“A minha cabeça é um troféu que a morte quer”

No final do recente programa Globos de Ouro, evocaram-se personalidades que nos deixaram no decorrer deste ano e foi para mim um choque ver entre elas a figura de Joaquim Pessoa.

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Não tenho ideia nenhuma por que razão me não apercebi do seu falecimento e pesa-me não ter prestado, na devida altura, a necessária homenagem ao Amigo e ao Poeta, a quem devemos, como, na ocasião, foi devidamente salientado, poemas eternos como «Lisboa, menina e moça» e «Amélia dos olhos doces».

Por várias vezes tive ensejo de ir a casa de Joaquim Pessoa, em Porto Salvo, quando se pensou ser obrigatório dar a conhecer a grande colecção de antiguidades que fora ajuntando ao longo da vida. Na convicção de que a maior parte delas eram autênticas – e, se não autênticas, da época a que poderiam remontar, eram, sem dúvida, autênticas obras de arte – comprara-as, evitando assim que fossem para o estrangeiro, donde amiúde lhe vinham, aliás, chorudas propostas de aquisição.

Sublinhou-me insistentemente este aspecto e, por isso, arrisquei a propor que publicamente se expusessem, a fim de provocar a discussão aberta, pesarem-se prós e contras (como sói dizer-se) e, se possível, de uma vez por todas, a comunidade científica (arqueológica) pudesse dizer de sua justiça.

E quando lhe perguntei, em Abril de 2021, por que razão essa exposição seria importante, não hesitou:

«Penso aquilo que a minha mulher, detentora actual deste núcleo igualmente pensa: é uma forma de dar a possibilidade justa de cumprir um desígnio, mostrando pela primeira vez algo que o público de outra não teria possibilidade de conhecer. É tornar dos outros o que até aqui foi apenas nosso. E também uma homenagem merecida aos artesãos nossos antepassados que nestes objectos deixaram, para além da canseira, o seu tempo, o seu talento, a sua criatividade e uma deliciosa transposição do passado para o futuro».

O intento gorou-se, por duas dificuldades: questões de segurança e elevado custo do seguro. Tive pena e ficou aprazado que voltaríamos a tomar um café, ou dois, ou três, até que houvesse luz ao fundo do túnel. Fomos adiando, ora por um motivo, ora por outro, e Joaquim Pessoa partiu, decerto pesaroso por se não ter logrado um dos seus desideratos. Peço-lhe desculpa por não ter sido mais diligente. Recordo, que nesse Abril, lhe perguntei ainda:

Como gostaria de ser recordado pelos vindouros?

– Caríssimo Professor, os vindouros não me conhecerão nunca, apenas conhecerão a minha obra, que é tudo o que pude e soube dar aos outros. Essa obra é deles. Julguem-na, e estarão a julgar-me, porque a minha obra sou eu e, se alguma diferença houver para melhor, ela será sempre a favor da Obra, não do Homem.

Folheio de novo Ano Comum, de 2011, o exemplar que tenho com mui fraterna dedicatória.

«Dia 176: No altíssimo de ti, serás humilde. Porque não há na vida muitas coisas justas».

«Dia 220. A minha cabeça é um troféu que a morte quer. […] Um dia alguma coisa falhará e o encontro de frente será inevitável. Espero estar a adormecer ou a beber cerveja, ou mesmo a ver atentamente um daqueles programas repletos de dunas e de árvores muito brancas, filhas de uma floresta de dias esquecidos, os mesmos que se vão acumulando nas ruínas do tempo».

Agarrei neste dois dias aleatoriamente. E assustou-me a vontade de voltar a reflectir sobre cada um dos 365. E acabei por fixar-me no poema final, do Dia 365:

«Termina o ano comum.
Termina o ano como
um outro qualquer. Amei
cada um dos dias que
gastei. E gostei de os
gastar. De os gostar.
E degustei as horas, as
semanas, os meses»

E, por ora, fiquei por aqui – pela vontade, também, de continuar a degustar as horas, as semanas, os meses… Como se devem degustar. Como é imprescindível degustar.

Bem hajas, Joaquim. Descansa em paz!

2 COMENTÁRIOS

  1. Foi muito discreta a partida (precoce, digo eu) de Joaquim Pessoa, o POETA que muitos de nós admirávamos desde a adolescência.
    E foi através de um texto teu, que eu vim a saber de Joaquim Pessoa coleccionador. Um homem tem sempre muitas dimensões, mesmo que devotado às letras.
    A exposição não se efectuou por motivos “justificados”. E teria sido importante para ele, ainda que a quisesse por razões altruístas. E neste particular, juntando este dado à morte, incomoda-me sempre que haja pessoas que tudo conseguem de mão beijada, e outras tão talentosas e bem intencionadas que partem desiludidas.
    Fico a pensar: ser correcto e bom, será uma forma errada de actuar neste mundo de corrida à fama?
    Ainda bem que ele degustou as horas dos dias que viveu. Quem admira a parte pública daquilo que criou, o trabalho literário, também degusta o eco desses momentos e lembrá-lo-á sempre com afectuosa admiração.-
    Bem hajas por este texto e pelos outros que não tenho conseguido acompanhar, mas vou…

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