br>Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes<br>aquele instante que não viveram, aquele objecto<br>que não fruíram, aquele gesto<br>de amor, que fariam “amanhã”.<br>E, por isso, o mesmo mundo que criemos<br>nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa<br>que não é nossa, que nos é cedida<br>para a guardarmos respeitosamente<br>em memória do sangue que nos corre nas veias,<br>da nossa carne que foi outra, do amor que<br>outros não amaram porque lho roubaram.</pre>



<p>Se esta mensagem a Goya assume um tom trágico, ético e profundamente humanista, a distância geográfica consolidada nas Américas fez brotar, nos anos seguintes, uma linguagem radicalmente diferente. No que toca à sátira direta à mentalidade portuguesa e à distância imposta pelo exílio, destaca-se a sua vertente poética mais mordaz, escrita a partir da década de 60, onde Sena destila o seu sarcasmo contra os intelectuais e o regime que ficou em Portugal.</p>



<p>Nos poemas onde se dirige aos “bem-comportados” que ficaram a pastar na segurança do regime salazarista, a sátira atinge o estatuto de cirurgia a sangue frio. Sena não chora a pátria com a brandura dos nostálgicos; ele ridiculariza-a. Do alto das suas cátedras americanas, o poeta lança farpas venenosas contra a “inteligentzia” caseira que, em Lisboa, competia por migalhas de prestígio oficial enquanto fingia uma resistência de salão.</p>



<p>Com versos curtos e uma dicção deliberadamente prosaica — despida de qualquer lirismo —, ele destrói o mito do “bom português”. Sena acusa os seus contemporâneos de terem transformado o país num condomínio de cobardes meritórios, onde a sobrevivência dependia da capacidade de baixar a cabeça e de aplaudir a mediocridade geral.</p>



<p>A sua poesia satírica do exílio torna-se, assim, um espelho deformante devolvido a Portugal: mostra que, enquanto ele padecia de uma solidão geográfica real, os que tinham ficado sofriam de uma castração mental voluntária. Para Sena, o riso sarcástico era a única forma digna de não ceder ao ódio nem à autocomiseração.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="554" height="553" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/image-1.png" alt="" class="wp-image-50889" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/image-1.png 554w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/image-1-300x300.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/image-1-150x150.png 150w" sizes="(max-width: 554px) 100vw, 554px" /></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/08/o-exilio-da-inteligencia-jorge-de-sena/">O EXÍLIO DA INTELIGÊNCIA (Jorge de Sena)</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>CLAUDIO LEPRATTI</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Aug 2026 16:00:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>o assassinato de Claudio "Pocho" Lepratti</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>ROSÁRIO &#8211; A crise política, económica e social que levou a Argentina ao colapso em dezembro de 2001 &#8211; período historicamente conhecido como <em>Cacerolazo</em> ou <em>Argentinazo</em> &#8211; deixou marcas profundas na história contemporânea da América Latina. Entre os episódios mais emblemáticos deste período está o assassinato de Claudio &#8220;Pocho&#8221; Lepratti, um ativista social de 35 anos que se tornou um herói nacional e símbolo de resistência popular. A sua história foi posteriormente imortalizada pelo cantor e compositor León Gieco na canção <em>&#8220;El Ángel de la Bicicleta&#8221;</em>.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Percurso e Compromisso Social</strong></h4>



<p>Filho primogénito de uma família de seis irmãos, Lepratti demonstrou desde jovem um forte interesse pelos direitos humanos e pelas causas sociais. Ingressou no Instituto Salesiano na localidade de Funes, próximo de Rosário, onde optou pela carreira religiosa como &#8220;irmão coadjuvante&#8221;.</p>



<p>Após deixar o seminário, fixou-se na província de Santa Fé, onde desenvolveu um trabalho comunitário intensivo com as populações mais vulneráveis. Lepratti foi o fundador do grupo juvenil &#8220;La Varancia&#8221;, focado na formação de crianças de bairros desfavorecidos, e criou a revista comunitária <em>&#8220;El Ángel de la Lata&#8221;</em>. O seu ativismo estendeu-se também à esfera sindical, colaborando ativamente com a Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE) e com a Central deTrabalhadores da Argentina (CTA). O seu principal meio de transporte para percorrer as comunidades carenciadas de Rosário era uma bicicleta, elemento que mais tarde definiria a sua iconografia.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>O Incidente de 19 de Dezembro</strong></h4>



<p>No final de 2001, a Argentina enfrentava uma das piores crises financeiras da sua história, caracterizada por violentos protestos e forte repressão policial. No dia 19 de dezembro daquele ano, Lepratti encontrava-se a trabalhar como ajudante de cozinha num refeitório escolar no bairro de Las Flores, em Rosário, que no momento estava repleto de menores.</p>



<p>Ao detetar a chegada de forças policiais da cidade de Arroyo Seco com intenções repressivas, Lepratti subiu ao telhado das instalações com o objetivo de proteger as crianças. De acordo com os registos históricos e testemunhos da época, o ativista confrontou as autoridades gritando: <em>&#8220;Filhos da puta, baixem as armas, só tem crianças comendo aqui!&#8221;</em>. Na sequência do protesto, o agente policial Esteban Velázquez disparou contra a traqueia de Lepratti, causando-lhe a morte imediata. O agente foi posteriormente julgado e condenado pelo homicídio.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" width="526" height="526" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/Claudio-Lepratti-2.jpg" alt="" class="wp-image-50884" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/Claudio-Lepratti-2.jpg 526w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/Claudio-Lepratti-2-300x300.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/Claudio-Lepratti-2-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 526px) 100vw, 526px" /></figure></div>


<h4 class="wp-block-heading"><strong>Impacto Cultural e Legado</strong></h4>



<p>A morte precoce de Claudio Lepratti gerou uma onda de indignação que alimentou os protestos nacionais. O seu nome e imagem foram multiplicados por todo o território argentino através de murais urbanos, onde é frequentemente representado por bicicletas aladas.</p>



<p>O legado de Lepratti foi consolidado na cultura popular argentina através da obra de León Gieco. A canção <em>&#8220;El Ángel de la Bicicleta&#8221;</em> transformou o ativista num ícone cultural de solidariedade e justiça social, servindo como um documento artístico de denúncia contra a violência estatal durante a crise de 2001.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="1024" height="670" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho-1024x670.png" alt="" class="wp-image-50881" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho-1024x670.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho-300x196.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho-768x503.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho-1536x1005.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho-696x456.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho-1392x911.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho-1068x699.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho-741x486.png 741w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho-1320x864.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/claudio-lepratti-pocho.png 1650w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p></p>
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		<title>MUDAR O SÉCULO SEM ACORDAR O PAÍS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Aug 2026 23:00:14 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Oliveira Martins]]></category>
		<category><![CDATA[pensar Portugal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>"o nosso mal não é a paixão que erra, é a fraqueza que se resigna"</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O diagnóstico de 1902 <em>(uma póstuma homenagem a Oliveira Martins)</em> bate à porta do Portugal contemporâneo com uma precisão cirúrgica. No século XXI, o sentimento português vive uma esquizofrenia identitária: por um lado, exportamos uma imagem de país moderno, tecnológico, turístico e acolhedor; por outro, partilhamos secretamente a mesma melancolia e o mesmo sufoco descritos na <em>Revista &#8211; A Comédia Portuguesa – Ano I, Lisboa 1 de Setembro de 1902</em>. A &#8220;fortaleza de misérias&#8221; mudou de aspeto, mas o labirinto interior permanece idêntico.</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right">"Para as nações como para os homens, o pior estado é o torpor; e o nosso mal não é a paixão que erra, é a fraqueza que se resigna."<br>"O nosso parlamentarismo é uma farsa ruidosa, onde se discutem vaidades e se esquecem as realidades da nação."<br><strong>Oliveira Martins</strong></pre>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="614" height="864" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/image.png" alt="" class="wp-image-50872" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/image.png 614w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/image-213x300.png 213w" sizes="auto, (max-width: 614px) 100vw, 614px" /></figure></div>


<p>Hoje, o &#8220;rataplan do charlatão&#8221; já não ecoa nos tambores da praça pública, mas sim no ruído estéril das redes sociais e no mediatismo vazio. Continuamos a sofrer de um complexo de inferioridade crónico que se disfarça de sobranceria sempre que um sucesso individual — seja na ciência, no desporto ou na cultura — é celebrado como uma vitória da pátria. É o mesmo mecanismo de há cento e vinte anos: usamos o brilho do momento para anestesiar a &#8220;indiferença fatal&#8221; que nos impede de resolver os problemas estruturais de sempre, como a perda de jovens talentos para o estrangeiro ou os salários sufocantes.</p>



<p>O maior perigo do sentimento português atual é a normalização do cinismo como única forma de defesa. Olhamos para as instituições com a profunda &#8220;desconfiança do caminhante no meio duma floresta&#8221;, resvalando para um fatalismo cómodo que aceita a degradação pública como um destino inevitável. Continuamos a ser o povo que canta a sua própria dor, orgulhoso do passado que herdou, mas estranhamente resignado perante o futuro que tarda em construir.</p>
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		<title>A CHOLDRA DOS ADVERSOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Aug 2026 16:00:02 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[POLÍTICA]]></category>
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		<category><![CDATA[poesia de Alfredo Quintas]]></category>
		<category><![CDATA[poesia satírica]]></category>
		<category><![CDATA[sátira política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>"A Choldra dos Adversos" é uma sátira política violenta e indignada </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse"><strong>A Choldra dos Adversos</strong><br><br>Nesta pátria de farsa e de elóquio barato,<br>Onde o político é o rato que rói a nação,<br>Cospe-se o povo num prato de ingrato,<br>Enquanto se vende, por trocos, o chão.<br>É um guaiar de hienas em cira constante,<br>Uma amena brincadeira de quem não tem brio,<br>Onde o mentiroso se sente gigante<br>E o país se afoga num mar de vazio.<br><br>Crises sob medida, encomendadas no lodo,<br>Por ignotos devotos da própria pança,<br>Bestas lesadas que vendem o todo<br>A troco de um cargo ou de uma esperança.<br>Angária imunda! Bestas de fato e gravata!<br>Em democracias paridas num beco qualquer,<br>Onde a honra se compra e a decência se mata,<br>E o povo se verga ao que o mestre quiser.<br><br>É toda a merda que cheire menos mal,<br>Ou mal porque cheira a carcaça e a mofo,<br>Um fedor que invade este Portugal<br>Enquanto o bandido se encosta no fofo.<br>Inovai a real bruma, falécios duma figa!<br>Cessai o teatro, a desfaçatez e o verso,<br>Pois não há paciência que vos bendiga<br>Neste pântano imundo, neste universo inverso.<br><br>Longe com as rimas que só nos insultam!<br>Envergonham as quinas, mancham o brasão!<br>São ratos de esgoto que as leis consultam<br>Para encontrar o caminho da nova traição.<br>Criai o abismo! Cavai a vossa própria cova!<br>E empurrem para lá cada ismo de estimação,<br>Cada crata que vive de mama e de prova,<br>E ide vós também... para a puta que vos pariu a intenção!<br><br>Que o precipício vos coma, de um trago só,<br>E que da vossa carniça não reste memória,<br>Pois este país já não aguenta ser pó<br>Nas mãos de quem caga por cima da História.<br>E depois que o ar limpe do vosso veneno,<br>Que se erga Portugal, livre desta corja,<br>Num dia de sol, de futuro sereno,<br>Forjado de novo em sagrada forja.<br><br>Que nasça um Pessoa que nos parta em mil,<br>Um Régio que grite o "Não!" absoluto,<br>Um Almada que limpe este povo servil,<br>Um Pascoaes que arranque o país do seu luto.<br>Que venham os mestres da alma e do génio,<br>Varrer a escumalha que o trono ocupou,<br>Para que o brio não seja um milénio<br>De algo que a história um dia roubou!<br></pre>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>
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		<title>A IMORTALIDADE NA MEMÓRIA DO OUTRO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Aug 2026 23:00:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CRÍTICAS E PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[a morte física]]></category>
		<category><![CDATA[a vida tal como ela é]]></category>
		<category><![CDATA[imortalidade]]></category>
		<category><![CDATA[viver em sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O papel mais nobre da experiência humana: o de se tornar inesquecível para alguém.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A morte física não é o encerramento de uma vida, mas a sua definitiva descentralização. Enquanto respiramos, operamos sob a ilusão de que a nossa identidade termina onde a nossa pele delimita o corpo. Puro engano. A nossa existência real nunca pertenceu a um indivíduo isolado, pois nenhum ser humano é uma ilha. Nós somos o resultado dos laços que tecemos. Existir é ser percebido, ser afetado e, fundamentalmente, afetar. Portanto, quando os seus olhos se fecharem pela última vez, a sua história não deixará de ser escrita; ela apenas mudará de morada, passando a habitar o território emocional daqueles que continuam a caminhar.</p>



<p>Olhar para a sua partida sob a lente das relações humanas é compreender que você se transformou em uma herança viva. Ao longo da jornada, você não apenas acumulou dias, mas fragmentou-se positivamente na vida das pessoas ao seu redor. Você dissolveu-se em centenas de lembranças distintas: habita o sorriso de um amigo que se recorda de uma piada partilhada, a resiliência de um familiar que se apoia no seu exemplo e a sensibilidade de quem aprendeu a ler o mundo através dos seus olhos. Nós somos os espelhos uns dos outros. Na ausência do seu corpo, os reflexos que você deixou na alma de quem fica passam a ser a sua face visível.</p>



<p>Essa é a verdadeira filosofia da presença na ausência. A saudade que os outros sentirão não deve ser vista como um abismo de falta, mas sim como a prova física e incontestável de que um espaço sagrado foi preenchido por amor. O maior legado de uma vida não se calcula em posses ou monumentos de pedra que o tempo fatalmente transforma em poeira; calcula-se nos sentimentos que você despertou, nas dores que aliviou com a sua escuta e na coragem que inspirou pelo simples facto de estar presente. Seus conselhos tornaram-se a voz interior de alguém em momentos de dúvida; seus gestos de gentileza moldaram discretamente a forma como os seus pares decidiram tratar o mundo.</p>



<p>A sua imortalidade, portanto, é prática e quotidiana. Você permanecerá vivo sempre que alguém repetir um hábito seu, sempre que defender os valores em que você acreditava ou quando o amor que você investiu nos outros continuar a circular, passando de geração em geração como uma energia que não se extingue, apenas se transforma. A teia social que você tocou jamais voltará ao desenho original. A sua biografia com a humanidade está concluída e é perfeita na sua finitude. Descanse na certeza de que você cumpriu o papel mais nobre da experiência humana: o de se tornar inesquecível para alguém.</p>
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		<title>QUANDO EU MORRER (mensagem a um filho)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Aug 2026 12:00:29 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[pai e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[testamento emocional]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A morte não é o fim da linha</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Quando o meu tempo neste mundo cessar e o silêncio finalmente me acolher, não procures a minha presença na ausência do meu corpo. A morte não é o fim da linha, mas o momento em que a jornada de um pai se transforma, por completo, na fundação da vida do filho.</p>



<p>Tudo o que vivemos, cada conversa, cada abraço e até os nossos silêncios partilhados, deixará de pertencer ao tempo e passará a pertencer à eternidade. Eu não serei apenas uma memória no teu passado; serei a voz que guardas na tua consciência, a força invisível que te empurra nos momentos de dúvida e o reflexo que verás no espelho quando os teus próprios traços começarem a envelhecer.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>A física ensina-nos que nada se perde, tudo se transforma. Filosoficamente, o amor de um pai faz o mesmo. A matéria desgasta-se, mas o significado daquilo que construímos juntos permanece intocável. Eu fiz-me raiz para que tu pudesses serárvore. Quando eu já não estiver aqui para te amparar, lembra-te de que as minhas fundações continuam profundas sob os teus pés. Tu és a minha continuidade, o meu pedaço de imortalidade.</p>



<p>Não prendas o teu coração ao luto ou à tristeza estéril. A melhor forma de honrares a minha partida é vivendo com coragem, integridade e paixão. Ama profundamente, aceita as imperfeições da vida e caminha com a cabeça erguida. Quando sentires saudades, olha para as tuas próprias mãos, para as tuas escolhas e para o teu carácter — eu estarei lá.</p>



<p>Eu não te deixo um vazio; deixo-te um legado de amor. Vive por ti, vive por nós e caminha sabendo que o meu amor por ti superou o próprio tempo.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="824" height="552" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/testamento.jpg" alt="" class="wp-image-50695" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/testamento.jpg 824w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/testamento-300x201.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/testamento-768x514.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/testamento-696x466.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 824px) 100vw, 824px" /></figure></div></div></div>
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		<title>O MASSACRE DE GAZA E A FALÊNCIA MORAL DO MUNDO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 23:00:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CRÍTICAS E PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[JUSTIÇA]]></category>
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		<category><![CDATA[Gaza]]></category>
		<category><![CDATA[genocídio do povo palestiniano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não podemos continuar a tratar o sofrimento absoluto de milhões de seres humanos como se fosse apenas mais uma estatística</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Não podemos continuar a olhar para as telas iluminadas dos nossos telemóveis e a tratar o sofrimento absoluto de milhões de seres humanos como se fosse apenas mais uma estatística geopolítica passageira ou um debate académico estéril em salas de conferências climatizadas. O que se vive no terreno é a anatomia detalhada de um abandono sistémico, onde bairros inteiros que outrora pulsavam com o riso de crianças, o comércio vibrante e a rotina pacífica de famílias trabalhadoras foram reduzidos a esqueletos de cinza e a uma poeira sufocante que agora cobre os corpos daqueles que perderam tudo o que dava significado à palavra casa. </p>



<p>Caminhar por aquelas ruas desfeitas é testemunhar o funeral público da empatia humana, onde a sobrevivência diária se transformou numa lotaria macabra e injusta, onde o acesso a um copo de água potável ou a um pedaço de pão básico deixou de ser um direito universal para passar a ser um privilégio inacessível. </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="804" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-crianca-1024x804.png" alt="" class="wp-image-50731" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-crianca-1024x804.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-crianca-300x235.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-crianca-768x603.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-crianca-696x546.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-crianca-1068x838.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-crianca-1320x1036.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-crianca.png 1376w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Esta decadência atroz não é um acidente de percurso ou uma consequência inevitável da história, mas sim o resultado direto das escolhas conscientes feitas por generais, políticos e decisores que, do alto dos seus gabinetes blindados e protegidos pelo cinismo das suas gravatas, optam por perpetuar o ruído das armas em vez de escutar o clamor da decência. Erguemos por isso uma acusação mordaz e implacável contra todos os arquitetos desta barbárie e contra os senhores da guerra que financiam, executam ou legitimam o sacrifício em massa de civis inocentes sob o pretexto de estratégias de segurança nacional ou de xadrez ideológico internacional, porque nenhuma ideologia no mundo tem o direito de se banhar no sangue de uma infância interrompida. </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="767" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato-1024x767.png" alt="" class="wp-image-50733" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato-1024x767.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato-300x225.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato-768x576.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato-696x522.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato-1392x1043.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato-1068x800.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato-265x198.png 265w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato-530x396.png 530w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato-1320x989.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/08/gaza-assassinato.png 1441w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Uma geração inteira de rapazes e raparigas está a crescer em Gaza sem saber o que é um céu pacífico, aprendendo a temer as nuvens porque delas só brota o terror e o estrondo da destruição, carregando no olhar um trauma profundo que nenhuma terapia ou promessa futura conseguirá apagar por completo. </p>



<p>A cumplicidade da comunidade internacional, manifestada através duma paralisia burocrática inaceitável e de discursos vazios que medem as palavras enquanto as bombas destroem hospitais, escolas e redes de saneamento, assina a falência moral das próprias instituições que um dia foram criadas sob o lema solene de nunca mais permitir tais atrocidades. Não há mais espaço para a comoção passiva ou para as lágrimas de conveniência que apenas servem para aliviar a culpa ocidental, pois a dor de Gaza é hoje uma cicatriz aberta na própria face de toda a humanidade e exigir o fim imediato deste bloqueio, o estabelecimento de cessar-fogos permanentes e a entrada livre de ajuda humanitária incondicional não é uma escolha partidária ou uma posição política, mas sim o último reduto de dignidade que nos separa da pura barbárie animal. </p>



<p>Se as leis internacionais que fingimos defender não servem para proteger os mais vulneráveis sob o entulho, então essas leis são apenas papel molhado e o nosso silêncio coletivo transforma-nos a todos em cúmplices silenciosos de um massacre que a história, com toda a sua clareza implacável, nunca ousará perdoar aos cobardes que preferiram desviar o olhar enquanto o futuro de um povo era enterrado vivo sob as pedras da indiferença global.</p>



<p></p>
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		<title>CONVERSAS COM PESSOA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Aug 2026 11:00:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CRÍTICAS E PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[a multiplicidade do indivíduo]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando pessoa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Se não esquecêssemos quem somos, como poderíamos suportar a monotonia de ser apenas uma coisa?</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/08/conversas-com-pessoa/">CONVERSAS COM PESSOA</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Joaquim: </strong>sentou-se à mesa com o peso de quem carrega o mundo nos ombros. Os seus olhos, fixos no horizonte onde o Tejo se confunde com o céu, pareciam ver para além da água. «Sinto-me numa prevista e estranha forma, Fernando», confessou, com a voz embargada pela lucidez. No silêncio daquela tarde, admitiu a sua maior derrota: a mentira que pregava ao estranho que o habitava. Não sentia o que desejava sentir; era, em toda a sua essência, um pecado arrogado perante a própria existência.</p>



<p><strong>Pessoa</strong>:&nbsp;(Ajustando os óculos, com um sorriso pálido) Ah, meu caro Joaquim… mentir ao que se sente é a primeira condição para se ser verdadeiro. O erro não está na mentira, mas na crença de que existe um &#8220;eu&#8221; sólido a quem não se deve mentir. Dizes que és um &#8220;pecado arrogado&#8221;? Eu diria que és apenas uma multiplicidade que se ignora.</p>



<p><strong>Joaquim:</strong>&nbsp;Mas eu dou-me sem sentidos! Reconheço em tudo a consciência de mim, e é nesse reconhecimento em que me perco. Esqueço quem sou… por carácter.</p>



<p><strong>Pessoa:&nbsp;</strong>Precisamente! O carácter é a máscara que nos permite esquecer a vacuidade do rosto. Se não esquecêssemos quem somos, como poderíamos suportar a monotonia de ser apenas uma coisa? A consciência de si é uma lucidez que cega. Tu relanças horizontes numa infinidade profunda porque a tua dúvida desperta sem ser vista. É a dúvida, e não a fé, que move os moinhos da alma.</p>



<p><strong>Joaquim:&nbsp;</strong>Sim, mas eu assevero o idílico servo pela minha própria vontade. Conservo as razões, Fernando, mas recuso-me a ancorar na dúvida. Quero a obstinada certeza, mesmo que seja uma construção do meu desejo.</p>



<p><strong>Pessoa:</strong>&nbsp;(Inclinando-se para a frente, interessado) Queres a certeza? Cuidado. A certeza é um porto, e o porto é o fim da viagem. Tu propões ao medo um segredo — isso é magnífico. Arrancar a alma ao medo é o único modo de viver esse &#8220;curto tempo de saber&#8221;. Mas dizes que ousas gestos tímidos sem que a vontade seja ousada… porquê o medo da ousadia?</p>



<p><strong>Joaquim:</strong>&nbsp;Porque a vontade, quando é demasiado ousada, destrói o mistério. Prefiro o gesto tímido, o &#8220;idílico servo&#8221; que guarda o segredo. Vivo a vontade de saber, mas temo que, ao saber tudo, não reste nada de mim além de &#8220;poucas palavras&#8221;, como escrevi outrora sobre a minha cidade.</p>



<p><strong>Pessoa:</strong>&nbsp;Compreendo-te. O saber é um deserto. Ficamos com o adorno de tudo, mas por baixo do fato desenhado pelo giz do mestre, o que resta é o sol modesto. Não temas as tuas &#8220;poucas palavras&#8221;, Joaquim. O universo inteiro cabe num verso curto, desde que esse verso seja a tua Lisboa, a tua &#8220;estranha forma&#8221;. No final, mudam-se os tempos e as vontades, mas o que definha em nós é o que nos torna eternos.</p>



<p><strong>Joaquim:</strong>&nbsp;Então, basta-me o segredo?</p>



<p><strong>Pessoa:</strong>&nbsp;Basta-te ser. E, se ser for pouco, basta-te fingir que és, até que a consciência de ti se canse e te deixe, finalmente, ser apenas um verso escrito no fumo deste café.</p>
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		<title>PULHÍTICOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jul 2026 23:00:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CRÍTICAS E PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[POLÍTICA]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[descredibilização da política]]></category>
		<category><![CDATA[poesia de Alfredo Quintas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ide-vos foder, então, com a vossa retórica oca</p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/07/pulhiticos/">PULHÍTICOS</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h4 class="wp-block-heading"><strong>PULHÍTICOS</strong></h4>



<p>Ide-vos foder<br>pela vossa ideação que é nada,<br>um vácuo ornado de fausto e de gravata,<br>onde o pensamento morre antes da rima<br>e a ética é uma velha que vos chateia a lata.<br>Por sigma de tudo o que dizeis soberano<br>— esse cálculo frio de quem subtrai o humano —<br>ide-vos foder, sim, mas com decoro,<br>para que o vosso brio não manche o vosso tesouro.</p>



<p>Deixem, porém, o estigma da República intacto,<br>essa ferida aberta que é o nosso único pacto.<br>E de acto instado, sem demora ou prece,<br>ide-vos foder antes que o sol arrefeça.</p>



<p>Acometam minorias com o vosso desprezo eleito,<br>e maiorias com o pão que lhes tirais do peito.<br>Diverti-vos no circo que vós mesmos montais,<br>onde o palhaço é o povo e os donos são os animais.<br>Congeminem leis, parideiras de nenhures,<br>para que a grei se perca em labirintos escuros,<br>entre cortes de verbas e recortes de jornais,<br>onde a verdade é o que menos nos dizeis, ou jamais.</p>



<p>Ó vós, arquitetos do lodo e do engodo,<br>que pensais que o mundo é o vosso prato de lodo!<br>Se a ontologia vos desse um espelho de frente,<br>veríeis apenas o verso de um ente ausente.<br>Filosofais sobre o bem enquanto o mal vos assiste,<br>numa dialética de dar dó, de tão triste.<br>É o ser contra o parecer, o nada contra a massa,<br>e no intervalo do vosso ego, a decência passa.</p>



<p>Fazei das vossas sedes catedrais do vazio,<br>onde a honra naufraga num copo de rio.<br>Mas deixem o estigma da República intacto,<br>não por respeito, que isso é termo abstrato,<br>mas porque até o parasita precisa do hospedeiro,<br>e sem a república, não sois mais que o nevoeiro.</p>



<p>Ide-vos foder, então, com a vossa retórica oca,<br>onde a mentira é a língua que vos move a boca.<br>Mas ide-vos foder com a consciência (se houver)<br>de que a História vos cospe quando vos vê passar, ou sequer.</p>
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		<title>O GUIA DE SOBREVIVÊNCIA URBANA: COMO NÃO SE PASSAR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jul 2026 11:00:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CRÍTICAS E PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[crónicas sarcásticas]]></category>
		<category><![CDATA[idiotas]]></category>
		<category><![CDATA[sátira social]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A estupidez humana é a única energia renovável que o planeta ainda não aprendeu a explorar</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>A estupidez humana é a única energia renovável que o planeta ainda não aprendeu a explorar. Como ela é abundante e gratuita, o melhor que tem a fazer é proteger-se. Siga este protocolo rigoroso:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Olhar de Peixe Morto:</strong> Quando alguém começar a explicar uma teoria da conspiração baseada num vídeo de três segundos, não discuta. Fixe os olhos num ponto invisível atrás da pessoa e acene lentamente. A ausência de atividade cerebral recíproca costuma afugentá-los.</li>



<li><strong>O Truque do Telemóvel Fantasma:</strong> Sinta o seu telemóvel vibrar a cada cinco minutos. Peça desculpa com uma cara de profunda preocupação financeira e afaste-se a dizer: <em>&#8220;Sim, chefe? Outra vez o reator nuclear?&#8221;</em></li>



<li><strong>Fones de Ouvido Gigantes:</strong> Use fones de ouvido que pareçam duas fatias de melancia coladas às orelhas. Mesmo que não esteja a ouvir nada, eles funcionam como um sinal universal de <em>&#8220;Não existo para o mundo&#8221;</em>. Se alguém insistir em falar consigo, aponte para os fones, abane a cabeça com tristeza e continue a andar.</li>



<li><strong>Concordância Absoluta e Absurda:</strong> Se o confrontarem com uma idiotice monumental, não tente educar a pessoa. Diga apenas: <em>&#8220;Tens toda a razão, e acho que o governo devia proibir os pássaros porque são todos drones das secretas.&#8221;</em> O estúpido ficará confuso ou validado, mas a conversa acabará mais depressa.</li>
</ul>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="798" height="607" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/arvore-da-decisao.jpg" alt="" class="wp-image-50539" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/arvore-da-decisao.jpg 798w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/arvore-da-decisao-300x228.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/arvore-da-decisao-768x584.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/07/arvore-da-decisao-696x529.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 798px) 100vw, 798px" /></figure></div></div></div>
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