De Mogofores para Cascais

Há vultos que passam despercebidos; outros deixam saudade e testemunho. Alberto Ramalheira, falecido, aos 87 anos, no passado dia 13, situa-se inegavelmente entre os que importa recordar.

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Exercia, agora, desde 1 de Março de 2016, as funções de presidente do Conselho de Administração da Fundação da Casa de Bragança, cargo em que sucedera a Marcelo Rebelo de Sousa.

Tendo sido nomeado subsecretário de Estado do Orçamento e do Tesouro a 15 de Maio de 1975, o Dr. Alberto José dos Santos Ramalheira passaria a ser Secretário de Estado do Orçamento a 9 de Julho de 1975, período governativo, que, como se sabe, não foi nada fácil. Seria, porém, no Montepio que passaria a maior parte da sua vida profissional; por isso, no comunicado que fez questão de divulgar (foi, aliás, a única entidade, além da Casa de Bragança, que decidiu manifestar publicamente o seu pesar), salienta-se o facto de ter exercido «diversos cargos governativos em Portugal e funções em muitas e diversas entidades da Economia Social, tendo, em especial, servido o Montepio Geral – Associação Mutualista, do qual era associado desde 1990, com enorme dedicação durante mais de 30 anos, como membro do Conselho de Administração, membro do Conselho Geral, membro da Assembleia de Representantes e, ainda, como Administrador de diversas empresas do Grupo Montepio», concluindo com uma afirmação que cumpre salientar:

«Portugal perdeu um homem bom, um cidadão de excelência e um exemplo para todos nós».

Alberto Ramalheira nasceu em Mogofores, povoação do concelho da Anadia. Vim a encontrá-lo – ou, porventura, a reencontrá-lo – como irmão da Santa Casa de Misericórdia de Cascais, onde foi, até 2019, meu colega nos respectivos corpos sociais, como presidente do Conselho Fiscal. Gerou-se de imediato entre nós enorme simpatia e alguma cumplicidade, porque, tendo eu passado em Mogofores, no Instituto Salesiano S. João Bosco, os anos lectivos de 1957 a 1960, porventura nos encontrámos, porque o pai era o sapateiro de serviço para o Instituto. Amiúde, pois, em momentos de confraternização, revivíamos esses tempos da nossa juventude.

Não é raro que, numa instituição, o Conselho Fiscal se limite, nos relatórios e nos planos de actividade, a umas palavras quase de circunstância. Enquanto Presidente do Conselho Fiscal da Misericórdia de Cascais – e foi-o durante vários mandatos – o Dr. Alberto Ramalheira constituiu excepção, porque o seu parecer era sempre bem fundamentado, alicerçado numa análise pormenorizada aos dados que lhe eram presentes pela Mesa, merecendo-lhe sempre destaque «algumas das acções previstas desenvolver» no ano seguinte, «no âmbito dos objectivos da actividade institucional». Admirava-o muito por isso, não me cansava de o salientar. Permita-se-me que recorte, a título de exemplo, o que veio exarado na acta da Assembleia Geral de 29 de Novembro de 2018, em relação ao plano de actividades para 2019:

«O Irmão Alberto José dos Santos Ramalheira começou por se regozijar com as “boas notícias” referentes à resolução do problema financeiro por via da inerente libertação dos pesados encargos pendentes, e às obras de beneficiação da igreja e seus anexos com a constituição de um espaço museológico, para além de enaltecer o trabalho dos dirigentes e colaboradores da Misericórdia. Importa, todavia, frisou, que se não descanse e que este desanuviamento financeiro sirva para que se tome maior fôlego e se acicate a capacidade criativa. Manifestou o agrado do Conselho Fiscal em ver a intenção de se recuperarem espaços de cultura e preconizou que se não esmoreça na tarefa de angariar mais irmãos, inclusive fomentando a possibilidade de todos os trabalhadores da Santa Casa virem a inscrever-se como irmãos».

Na tomada de funções na Misericórdia de Cascais, 2016

Pelo Natal desse mesmo ano de 2018, enviou aos membros dos corpos sociais da Misericórdia uma mensagem – facto inédito na vida da instituição – de que destaco a seguinte passagem, bem elucidativa acerca de uma pessoa que, sempre sorridente, afável, disponível, tinha preocupações a que procurava dar resposta, mas não fosse através do seu exemplo:

«Da eterna luta entre o bem e o mal que caracteriza o nosso mundo, parece que o mal leva a melhor, mas não poderemos olvidar quanto bem se derrama continuamente, a partir das mais variadas atitudes, pessoais, familiares e institucionais. Porém, os media privilegiam a comunicação do mal, porque é o que impressiona mais e chama mais a atenção. O bem que a todos os momentos está a acontecer é discreto e, a não ser que se trate de algum ato heroico ou fora do vulgar, não é notícia».

E, depois de salientar que, apesar de tudo, a esperança num mundo melhor não pode morrer, afirma, nessa carta, que ela, a esperança, «só se poderá manter se houver um esforço de renovação contínua, ao nível individual, familiar, institucional e político, que vá ao encontro da satisfação das reais necessidades, não das que nos são artificialmente criadas por via das falsas expetativas, mas das que contribuem para o nosso desenvolvimento humano (a saúde, a educação, a segurança, a justiça, o trabalho…). A cada um individualmente e às instituições, desde as sociais às políticas, é exigido que deem o melhor de si mesmos, contribuindo para o bem individual e o bem comum».

Para essa consciencialização muito trabalhou. Curvamo-nos, por isso, diante da sua memória. Vindo de Mogofores, Alberto Ramalheira fixara residência na Parede. O seu último parecer como presidente do Conselho Fiscal da Misericórdia sobre o plano de actividades para 2020, data de 27 de Novembro de 2019. À família enlutada, designadamente a sua Esposa, Maria Almira, se apresentam mui sentidos pêsames

4 COMENTÁRIOS

  1. De: Elvira Bugalho
    21 de setembro de 2023 19:44
    Li as palavras de elogio que escreveste sobre o Dr Ramalheira que eu não conheci, nem ouvira falar. Passei a saber de alguém que se empenhou pelo bem dos seus semelhantes e, como dizes, de uma forma discreta. Na verdade, cada vez admiro mais aqueles que vivem a sua vida, se dedicam aos outros sem pedirem louros e irem para a ribalta. A primeira pessoa que me impressionou pela sua modéstia , foi o Damião Peres. Lembras te ? Quando fomos à Casa da Moeda com o Veríssimo Serrão, que era o oposto dele. E isso impressionou-me de verdade. Quem tem verdadeiro valor não precisa exibi-lo deliberadamente.

  2. De: Carlos Nascimento
    21 de setembro de 2023 21:16
    Agradeço o teu belo texto face ao falecimento do Irmão Dr. Alberto Ramalheira. Retrata perfeitamente a pessoa que foi. Nos anos que partilhei com ele nos órgãos sociais da Santa Casa muito aprendi. Partilhávamos as mesmas ideias em longas conversas. Sem dúvida, alguém que ficará como grande referência.

  3. De: Provedoria
    22 de setembro de 2023 14:51
    Obrigada, Dr. José D’Encarnação,
    O Dr. Alberto Ramalheira, para além de ser uma grande figura do nosso tempo, foi um grande amigo que nunca esqueceremos. Pessoalmente também tive esse privilégio.

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