A pressa

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A Manuel da Fonseca, o celebrado autor de Planície Heroica, inultrapassável saga das gentes alentejanas, perguntaram, uns meses antes da sua morte, que mais o perturbava no seu quotidiano.

– A pressa – respondeu.

Não percebia porque é que toda a gente andava a correr, os velhos e os novos.

É verdade. As pessoas atropelam-se, parece que o mundo vai acabar daqui a dois minutos e há um objetivo urgente a atingir. Influenciados, porventura, com o facto de, nas corridas, o tempo se contabilizar em centésimas de segundo, somos tentados a correr, em vez de caminhar; a devorar, em vez de bem ensalivar; a passar os olhos pelo livro ou pela revista, em vez de folhear, dando a hipótese de se parar aqui e ali; a deglutir, em vez de saborear…

E se há um provérbio que diz “quem corre por gosto não cansa”, tal não constitui , como poderia pensar-se, incitamento a correr, mas sim a agir por gosto, por ser essa a melhor forma de nos pouparmos. Ao caso em apreço outro adágio se aplica: “Devagar se vai ao longe!”.

Manuel da Fonseca falava do dia a dia, das pessoas a atropelarem-se nos passeios. Hoje, boa parte das nossas caminhadas – quando não em jeito de exercício físico – são a correr para o metro, para o emprego, para ir ao supermercado… Tudo a correr!

Curioso: há milénios que o dia tem 24 horas e ainda não nos habituámos a esse ritmo. É caturrice mesmo! Deve ser isso.

Estou preocupado. Por mim, todos os dias diligencio por ser mais eficiente no bom aproveitamento do tempo; mas, confesso, custa-me receber diariamente mensagens de colegas meus, docentes universitários, que nem sequer têm tempo para reverem o que me enviam. Emprestou Shakespeare a Hamlet a frase para caracterizar uma situação degradada:

“Algo está podre no Reino da Dinamarca”. Estará; o que me interessa, porém, é cá.

Dou três exemplos. Um geral, e dois concretos:

Refere-se o geral ao anúncio de actividades, veiculado através dum cartaz. Geralmente, o meu colega pede a divulgação e anexa o cartaz. Sucede, todavia, só muito raramente sublinho raramente – há o cuidado de pôr a legenda a condizer.

Veja-se a exemplificação de cada um dos dois casos, em que, em vez de esclarecedora legenda, se mantêm inexpressivos dados técnicos.

Recorto a mensagem: “[…] no sentido de se divulgar […] a aula aberta a realizar pelo Doutor […], sob o tema […], que se realizará, […] conforme ao cartaz anexo”. A legenda do cartaz é: Cartaz_page-0001(2).jpg.

Se partir do princípio de que a nota foi enviada a um funcionário, creio que teria sido boa ideia proceder-se a revisão: evitar-se-ia a repetição do verbo realizar; dir-se-ia que a aula versaria sobre [e não sob] determinado tema; não se escreveria “conforme ao cartaz”, mas “conforme o cartaz”…

Com o assunto “Ficheiro Epigráfico 260”, enviei esta informação: “Já está disponível o número 260 de Ficheiro Epigráfico”. Resposta da colega: “Obrigada José y enorabuea [sic] por 259 con los indices!1 [sic] ”.

A outro colega, também docente universitário, dei conta de uma crónica saída no jornal Renascimento, devidamente identificada como tal. Resposta:

“Duplamente grato, porque eu não assino O Renascença. Sou assinante e colaborador do Notícias da Beira”.

Se esta troca de nomes dos jornais se pode levar à conta de ‘malandrice’ do sistema que deve ter achado que “renascença” é que ficava bem – considero que os lapsos destes meus dois colegas se devem exclusivamente à tensão psicológica em que se encontram.

A tal pressa iníqua de que falava Manuel da Fonseca. Mais um vírus a veementemente evitar.

2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente texto e oportuno tema, porque se há milénios “…o dia tem 24 horas…”, há séculos que as pessoas repetem que as 24 horas não chegam!
    Complicados, bem sei, porque se uns dão a volta e se arranjam no espaço de tempo disponível, não têm culpa de os outros ficarem a dormir na forma, mas…
    As vidas não são iguais, como sugerem estes divertidos exemplos, nem a condição de cada um. E por isso conto uma pequena história verídica, segundo quem ma contou, que revela que na pressa excessiva, nunca se dá a devida atenção ao que a merece.
    Certo senhor, a perder a visão de forma galopante, nunca queria ajuda para coisa alguma, ia fazendo pela vida. Mas um dia num semáforo em Lisboa e quase atropelado, não pelos automóveis, mas pela turba desordenada que viu a mudança do sinal, pôs a bengala no ar e gritou:
    “Então, ninguém ajuda o ceguinho”?.
    Uma excelente noite.
    Beijinho e grata pelo texto.

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