Cala a boca, seu camelo!

«Seu camelo!», sem ofensa para o pacato quadrúpede mas com ofensa para o visado com o impropério foi uma das palavras mais fortes e hilariantes deste «Pátio do Zambujeiro»!

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Com texto e encenação de Ana Paula Reis, o elenco de actores do Grupo Desportivo do Zambujeiro leva à cena «Pátio do Zambujeiro», uma paródia do célebre «Pátio das Cantigas», o filme realizado por Francisco Ribeiro em 1942. Também aqui foi pretexto para «pátio», lugar onde os vizinhos se reúnem para, frequentemente, falarem da vida alheia; e para «cantigas», porque importa convidar o espectador a bater ritmadas palmas e, até, a atrever-se a cantar estribilhos bem conhecidos.

Por conseguinte, temos logo à partida a imitação do reboludo Vasco Santana, agora já não de cigarrito na mão mas com bem vistoso havanês, perdido de bêbado, a pedir lume ao candeeiro. Teremos, a dado momento, «Ó Evaristo, tens cá disto!», bom pretexto para o furioso merceeiro mimosear a assistência com uma mancheia de garrafitas de plástico. Bem e vamos por aí adiante, não faltando o casalinho jovem que até gostava de namorar mais recatadamente, o preço a que está tudo, a corrupção galopante, os piscares d’olhos furtivos…

É o Zambujeiro uma pacata aldeia da freguesia de Alcabideche, no concelho de Cascais, ali quase nas faldas da Serra de Sintra. Para além das actividades desportivas, mantém a colectividade esta chama de, pelo menos uma vez por ano, apresentar um espectáculo qual revista à portuguesa. Pretexto para fomentar comunidade, para os actores perderem acanhamentos, bem treinarem a sua memória e mostrarem quão agradavelmente se pode passar uma hora divertida.

Hugo Sobral, o presidente da direcção da colectividade, assim o tem conseguido e Ana Paula Reis, no final do espectáculo, além do agradecimento aos actores («todos eles trabalham e os ensaios são roubo ao merecido descanso pós-laboral»…), manifestou o seu contentamento por, desta sorte, algo de novo se concretizar na pacatez quotidiana pautada pelo binómio casa – trabalho.

Se o avião levantou a horas e aterrou dentro do horário e nem turbulência se sentiu e nem um passageiro gordo tropeçou nas escadas, a viagem nada tem para contar. Assim é na vida, onde mais nos recordamos dos momentos em que algo não correu como previsto e tudo se logrou resolver com uma boa gargalhada. Assim neste Pátio do Zambujeiro, onde as imprevistas peripécias acabam, sem querer, por assumir papel maior e onde o que mais sorrisos desperta é o grito do homem grande «Seu camelo!», quando alguém faz disparate e se arrisca a apanhar uma lambada.

Comédia é comédia; revista à portuguesa é assim, entretecida de quadros, em que instantâneos da vida quotidiana, cantares e até poesia se ajuntam para compor uma hora de entretenimento.

Pouco a pouco, os jovens se irão integrando no grupo, perdendo o natural acanhamento; aprender-se-á a modelar a voz; ter-se-á consciência de que também o silêncio programado sabe falar; estar-se-á mais atento aos casos ridículos da vida local e, de modo especial, aos magníficos instantâneos com que os políticos com tanto afã nos mimoseiam… E com tudo isso se confecionam quadros, cuja finalidade – já os Antigos o proclamavam! – é ‘castigar os costumes», a rir!

A iniciativa teve apoio oficial da Câmara Municipal de Cascais e da Junta de Freguesia de Alcabideche. Contou também com a comparticipação de algumas entidades, nomeadamente locais, como Vila Galé, Solóptica e Farmácia Luz. Não deixa de ser bom referir esta colaboração, pelo significado de que se reveste a consciencialização manifesta de que, para fomentar realizações culturais, todos hão de dar as mãos – e, acredite-se ou não, os benefícios colhidos acabam sempre por ser maiores do que os esperados.

Estreado no dia 20 de Janeiro, o espectáculo teve uma 2ª apresentação a 3 de Fevereiro, estando previstas novas sessões a 24 de Fevereiro, a 2 e a 23 de Março.

2 COMENTÁRIOS

  1. “Pacato quadrúpede”…é como quem diz. Eu já tive um camelo apaixonado por mim numa viagem muito agitada. E era um grande camelo!
    Mas deixemos esse departamento, porque aqui o camelo, salvo seja, deve ter sido motivo de chacota do PÁTIO DO ZAMBUJEIRO.
    Valorizo muito, com inexcedível admiração, todos os que animam estas colectividades (encenadores e actores, que oferecem os seus tempos livres) só para terem o prémio das palmas e da boa disposição de que andamos todos tão carentes!
    Que importa que alguém se engasgue, que haja improviso, que a risota venha coroar o que se julgava correr menos bem e acabe por ser uma variante de inesperado sucesso? A escrita inteligente também não pretende “ajudar” e deixa-nos em palpos de aranha e vergonhas injustificáveis?
    Os meus parabéns a todos e muito grata, José d’ Encarnação, por mais esta dica das próximas sessões.

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