Os predadores na investigação científica

O destaque em 21 de Janeiro do jornal Público, trata da investigação científica (em Portugal e no estrangeiro) e põe o dedo numa ferida e em sangue, aberta – importa, desde já, dizê-lo com todas as letras – pelos organismos do Estado que tutelam a investigação científica.

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Diz o título do artigo de Tiago Ramalho: «Pagar para publicar: ciência em Portugal cada vez mais refém de revistas predadoras»; subtítulo elucidativo também: «As taxas de publicação de artigos estarão a retirar pelo menos oito milhões de euros da ciência portuguesa. Ciência aberta é opção advogada pelos cientistas.

A meu ver – e perdoem-me se me considero de pleno direito no rol dos cientistas – a raiz de todo esse escândalo reside na palavra ‘submissão’, que corresponde, na prática, a uma palavra mais forte e que, apesar de não se crer, bem real: ESCRAVATURA! Assim, em letras garrafais. De resto, a palavra entrou de tal modo no cotio que já se não estranha que, em vez de se apresentar uma «proposta» de publicação, sejamos de imediato enviados para uma página que tem por título SUBMISSÃO! Aí, camarada, vamos ao jugo!

recorte do jornal Público do dia 21 de janeiro de 2024

Não há muito tempo, as instituições editavam revistas onde os seus membros e outros publicavam o resultado das suas investigações em curso ou em vias de conclusão. O artigo era apresentado à direcção da revista, que o lia, ajuizava do seu interesse e, embora pudesse num ou noutro ponto discordar das conclusões a que se havia chegado, sempre que o texto apresentasse lógica expositiva e obedecesse minimamente às regras da publicação, publicava-se. Se alguma dúvida subsistisse, havia sempre duas ou três pessoas do seu conselho de redacção a serem consultadas para dar parecer. Caso houvesse depois quem tivesse ideias diferentes, também elas devidamente alicerçadas em argumentos, a porta estava aberta para publicação.

Hoje, não. A direcção ou o conselho editorial não mandam! Quem manda são os referees, palavra estrangeira que designa uns senhores muito importantes, supostamente especialistas na matéria em questão. O artigo é-lhes enviado e os senhores dizem da sua justiça: publica-se, remodela-se, rejeita-se liminarmente. E o director vê-se de pernas cortadas e, amiúde, nem ousa contrapor, «se eles é que são os especialistas!…».

Mais: criou-se internacionalmente um rol de instituições de sábios  e, menino, se a tua revista não logrou aceitar ser admitida nesse rol, esquece, artigo nela publicada vale… zero!

Criaram-se, pois, critérios de avaliação artificiais, – os tais predadores! – que foram impostos às comissões de avaliação. E chegamos ao ponto de um livro inovador publicado por um catedrático não ter cotação, enquanto o artigo feito por quem soube manusear bem os dados colhidos aqui e além na Internet, tira um parágrafo deste, outro daquele, tenta coser tudo mais ou menos, esse artigo, com muitas citações e, sobretudo, se for redigido em inglês (não interessa se mal ou bem), vale muito mais, na opinião dos avaliadores, boa parte estrangeiros (tem que ser!) que mal arranham (no nosso caso) a língua de Camões. Alias, nem Camões eles sabem quem foi!…

recorte do jornal Público do dia 21 de janeiro de 2024

Tive como Mestre o Doutor D. Fernando de Almeida, catedrático de Arqueologia só depois de se ter formado em Medicina (Obstetrícia e Ginecologia) e de ter estagiado com o primeiro Nobel português, Egas Moniz. E ele dizia-nos:

– Sabem quantas páginas tem o artigo que mais célebre me tornou enquanto estagiário de Egas Moniz? Cinco, meninos! Apenas cinco! Dava ali a conhecer o resultado inédito de uma das experiência que então leváramos a efeito!

Fez bem o jornal Público em ter aceitado a chamada de atenção de Tiago Ramalho e a entrevista que ele deu a Eloy Rodrigues. Primeiro, porque ele tocou bem a tecla: o dinheiro! O quanto se esvai do bolso de cada um, quando poderia ser mais bem empregado em apoiar a investigação em si. «É a Economia, estúpido!», soube acentuar o diretor de campanha de Bill Clinton nas eleições de 1992. Pois é, senhores, a economia, o dinheirinho que, assim, se vai sub-repticiamente esgueirando para os bolsos de… sabe-se lá quem!

Somos, de resto, constantemente ‘assaltados’ por esses predadores. Hoje mesmo, às 14.33 h, recebi uma mensagem do Science Publishing Group, que começava assim:

«Since your previous publісatіon “Entrevista com José d’Encarnação […] “ has been widely recognized, we’re pleased to invite you to contribute research works in your specialized/interested fields. If you are interested in рaреr ѕuЬmiѕѕion, please ϲlіϲk».

E vinha o atalho que me levaria a saber condições da republicação do que eu já divulgara, porque assim teria maior divulgação, etc. etc.

Em conclusão: caso a Junta Nacional de Investigação Científica não mude os seus paradigmas e não se rebele contra essas normas estrangeiras, vamos continuar assim, escravos, a perder dinheiro e a não contribuir eficazmente para o progresso da Ciência.

E o pior de tudo está bem à vista e, daí, a grande oportunidade do artigo: é que já começou a campanha eleitoral para o 10 de Março e quem é que já ouviu falar um candidato em novas regras para o incremento da investigação científica?

Tempo é de acordar, cientistas!

17 COMENTÁRIOS

  1. De: Alexandre Sarrazola
    Enviada: 22 de janeiro de 2024 00:56

    O captain my captain!!!!

    Estamos juntos!!!!
    Há um ano que me apetece puxar da pistola (que não tenho) cada vez que ouço falar nestes predadores.
    Andam a deitar gasolina sobre o pensamento livre e o fósforo abeira-se do anfiteatro.
    Mas creio naõ estarmos sozinhos. Chamam-nos é homens do século XIX ( uma honra na verdade).
    Mas como dizia o Bogart temos sempre Paris (neste caso eponímico intelectual locus de Liberdade)
    Grande abraço e uma blague para a victória (já que a ignorância é mãe de todas as guerras – como esta)

    Alex

  2. De: jpsc
    Enviada: 22 de janeiro de 2024 09:44

    está perdoadissimo…
    E tem toda a razão. O dinheiro, a economia liberal, o capitalismo brutal e estúpido, estão a destruir tudo: O(s) património(s) em geral, e em particular o artesanato, os pequenos negócios, as pequenas fabriquetas de coisas úteis, o pequeno comércio, a ruralidade, as técnicas de construção, e todos os restos dessas memórias e conhecimento em particular os restos do mundo rural como muros, noras, poços, pontes, moinhos, oficinas locais dos mais variados ofícios, linhas de água, etc e etc, ou seja TUDO. Ou destruídos ou transformados em hotéis e lojas chiques para vender produtos e ofertas iguais em todo o mundo.
    Claro que a produção científica também tem de estar controlada para servir os interesses de quem manda em tudo e de quem tira lucro de tudo. E a política está, obviamente, ao serviço desta “modernidade” e deste “desenvolvimento”, porque é financiada pelas mesmas pessoas que são os últimos e únicos beneficiários do trabalho dos que (ainda) trabalham.
    JC

  3. Luís Raposo
    22 de janeiro de 2024 10:56
    Boa! Excelente. Já partilhei no meu Facebook.
    Gostei de tudo e em especial dessa estória do artigo de páginas do D. Fernando.
    Que nunca as mãos (e a caneta ou o teclado) te doam de escreveres tais prosas.

  4. Pires Laranjeira
    22 de janeiro de 2024 11:34
    Caro amigo José! Muito obrigado, tudo certo e de acordo.
    Só não entendi um pormenor: ou te enganaste ou foi a gozar. A Junta Nacional de Investigação Científica já acabou há muito tempo!
    Abração.

  5. vasco gil mantas
    22 de janeiro de 2024 12:37

    Caras e caros colegas (pela ordem que deve ser respeitada)
    Absolutamente de acordo, mas a culpa é nossa. Aceitamos, sem grande discussão, os “excelentes modelos” de uma sociedade (ou grupo dominante dessa sociedade) que “inventou”, entre outras coisas “O Fim da História”, com este belo modelo neoliberal implantado em todo o mundo. Até quando? Ao menos os escravos eram alimentados, agora alimentam os que fazem o favor de aceitar publicações que os autores pagam.
    Quousque tandem?!!!

  6. Chega-me de Roma, da parte de António Mendes, secretário de redacção da revista «Antiquités Africaines» o seguinte comentário, que agradeço:
    «Je me rends compte que la France est tout de même beaucoup plus avancée actuellement sur ces questions de pratiques prédatrices.
    La société mentionnée par José est connue pour ces mauvaises pratiques. Il aurait dû chercher un peu, elle a même une page Wikipédia qui le dit : https://fr.wikipedia.org/wiki/Science_Publishing_Group
    Il faut continuer à faire beaucoup de sensibilisation auprès des chercheurs au niveau européen».

  7. joao.g.monteiro
    Enviada: 23 de janeiro de 2024 18:32
    Completamente de acordo, caro amigo. A situação é de fugir. Presta-se a abusos de toda a ordem. As bibliometrias e a contagem de citações, tantas vezes artificiais, estão a devorar a produção científica.
    Abraço grato e solidário,
    João.

  8. De um docente, que, por razões óbvias, preferiu o anonimato:

    «Quem controla tudo cá em Portugal é a FCT (falas ainda de JNICT no teu artigo…) que, por sua vez, alinha completamente com as regras internacionais. É claro que esta é uma das formas de submissão (como acentuas) a que estamos sujeitos, e com a qual tenho a certeza de que toda a gente mais nova no ativo alinha, como tenho observado. Porque publicarem nessas revistas é a única forma de se promoverem ou, até, de não serem excluídos. Cria-se assim uma bolha de exclusão a vários níveis. O mais absurdo é que por vezes convidamos pessoas ultra-conhecidas e ultra-reputadas para falar num colóquio, por exemplo, e, se fôssemos seguir à letra a revisão por pares, até esses artigos que depois as referidas pessoas nos enviariam teriam de ser submetidos à revisão por pares (a tal peer review, porque hoje o inglês domina como o latim nos tempos que estudas). Tudo isso faz perder imenso tempo e permite a certos “pares” ficarem a par da investigação e do pensamento de outrem antes da publicação pelo autor ou autores. Ou seja, é um sistema de poder. Isto dava para longa conversa… Mas é isso, é uma das injustiças a que se liga o momento histórico que atravessamos. Há muita gente que se pôs a publicar, o que é bom, mas quem publica tem de obedecer a certas regras e ao mesmo tempo assim supostamente quem edita protege-se contra eventuais plágios (mas para isso há programas já…) ou outras formas de menor honestidade.
    Estamos condenados a isto. Todavia, a revisão por pares pode ser não cega, isto é, o autor que propõe o texto pode conhecer quem são os seus revisores, e estes quem é o autor/a. O que é mais transparente. Aliás, mesmo na revisão cega com facilidade se percebe quem é o autor do texto submetido…Isto é sistema como sabemos antigo no mundo anglo-saxónico, donde tudo é importado agora (somos todos americanos, dizia o Eduardo Lourenço, se bem me lembro), onde até nos prefácios dos seus livros certos autores (normalmente mais novos…) agradecem aos anónimos que os reviram…

  9. De: António Campar
    Enviada: 22 de janeiro de 2024 19:25
    Caro José
    E eu diria mais, que a culpa também é das nossas universidades quando para avaliar candidatos a um lugar na universidade ou a progredir, assim como na avaliação dos próprios centros de investigação (aqui pela FCT) o que conta mais são os artigos SCOPUS, ou seja publicados em revistas com fator de impacto internacional. Todas em inglês, claro, mas sediadas em diversos países e que recebem balúrdios pela publicação de cada artigo. Recebem dos artigos, mas não pagam aos revisores.
    Eu deixei de rever artigos para essas revistas, é um escândalo e uma submissão bacoca.

  10. Um colega francês a quem retorqui que eu tinha a sensção, neste caso, de ser um D. Quixote a lutar contra moinhos de vento, respondeu-me: «S’il n’y a plus que deux Don Quichotte, je suis à tes côtés…».
    «E acrescentou:
    Plus sérieusement, le système de la liberté de publication est en contradiction avec lui-même lorsqu’il se pare des pratiques internationales … Ce n’est plus Don Quichotte.
    Il serait utile de revoir des pratiques qui ont évolué sans contrôle sérieux de la communauté scientifique … Nous avons un grand avenir comme DQ [Don Quichotte]…

  11. De: Manuel Martin Bueno
    Enviada: 26 de janeiro de 2024 10:55
    Querido amigo y colega José:
    Tienes toda la razón, el panorama es escandaloso y está corrompido en una proporción muy alta.
    Así no progresa ni la ciencia, ni la sociedad ni nada. El mundo dirigido en gran parte por mediocres se encamina a una mediocridad manifiestamente generalizada.
    Prof. Manuel Martin-Bueno
    Felizmente jubilado, pero no anulado en mi forma de pensar y opinar, es decir LIBRE.

  12. De: José Azevedo Silva
    31 de janeiro de 2024 10:29
    Absolutamente de acordo.
    Os Diretores de Revistas e de Editoras e os Conselhos de Redação passaram a ser simples gestores, meros funcionários administrativos. E os Professores Universitários ou Escritores de renome uns irresponsáveis.

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