A Assembleia Mundial de Saúde, o extremismo e o bom-senso

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Esta semana vou estar em Genebra para uma manifestação à porta da Organização Mundial de Saúde (OMS), contra o Tratado Pandémico.

Não sou pessoa de manifestações. Nos últimos quatro anos tenho pautado a minha ação pela intervenção nas redes sociais – o que me valeu uma queixa contra mim na Ordem dos Médicos Dentistas,– e por um caminho tortuoso dentro da burocracia da nossa democracia, entre petições e pedidos de reunião com os nossos deputados, procurando obrigá-los a pensar num assunto em que claramente não querem pensar. Move-me a crença que a democracia se faz pela liberdade de expressão e de imprensa, de reunião, de debate de ideias, em defesa dessa pluralidade que moveu os capitães no 25 de abril de 1974. Mas, por alguma razão, a menos que estejamos objetivamente alinhados com o Partido Comunista, esta minha ação é rotulada de extrema-direita. O mais irónico é que dificilmente esta minha defesa da liberdade seria aceite no tempo de salazarismo e eu provavelmente teria isso passar umas férias ao Tarrafal. Hoje é coisa de extremistas, que não fazem mais nada que espalhar desinformação e ódio… Somos o diabo encarnado, o pior pesadelo dos amantes da democracia, estamos a usar “mal” a liberdade de expressão!

Quando há uns meses me perguntavam numa entrevista se existia liberdade de expressão, eu respondi que existe liberdade de expressão, não existe é liberdade de imprensa. Queria dizer com isto que não obstante se tolere que se diga abertamente a nossa opinião, publicá-la nas redes sociais ou num qualquer órgão de comunicação social atingiu o patamar do sacrilégio. Os jornalistas, movidos da arma da defesa de democracia, limam a informação pelo binóculo do seu próprio corporativismo e excluem tudo o que pareça vagamente semelhante aos ditadores que estudaram nos livros de História do secundário (essa disciplina tão amada pelos nossos jovens). Esquecem que quem escreve a História são os vencedores e que nas páginas condensadas dos livros do ensino básico o mais importante são as notas de rodapé.

Uma coisa é o extremismo, que efetivamente existe e sempre existirá, com maior ou menor dimensão consoante o contexto histórico. Outra coisa é o elementar bom senso. Esse parece ter-se perdido.

Lia no outro dia sobre um massacre aos cristãos-novos de 1506, em Lisboa. O rastilho para este ataque de ódio a uma comunidade de judeus obrigada à conversão terá resultado de um episódio climático inusitado numa Igreja. Onde a maioria viu um milagre, um cristão-novo teve a ousadia de salientar que não passava de uma ilusão de ótica. Morreram e foram torturadas milhares de pessoas, num episódio característico do fanatismo religioso da época.

Mas não foram os judeus, afinal, os primeiros negacionistas? Negavam a chegada de Cristo, entenda-se. No entanto, um mero reparo sobre a complexidade de um fenómeno climático resultou num linchamento coletivo.

Vivemos uma época de um estranho fervor político-religioso, onde tanto a Natureza como a Ciência são usadas como arma de justificação para as piores atrocidades. O que eu vejo é sobretudo pessoas comuns à procura de respostas para um mundo que não compreendem, respostas essas que os políticos eleitos não conseguem garantir. Na maioria dos casos, parecem tão confusos como o próprio povo. Nesta confusão, sobressaem as figuras carismáticas, que de alguma forma parecem ter respostas para tudo: a culpa é da corrupção, é das elites, é dos imigrantes, é dos ciganos.

Quem não vai na conversa dos políticos volta-se para os grandes empreendedores, esses magos do futuro no tempo presente, que vão moldar o mundo à sua vontade e livrar o Homem do sofrimento. Aí defende-se o “fake it until you make it” e lá se vai alcançando o progresso, mesmo matando pessoas pelo caminho e o progresso revelar-se pouco mais que consumo material.

“Fake it untill you make it” pode ser traduzido para “fingir até conseguir”

O extremismo é típico das crianças de primeira infância, que quando não têm o que querem rebentam por todos os lados, dão pontapés a torto e a direito e dizem que nunca mais falam connosco. É percetível, o cérebro delas ainda não amadureceu, o cortex pré-frontal, responsável pelo raciocínio crítico, só irá amadurecer pelos 25 anos. A amígdala, a parte inferior do cérebro, domina e tudo é emoção. Por tal, procuram o conforto e a resposta no Papá ou na Mamã, que tudo resolve, nem que para isso tenha que usar o cinto.

Já deveríamos ter passado esta fase… Se há uns anos acusavam as gerações de se portarem como eternos adolescentes, hoje parece que estamos todos reduzidos ao patamar de crianças. Serão os ecrãs, como apregoam alguns pedagogos? Se assim é, o mundo digital prometido pelos promotores do Tratado Pandémico apenas vai intensificar todas estas tendências. E o extremismo só irá aumentar.

Sou e sempre fui defensora do bom senso em todas as causas fraturantes do nosso tempo, seja a pandemia de Covid-19, a teoria/ideologia de género, o dinheiro analógico versus o digital, a igualdade e o mérito, etc.  Tal não significa negar o progresso, mas entender que as pessoas e as suas circunstâncias são diferentes e que soluções universais e unidirecionadas apenas criam novas formas de opressão e totalitarismo.

Não há, por muito que queiramos, soluções mágicas. Qualquer solução aparentemente simples e objetiva traz consequências. Somos todos seres humanos e aceitar a banalidade dessa humanidade é encontrar o caminho para a defesa do planeta e do Homem.

Perguntam-me o que farei depois desta semana e a verdade é que não sei. Irá depender muito do que acontecer até sábado dia 1 de Junho.

Aparentemente as negociações tanto para o Tratado Pandémico como para as propostas de emendas ao RSI falharam mas parece que ainda existe margem para negociações durante a Assembleia Mundial de Saúde pelo que à sempre o risco de uma “votação por consenso”.

A sessão plenária na Assembleia da República onde foi discutida a nossa petição por um Referendo sobre a Adesão de Portugal ao Tratado Pandémico foi simultaneamente esclarecedora e desanimadora.

Os partidos que “tradicionalmente” costumavam gritar nas ruas contra o corporativismo agora aplaudem de pé ou calam-se e navegam numa omissão envergonhada. Outros há que riem do topo de um moralismo oco ou acusam de negacionismo algo que, me pergunto, se sequer compreendem.

Em tempo de pré-eleições europeias discutem-se temas enferrujados, que já nada dizem às pessoas. Debate-se uma mão cheia de coisa nenhuma em que uma “Europa” fictícia é glorificada sem sequer haver  preocupação de tentar perceber se era mesmo esta Europa que as pessoas queriam.

No meio de crises pandémicas, climáticas e humanistas já não há esperança no futuro, só a divisão entre bons e maus.

O debate perde-se assim em um moralismo que, nos nossos dias, é às cores. Mas não se enganem é moralismo na mesma só que com a pequena diferença de que este dá para vender coisas à escala global.

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