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QUANDO SARKOZY MANDOU DERRUBAR KHADDAFI

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Aparentemente, a política tem razões que a razão desconhece. Tão depressa tratam as pessoas com deferência como a mandam matar. Não, não estamos a falar de regimes ditatoriais horríveis de África, Ásia ou da América Latina. Estamos a falar das nossas democracias europeias, civilizadas, éticas, defensoras do primado da lei, etc.

Vem isto a propósito de um livro agora publicado por Jean-François Lhuillier, membro dos serviços secretos franceses, chefe operacional destacado em Tripoli, na Líbia. O livro que ele escreveu, agora que se reformou, “O Homem de Trípoli: Memórias de um Agente Secreto”, revela como o Presidente da França atraiçoou o Presidente da Líbia, Muammar Kadhafi.

Neste relato, Jean-François Lhuillier afirma que a operação foi ordenado por Nicolas Sarkozy sem prevenir o que viria depois. E o que veio depois foi a destruição de um país, uma guerra civil, milhares de mortos, instabilidade para toda a região do Mediterrâneo, incluindo a Europa.

Lhuillier escreve que “Eliminámos Kadhafi e destruímos o seu país sem nos preocuparmos com o facto de se tratar de uma muralha contra o terrorismo islâmico”. E desvenda uma hipótese para Sarkozy querer Khaddafi fora de cena: Sarkozy era suspeito de ter recebido dinheiro do ditador líbio para fazer campanha política em 2007, milhões de dólares segundo relatos da imprensa na época.

No livro, Lhuillier diz que membros dos governos francês e líbio tinham ligações estreitas entre si antes desta questão ter surgido. Foi depois disso que elementos da Direção-Geral de Segurança Externa (DGSE) – serviços secretos franceses – passaram a colaborar com grupos rebeldes líbios.

Ainda segundo as confissões agora publicadas, os serviços secretos britânicos colaboraram com a França para derrubar Khaddafi.

Khaddafi em Portugal

Provocar a queda do líder líbio não terá sido apenas uma velhacaria, mas foi também um erro tremendo. A Líbia estava a estender a mão à Europa, depois de décadas de antagonismo político. Khaddafi procurava prestígio internacional, depois de ter iniciado um processo de desenvolvimento económico sustentado na venda de hidrocarbonetos à Europa. Havia muitos projetos que iriam beneficiar empresas europeias, na construção civil, na indústria, no desenvolvimento agrícola.

Em 2007, Khaddafi esteve em Lisboa para participar na Cimeira União Europeia – África. O primeiro-ministro português exercia na altura a Presidência da EU. Sócrates dedicava especial atenção à Líbia, onde se deslocou várias vezes para assinar acordos bilaterais.

Quem tiver memória, deve estar recordado da sumptuosa tenda que Khaddafi mandou erguer no Forte de São Julião da Barra. Aí recebeu Sócrates, ministros vários e outros chefes de Estado. E foi recebido em São Bento com todas as honras.

Enfim, a traição de Sarkozy foi, também, uma punhalada nas costas dos interesses portugueses.

O livro está à venda na Amazon. Custa 30 euros. Em França, a publicação deste livro está a ser um sucesso, com imensas repercussões mediáticas. Mas isto é gente sem vergonha na cara.

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