Um outro mundo, a estepe alentejana…

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Há muito que desejava sentir o ambiente ímpar de que o Eng.º Eugénio Menezes de Sequeira, ex-presidente da Liga da Protecção da Natureza, acaloradamente me falava. Ter conseguido que fosse reconhecida Reserva da Biosfera pela Unesco foi um dos seus bons sonhos concretizados.

E lá fui de abalada até Castro Verde, em cujo território, mais concretamente em Vale Gonçalinho, se situa o Centro de Educação Ambiental, a casa-sede das operações de estudo, preservação e divulgação das características únicas dessa Reserva.

Recordo que, em Maio de 1989, fui em serviço à ilha de Great Abaco, nas Baamas, porque uma ave se refugiara numa gruta, os praticantes de «observação das aves» foram atrás dela, toparam o desenho de um barco com a Cruz de Cristo e a data de 1460 e… lá tivemos de ir desvendar o mistério. Pois também aqui, nesta reserva baixo-alentejana, com uma área de 569,4 km2 e uma população de, apenas, cerca de 7500 habitantes distribuídos por uma vintena de localidades de pequena e muito pequena dimensão, a biodiversidade assume características extraordinárias, a exigir uma visita.

Aqui pode ver-se uma comunidade de aves estruturada e diversificada, da ordem de 200 espécies, próprias – imagine-se! – de uma zona de estepe! A abetarda, a águia-imperial-ibérica, a águia comum, o peneireiro das torres, as cegonhas (agora, de filhotes nos ninhos, de bicos abertos à espera do cibo trazido pelos pais), diversas espécies de milhafres, e uma infinidade de aves pequenas: o roleiro (ou rolieiro) comedor de gafanhotos e centopeias, a calhandra real, a cotovia-montesina, o picanço real, o pintassilgo… Acolá, empoleirado num fio, o rolieiro europeu vigia o ninho que lhe foi preparado no poste próximo; passamos de mansinho e ele por ali se fica, bem quieto.

Foi num domingo, o Centro de Interpretação estava fechado e também só nos cruzámos com duas ou três viaturas – foi preciso ir para a escapatória mais próxima, porque a estreiteza da via só dá passagem a uma de cada vez. E, de quando em quando, o aviso «estrada submersível»: não há pontes e pode o ribeirinho levar água e não ser lá muito aconselhável atravessá-lo a vau com carro baixinho. Um outro mundo!

Na planície a perder de vista, de restolho amarelo, pastam alguns rebanhos de ovelhas. Lá longe, as paredes caiadas de uma dessas povoações pequeninas. É a estepe de Castro Verde em todo o seu inigualável esplendor.

Dizem que foi por ali que el-rei D. Afonso Henriques travou batalha contra a moirama. Pelo menos, em S. Pedro das Cabeças (e as cabeças, reza a tradição, seriam as dos vencidos…), lá está o padrão erguido em 1940 e o memorial datado de 25 de Julho de 1989, 850 anos passados sobre o sangrento prélio fundador. «A bênção como espada / a espada como bênção» – são dois dos versos pessoanos retirados d’A Mensagem, que ali foram gravados. Está a capelinha ao lado, a coroar a colina. Nem com a imaginação mais viva se lograria ouvir algazarra guerreira e metálico brandir de espadas e de sabres. A morna aragem da tarde é só um silêncio bem fundo o que transporta!…

7 COMENTÁRIOS

  1. Boa noite José d’Encarnação, querido Amigo
    Para já dou os parabéns ao Sr. Engº. Eugénio Menezes de Sequeira, por ver reconhecido pela UNESCO esse Centro de Educação Ambiental como Reserva da Biosfera.
    Conheci-o em Cascais, sei como fala com alma quando se trata da Natureza, que tanto ama, e de quase tudo.
    É linda essa planície alentejana, com laivos de Poesia, matizada de flores selvagens. Ar despoluído propício à vocalização das aves, muitas espécies. Lá está, baixa densidade populacional (de humanos predadores) maior diversidade animal.
    Fiquei a pensar que é um destino a visitar lá para as calendas, creio eu…
    Vi os bois, possantes, de fortes hastes…
    Lembrei-me que há muitos anos num local parecido, estava de costas a respirar ar puro sentada numa pedra. Quando me virei para trás, estava um exemplar que devia pesar toneladas a admirar o meu perfil, de narinas alargadas.
    É melhor ter o cuidado que não tive nessa altura e não vestir nada vermelho…
    Bem hajas pelo texto, pela informação.
    Uma noite feliz para todos.
    Um enorme a braço.

  2. De: Ana Clare
    4 de junho de 2024 09:05
    Trabalho de casa feito. Adorei a descrição tão pormenorizada que até confundi o chilrear da minha passarada de quintal com os sons que são sugeridos.
    É assim o nosso Alentejo, cheio de cor, de sons e já agora de sabores e de silêncios que nos ensurdecem.
    Qualidade de vida ainda por aqui vai existindo, apesar dos olivais e das amendoeiras, predadores da terra abençoada que nos foi deixada por nossos avós.
    Bem hajas pelo postal vivo que nos relatas.

  3. De: António Campar
    4 de junho de 2024 17:52
    Belas fotos e texto. A abetarda parece que é a maior ave do nosso território, é um autêntico 747, precisa de pistas longas para levantar voo. Não deve haver linhas elétricas perto senão batem-lhes.

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