Montenegro em bicos de pés

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Ao contrário da maioria dos seus antecessores, Luís Montenegro deslocou-se no pretérito domingo à Madeira, para festejar a hipotética maioria absoluta do PSD/CDS naquele arquipélago, numa clara tentativa de dar uma leitura nacional a uma eleição regional, cuja especificidade, está mais próxima das autárquicas do que de qualquer outra eleição de âmbito mais abrangente.

Ao contrário das expectativas criadas pelas empresas de sondagem, não acertam uma, Luís Montenegro também parece que não, o PSD local perdeu a maioria absoluta, tendo agora que negociar com o PAN ou com a IL. Mas Montenegro cavalgou um garrano em vez de um cavalo lusitano, com esta ida à Madeira.

A vitória da coligação PSD/CDS na Madeira, mesmo perdendo um deputado no parlamento, que lhe garantia o poder de decidir por si só toda a legislação para o qual está habilitada a aprovar, não tem nada de transcendente. É assim há 47 anos.

Ao contrário dos palpites dos nossos comentadores prime time, sempre tão predispostos a dar explicações inverosímeis, nas cadeias de televisão, sobre as causas e as consequências dos resultados eleitorais, o interessante seria tentarem estudar, perceber e explicarem-nos de forma clara, porque razão não há alternativas ao PSD naquela região, mesmo sem alcançarem a maioria absoluta.

Até podemos falar de caciquismo, mas não podemos falar de ditadura. A Madeira, que eu conheço relativamente bem, sempre foi um espaço onde as pessoas se puderam manifestar livremente e fazer as suas escolhas.

Ao contrário do truculento Alberto João Jardim, o verdadeiro pai da autonomia regional, o qual nunca teve dúvidas em assumir uma divida orçamental na região, em prol da Madeira, com bastante peso nas contas públicas nacionais, como aconteceu no tempo de Cavaco Silva, o PS, em relação à autonomia regional, sempre navegou em águas turvas. Como se diz na gíria popular: “Não fornica, nem sai de cima”. Vive numa imensa ambiguidade, por vezes letargia, sem saber para que lado quer ir. E o PSD regional, ao contrário do nacional, está bem mais próximo do Estado Providência, do que os seus correligionários do continente, com aquela máquina de dar empregos, benesses, subsídios, tão comum nas autarquias nacionais, as quais criam uma relação de dependência emocional entre o eleitor e o governante. Essa dependência cria uma relação de estabilidade entre ambos, que só é quebrada aquando de uma crise económica que suspenda esse desígnio. O PS nacional sabe bem como funciona o esquema. Não é por acaso que alcançou uma maioria absoluta contra todas as expectativas. Recebeu os louros da Geringonça.

Ao contrário da emigração continental, cujos destinos foram na década de 60 e 70, a Europa do pós guerra, fortemente politizada e proletarizada, a maioria da emigração madeirense encaminhou-se para a Venezuela e África do Sul. Nesses países os emigrantes estabeleceram-se em grande parte como patrões. Muitos deles já regressaram com aquele sentimento do Retornado.

Proprietários de pequenos e médios negócios, formando nesses locais uma espécie de classe média endinheirada, apesar de pouco letrada, mas com convicções politicas muito similares à dos antigos colonos das ex províncias ultramarinas, estes são conservadores por natureza. Gente de aforro e poupanças, de investimento no pequeno imobiliário, preferem não arriscar qualquer mudança. Tudo isso se reflete na sociedade madeirense, pelo que o resultado eleitoral só é estranho para quem não conhece a Madeira. 

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