A PORTA MÁGICA

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É uma porta única, singular, preserva o interior de uma casa de pau a pique na tabanca (aldeia) de Eticoga, na ilha de Orango, no arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau.

tabanka de Eticoga, ilha de Orango, Bijagós, Guiné-Bissau

É a porta da casa onde viveu Okinca Pampa, a Rainha dos Bijagós. Ali viveu e ali continuam, ainda hoje, os seus restos mortais. A Rainha Pampa não está só. Na casa estão também os restos mortais dos 7 Régulos que lhe seguiram, o que faz deste local uma espécie de Panteão desta linhagem.

Okinca, Rainha sacerdotisa, morreu em 1930 com mais de 100 anos. Foi uma grande Rainha e construtora de paz. A História conta-nos que não só resistiu às “campanhas de pacificação” coloniais, como negociou a paz com os portugueses para que estes não fizessem mais guerra no arquipélago dos Bijagós. Okinca preservou o seu povo, lutou contra a escravidão, por isso continua hoje a ser adorada como divindade.

Esta porta é uma réplica fiel da original. A porta original permanece no interior da casa. Foi construída em 1937, após a morte de Okinca, mas está em mau estado de conservação. Está exposta a quem queira visitar o local, mas não pode ser fotografada. A nova porta foi feita em 2016.

A porta tem três almofadas. A imagem da almofada superior representa o gado e os pastores, indicando que na altura havia muito mais gado e pastores que hoje. A imagem central é da Baloba (casa sagrada e centro ritual) a que a Rainha pertencia.

os 3 painéis da porta de Okinca

A imagem inferior, para alem da atividade piscatória, mostra os animais selvagens mais importantes da ilha de Orango, a gazela e os hipopótamos.

É um local mágico, a porta tem um efeito hipnotizante. Quando aqui cheguei, ainda não sabia nada sobre a casa e a Rainha Okinca, mas não conseguia deixar de olhar para a porta.

a porta da casa da Rainha Okinca Pampa

Nota da redação: No dia 14 de outubro 2023, foram apresentados, na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, o romance “Okinca” e o livro infantojuvenil “A Princesa dos Bijagós”, ambos da autoria de Alexandre Aguiar Faria. No centro das duas obras está a personagem Okinca Pampa, a Rainha dos Bijagós, que reinou no arquipélago entre 1910 e 1930. De acordo com o escritor, durante este período, Okinca Pampa eliminou a escravatura, afirmou-se pela defesa dos direitos das mulheres e da proteção do ambiente e assinou um tratado de paz com o regime português, defendendo o seu povo e território.

1 COMENTÁRIO

  1. Recebi a informação deste evento (o lançamento dos livros) na Casa das Histórias Paula Rego, através do nosso distinto Amigo José d´Encarnação, sempre com informação privilegiada sobre o que se passa em Cascais a nível cultural.
    As razões para não ter aparecido, sendo fortes pouco importam agora. Importante é que o romance ainda estará disponível, porque sempre quis conhecer a grandeza de Okinca Pampa e este texto reavivou essa minha vontade. A revelação desta porta dá vontade de conhecê-la, a ela e ao mundo que representa.
    Fazer frente a um “Império”, com um exemplo de vida e de governo que eram o oposto da opressão corrupta, era um feito admirável. Como eram eliminar a escravatura, pugnar pelos direitos das mulheres e preservar o equilíbrio do ambiente, causas que os lideres mundiais vêm atirando para o lugar menos importante das prioridades.
    E o mundo é bem o exemplo dos erros que cometem.

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