VIVER NO CAMPO

Não é atitude fora do comum, a de se retirar para o campo.

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Os poetas latinos do tempo do imperador Augusto, no século I da nossa era, proclamavam que, após desempenho de funções em ambiente urbano, era apetecível recolher-se ao ambiente rural, onde se poderia usufruir duma aurea mediocritas – expressão colhida no livro Odes (II, 10, 5) de Ovídio –  isto é, um mui agradável saborear da vida!

Por isso, cansados de conflitos, os senhores romanos largaram também as cidades e ergueram villae sumptuosas no campo, bem atapetadas de mosaicos com figurações alusivas ao glorioso passado da Urbe, Roma. Villae que, ao serem descobertas, fazem as delícias dos arqueólogos e, preservadas, constituem locais de bem sugestiva visita.

O mesmo aconteceu com os nobres do nosso século XVII: saíram das cidades, que o domínio filipino lhes não dava, afinal, as regalias que Filipe II houvera prometido. Daí que Francisco Rodrigues Lobo tenha publicado, em 1619, A Corte na Aldeia e daí a necessidade de os revoltosos do 1º de Dezembro terem sido obrigados a ir buscar D. João, Duque de Bragança, ao seu palácio de Vila Viçosa, para o aclamarem rei, em Lisboa.

Estátua equestre de Dom João IV, em Vila Viçosa

Durante a chamada «vida activa», os projectos são, amiúde, mormente a partir de certa altura, relegados para ‘quando me reformar’, partindo-se do princípio que, então, sem as peias dos horários, das reuniões, dos compromissos, ‘eles’, os outros, vão deixar-nos sossegados, esquecidos e poderemos reger nossos dias a nosso bel-prazer. Sabemos, no entanto, que essa utopia, pelos mais diversos motivos – que o não menos o do estado de saúde –, não é de fácil concretização.

Quem teve uma existência variada, plena de experiências diversificadas, raramente deixa de ceder à tentação de escrever as suas memórias («ai, que a minha vida dava um filme!…»). Político na reserva que não escreva memórias nem é político que se preze, sobretudo se, aqui e ali, contar aquela história picante que põe em cheque o adversário ou o inimigo… Memórias a apresentar com pompa e circunstância, rodeado dos seus ‘amigos’ e muitos comentadores para ajudarem a vender o produto, quando logram captar a tal pulguinha escondida num refego.

João Lourenço Roque, doutorado em História, docente dessa mesma disciplina, durante anos, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, teve outra opção: cansou-se da História, ainda que reconhecendo que é «mestra da vida», como o escritor latino Cícero proclamou, e entregou-se às tarefas rurais, gerindo, numa aldeia rural da Beira Baixa, o que herdara: a casa, a horta, o olival… E deu em deixar-se seduzir  por essa pacatez.

Houve, porém, uma bactéria que o não largou e por ela se deixou contaminar. Que historiador autêntico não se limita a descobrir a história de idos tempos, porque sabe ser também o quotidiano vivido uma história a aprender e a trazer lições. Por outro lado, queira-se ou não, professor que se nasça, professor se há-de morrer. Por isso, condescendeu em ir contando, em crónicas para o jornal  Reconquista de Castelo Branco, as suas reflexões, as suas caminhadas, as vidas dos que à sua volta circulam. Reuniu-as depois em livro e já vai no 3º das suas Digressões Interiores, um adjectivo que é, simultaneamente, subjectivo e geográfico: o seu interior e esse esquecido interior do País em que vive.

João Lourenço Roque e os 3 volumes de Digressões Interiores

E são mesmo ‘digressões’ por aqui e por ali, ao correr da pena, num constante mariposeio. No mesmo parágrafo é capaz de juntar a sua indignação contra a construção da barragem, que não quer se chame «do Alvito», com a sua hipotética transformação em encartado comerciante de tortulhos (cogumelos silvestres) e com o aplauso por Maria João Pires ir regressar a Belgais.

Tudo de carreirinha, sem que o leitor pouse numa antes de passar a outra, não o deixa respirar e leva-o pelo labirinto em que se lhe vai o pensamento. Eu insisto em que também o pensamento se deve educar, uma ideia de cada vez, a amadurar… Convenci-me da relevância desse domínio. O meu colega não: agarra tudo e tudo nos apresenta na mesma alcofa – que, no remanso da casa, se hão-de, mais tarde, separar as compras feitas, queijos para um lado, alfaces para outro, pão para o taleigo, a carne para o congelador…

1 COMENTÁRIO

  1. Uma pessoa, mesmo um ilustre Prof. Doutor da matéria, pode cansar-se da História, mas nunca das histórias que se relacionam com a sua vida e com o meio que o viu nascer.
    Talvez isso aconteça porque, como escrevia H.G. Wells, o homem tem na “massa do sangue” esse desejo social de ouvir e contar…Ou talvez por outros motivos quaisquer…apelos da interioridade individual.
    Uma pessoa da família, regente agrícola que também fugira à cidade para ir gerir uma propriedade da mulher, costumava exibir o mapa dessa grande extensão de terreno. E com um sorriso de felicidade, vaticinava que um dia todos haviam de regressar à terra, o único bem não perecível.
    De certo modo teria razão. Até as cinzas, poeira, assentarão num solo próprio ou alheio. Ele já lá está.
    Parabéns pelo texto, uma prova de admiração e amizade pelo autor dos livros, a quem também desejo muito reconhecimento, enquanto celebra a paz rural.

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