As máscaras do nosso contentamento

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Diz-se do estilo românico, em que foram construídos os nossos templos nos séculos XI e XII, que os seus construtores tinham «horror ao vazio», porque procuravam preencher com elementos decorativos tudo quanto era espaço susceptível de receber algo que lhe desse vida. Parece que não gostavam nada de paredes lisas, de capitéis de colunas sem baixo-relevo a condizer.

Não terá sido, no entanto, essa a única época em que tal sedução existiu – que, hoje, parede lisa e sem nada em ambiente urbano é, pela certa, convite irresistível a… delirante pichação!

E se os capitéis das colunas foram, em todo o tempo, alvo aliciante para o canteiro engenhoso, que se dirá das gárgulas dos monumentos antigos? A água acumulada nos telhados carecia de ser escoada por um buraco, mas, para que a descarga não estragasse a parede, urgia que o cano ficasse saliente. Ora, tudo confluía para o cano ser pescoço, a abertura boca e… toca a esculpir a cabeça de um animal ou uma carantonha humana, a rir-se das gentes que lhe passavam por baixo em sério risco corriam de tomarem banho sem querer!… Gárgulas-cabeças, gárgulas-caraças, gárgulas-animais, gárgulas-diabos, gárgulas-palhaços…

Torre de Londres

Estás num dos pátios da vetusta torre de Londres. Olhas para cima e lá estão elas!

Na esquina da esquerda, um monstro em jeito de cão de fila, ameaçadores caninos à mostra, farta juba que o leão lhe emprestou; mete medo!

A meio, porém, uma cabeça coroada, cabelos longos lhe caem de cada lado, o olhar nos longes, a meditar (parece), não mete medo a ninguém e não serviu de gárgula, não.

Já do lado direito, como que pendurado no parapeito da janela gótica, cara de leão feroz, boca escancarada, juba em total desalinho, se quer dizer «vou-te devorar!», não convence mesmo ninguém, está a rir!…

Isto são máscaras ou carrancas urbanas, solenes, impantes. Tem-se-lhes respeito, de vez em quando serão limpas, juba ou cabeleira lavadas… O mesmo se não poderá dizer das carrancas modestas com que já topámos e continuamos a topar, pois mesmo o senhor rural, que pouco tem de seu, acha que pespegar carranca na parede de casa lhe pode acarretar prestígio e, sobretudo, afasta, de certeza, o mau olhado. Por conseguinte, se o construtor lá as pôs, por algum motivo foi, nem que apenas a fim de embelezar a fachada.

Daí até as considerarmos um elemento do património rural construído a preservar vai um passo miudinho e aqui estamos nós, de peito aberto, a garantir: senhores, estas rudes esculturas que não sonham ser mais do que são, assim simplesinhas, precisam mesmo de ficar ali. Vamos mantê-las limpinhas, uma escova macia para lhes retirar o pó dos séculos e que o povo as admire e as crianças lhes dêem os bons-dias!

Expliquemo-nos.

Duas são peanhas de granito (Fig. 5) e a escultura grosseira, a representar um rosto estilizado, exibe-se na face frontal oblíqua da peanha. Não são iguais, mas muito parecidas e terão, decerto, saído da mesma mão de canteiro.

A erosão vai-as desgastando, do narizito já pouco se nota, mas vêem-se bem os olhinhos fundos, redondos, e a boca é um risco em arco numa e um T na outra.

Podemos admirá-las, a meia altura, na parede de uma casa na Rua Francisco Gonçalves Pureza em Cabaços, concelho de Moimenta da Beira.

Ouvimos também o lamento de mais uma peanha mascarada no Beco do Forno, povoação de Paraduça, freguesia de Leomil, do mesmo concelho, também de granito. Poderá servir para base de vaso florido, se lhe quiserem dar serventia, até porque a máscara que, em baixo-relevo, lhe esculpiram faz lembrar, pelo seu nariz afilado, as máscaras dos caretos de Podence, oh! se faz!

E pronto. Lá demos a conhecer mais umas esculturas populares. Pediram-nos elas que as não deixássemos assim incógnitas, meio perdidas e aparentemente sem qualquer préstimo agora. E nós de muito bom grado acedemos ao seu mais do que legítimo pedido. Saúde, amigas!

(artigo em co-autoria com José Carlos Santos)

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