Bota-se fogo a tudo e pronto!

Pois é. Uma longa vida a três (dois + uma). Hélène e Paul saíram e organizaram-se. Paul ficou. Quando voltaram, foi o cabo dos trabalhos! Este, em síntese, o enredo da peça Últimos Remorsos antes do Esquecimento, do dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce (1957-1995), cuja última representação ocorreu no domingo, 28 de Abril, no Teatro Municipal Mirita Casimiro. A 179ª produção do Teatro Experimental de Cascais, uma estreia absoluta em Portugal. Tradução de Alexandra Moreira da Silva; dramaturgia de Graça P. Corrêa (como vem sendo habitual); encenação de Elmano Sancho; cenografia e figurinos de Fernando Alvarez (também como de costume).

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Um dos casais teve uma filha e, por isso, há em palco seis personagens, interpretadas por Beatriz Ferreira, Elmano Sancho, Maria João Falcão, Paulo Pinto, Sérgio Silva, Sílvia Filipe. A jovem (Beatriz Ferreira) vê-se envolvida na trama, a necessidade de se vender a moradia onde o trio viveu; mas, de facto, tanto se lhe dá como lhe deu. Por conseguinte, o interesse reside no poder de argumentação, no ressuscitar de emoções antigas, de conversas e sonhos d’outrora.

Confessa o encenador, Elmano Sancho, que na escolha da peça o que o motivou foi o facto de que toda a acção de Lagarce «está na linguagem, sendo através dela que as personagens tentam resolver os seus conflitos». Na verdade, a personagem incarnada por Sérgio Silva tem largos excursos, em que essa preocupação se torna bem visível.

Todos, aliás, incarnam muito bem a personagem que lhes coube. Desse ponto de vista, aplausos! Muitos e prolongados. Contudo, na minha óptica, o aplauso maior deve ser para a extraordinariamente imaginativa encenação, incluindo nesta noção de ‘encenação’ não apenas o modo como as personagens se movimentam (os gestos e as falas), mas sobretudo o ambiente criado. Achei-o magnifico pelo minimalismo escolhido. Um todo desconfortável, as altas colunas despidas e rugosas, quadrangulares, onde as personagens se encostam ou se escondem. Aquele carro charronca velha, amolgado, que a gente pensa sucata e até ainda tem luzes e buzina e os vidros sobem e descem!…

Depois, o primeiro momento, que longamente se mantém, o palco aberto, os espectadores ainda a entrarem.Silêncio mortal, porque a senhora está de luto (veste de preto, tem de estar de luto), porque há decerto cadáver sob o lençol em cima da essa, e distinguem-se suportes das coroas de flores à cabeceira, ao fundo. Velório. Descobre-se, de seguida, que é tudo a fingir, o morto ressuscita e apenas se quis mostrar, porventura, que, para os recém-chegados, ele não existira nesse tempo todo e, afinal, tinham de contar com ele agora.

Para o espectador que não leu o texto original e apenas da dramaturgia – entendendo por esta a forma como o texto escrito se transforma através da representação – certamente o apaixona imaginar como é que se logrou chegar aqui, como é que, por exemplo, se optou por simular o incêndio final mediante inofensivo e subtil riscar de isqueiro. E tudo se esvai num ápice. Casa e personagens dissolvem-se no breu. Acabou.

Genial!

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