Enfeitar de harpas a noite do silêncio

Ensinaram-me os mestres a saborear o silêncio. Bastos momentos dos dias da minha juventude foi em silêncio que os passei. Em meditação. No treino de capturar pensamentos fugidios e os encarreirar numa sequência fértil – que, no silêncio, se gizavam planos, se mediam forças (a passada não maior que o tamanho da perna), se esmiuçavam pormenores.

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Ajudaram-me nisso muitos livros que tive a sorte de comprar – boa parte em segunda mão – e que, ainda hoje, me são livros de cabeceira; os que não eram meus, vinham de empréstimo da biblioteca municipal, tomava nota da página, e, no final, copiava as frases que mais me haviam chamado a atenção. Um deles, de Helena Lubienska de Lenval, Silêncio, Gesto e Palavra (Aster, 1961), ensinou-me o valor do silêncio.

Por isso me não admirei do título que Maria Helena Ventura deu ao seu mais recente livro de poemas: Quando o Silêncio Falar (Mosaico, Abril de 2023). 96 páginas, 55 poemas.

Precede-os o introito, de Vítor da Rocha (a proeza de escrever tudo num só período de 18 linhas!…) e a «breve nota», de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, que assinala, se bem compreendi, duas características da escrita poética da autora: «não escreve para que não se compreenda o que escreve» e valoriza «a descrição da Natureza, o estado de alma, a emoção».

Raros são, aqui, os poemas de uma só página, duas é o habitual; alguns até formalmente se diriam prosa, de versos a preencherem a linha inteira. E, pensadas que são as palavras, uma a uma, mui reflexivamente passadas pelo crivo do Saber, veiculam esses poemas mensagens de meditar – que será em recanto sereno que o Silêncio se deixará ouvir.

Difícil seria querer abarcá-las todas (ou muitas delas, sequer!) neste alinhavar de leitura. Cinjo-me a três, onde o silêncio é maior.

«Enquanto» (p. 34): qual espada de Dâmocles silenciosamente suspensa sobre o seu tempo, a autora gostaria que o sufoco em que sente a terra cedo desabrochasse em canto de mil pássaros no ar. O silêncio que um enorme chilrear quebraria, proclamando liberdade!

«Falésias» (p. 36): ao afirmar que vai «silenciando os tempos», porque a vida – a sua vida – é como «fita de nastro retesada», pronta a partir-se… ali, na falésia, o seu olhar estende-se pelos barcos, pelas «velas desenroladas», «bússolas por consertar» e nem um «aguaceiro manso» consegue roubar-lhe o silêncio em que prefere continuar, como quem, em blusa transparente, borda sorrisos de fotografias antigas…

«Fazer as pazes» (p. 36): a ternura imensa dum reencontro florido, em que há um desejo no ar: diz-me «que enfeitarás de harpas / a noite do silêncio». Lindo!

Sim, será porventura esse o silêncio que vai falar: na leitura pausada da Poesia, embalada por delicado dedilhar de uma harpa qualquer…

2 COMENTÁRIOS

  1. A Helena Ventura domina a linguagem do Silêncio como só grandes Pietas o sabem fazer. É um livro que li sem conseguir parar, mas a que regresso com frequência. Trata-se de uma poética maior em que cada palavra é uma nota imprescindível de uma sinfonia de beleza.

  2. É este livro de Maria Helena Ventura que ainda não tenho. Poesia. O título que o Doutor José d’ Encarnação encontrou talvez num verso é muito bonito como aliás a sua crónica que me faz mandar vir o livro.
    Li o anterior também de poesia e fiquei maravilhado. Lá está é preciso ler aos bocadinhos para aprender a gostar de linguagem tão delicada.

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