O DEBATE E O BATE-BOCA

Sempre fui contra a atribuição de notas ou avaliações aos candidatos, partindo eu do pressuposto que ainda há uma base ideológica forte no eleitorado que vota, nomeadamente os mais velhos. Os que têm memoria dos factos. Depois também não estou certo de que um conjunto de intenções, maioria das vezes sem sustentabilidade financeira plausível, possa validar um voto, mesmo até o dos indecisos. Quando os dois afirmam que “vamos recuperar o tempo de serviço dos professores”, estamos a falar do quê?  Com base em que números, ao longo de quatro ou cinco anos? Quando se diz que vamos recrutar médicos, eles virão de que sector?

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Há dois anos, segundo a opinião de alguns dos analistas da nossa praça, grande parte deles conotados com a direita, António Costa perdeu vários debates com Rui Rio e Cotrim de Figueiredo, e acabou por conquistar uma maioria absoluta. O que eu digo é que as notas dadas pelos comentadores não passam de um jogo de sombras com o único fim de manipularem o eleitorado.

Pedro Nuno Santos vinha de há uns tempos a esta parte a ser criticado, por alguma comunicação social, de não ter estado particularmente bem nos debates com Rui Rocha e com André Ventura. Tudo isto tendo como ponto de partida, não a realidade visível e audível dos debates, apenas e só com base numa vitória eleitoral nos Açores da AD, e uma sondagem da Universidade Católica a dar ligeira vantagem à coligação de direita. Ontem contrariada por outra da Aximage, para o JN, DN e TSF, em que continua a dar a vitória ao PS.

No debate de segunda-feira assistimos a um Pedro Nuno Santos ao ataque. Com uma primeira parte desconcertante, destrunfando todos os argumentos do PSD, em especial nos assuntos económicos, onde de forma clara Luís Montenegro não pesca nada.  Atribuiu os louros das suas propostas a um conjunto de economistas reputados. Quais? Os que têm a mesma agenda dele? Ou aqueles que contribuíram com a sua sapiência para a falência dos nossos bancos nos anos 2008 a 2014? Quem sabe aquelas privatizações ruinosas da PT, CTT e ANA?

O desconforto do líder do PSD era tal, que na segunda fase do debate passou a vida a interromper o líder do PS, tendo até por via disso cerca de um minuto a mais no confronto verbal entre ambos.

Há uma parte do debate em que Pedro Nuno Santos é confrontado com os resultados das avaliações na escola pública e, aí sim, percebe-se que não está contente com o desempenho deste pilar do Estado Social. Mas até na introdução do tema da avaliação da escolaridade entre o público e o privado, onde Montenegro afirma que 25% da escolaridade básica já é no ensino não estatal, Pedro Nuno Santos desconstrói essa narrativa com a introdução de ensino profissional nos números por ele apresentados, afirmando que 10% desses alunos são dessa via de ensino, e só 15% são do ensino não profissional.

No final do debate fui ver, ouvir e ler alguns dos comentários dos analistas recrutados pelos jornais e televisões, a maioria deles alinhados com as posições ideológicas da AD. Deu-me algum gozo assistir ao enorme exercício de hipocrisia, de certos comentadores, alguns dão um empate entre os dois, como por exemplo, Maria João Avilez, ou até Manuel Carvalho, ex director do Público, e ao enorme contorcionismo que uma boa parte dos outros teve de fazer, para darem a vitória no debate a Pedro Nuno Santos. Eu sei que foi um sapo difícil de engolir. Mas lá fizeram um esforço.

Sempre achei estas avaliações uma manipulação grosseira. Eu diria até falta de ética profissional. Acho que o eleitor deve fazer as escolhas com base na sua perceção da realidade ou dos factos, e não conduzido por alguém que se pressupõe dono da verdade.

O pior que poderia ter acontecido a esta gente que já entroniza Luís Montenegro como primeiro-ministro, aliás está a ser levado ao colo por alguma comunicação social, foi o facto de ele ter tido uma má prestação no debate, em face das expectativas criadas.

A minha dúvida é se estes confrontos verbais servem para alguma coisa, mesmo para os indecisos, sujeitos muito mais à pressão familiar e profissional, do que à narrativa dos políticos. Aquilo não passa de um manual de boas intenções, cuja realidade os levará a contrariar muito do que disseram.

Dia 10 de Março logo se verá. O país vai viver tempos conturbados, ganhe lá quem ganhar.

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