UMA INVASÃO IMPIEDOSA

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Com a primavera, reaparecem as andorinhas e as abelhas. Cada vez menos. As andorinhas desaparecem porque está também a desaparecer o alimento disponível. Há cada vez menos insetos por causa do uso global de inseticidas na agricultura intensiva e, sem eles, as andorinhas morrem de fome. Estamos a assistir a alterações relevantes nos ecossistemas, o perigo para a biodiversidade é real.

Os desequilíbrios tendem a adquirir velocidade crescente, num efeito de bola de neve que quanto mais rola mais cresce.

A par com o desaparecimento das andorinhas, assistimos ao desaparecimento das abelhas “domesticadas”, a abelha europeia, nome científico Apis Mellifera, de cuja existência dependem inúmeras espécies vegetais para a polinização e dependem milhares de apicultores em Portugal. A abelha não é a única polinizadora que contribui para a reprodução de espécies vegetais, mas é a única produtora de mel com importância económica.

O problema das abelhas não é apenas com os inseticidas, mas também com a invasão imparável da abelha asiática, terrível predadora da abelha europeia. A destruição de colmeias atingiu já dimensões catastróficas.

Rodrigo Sousa Castro, conhecido militar de abril, hoje na reserva, dedica-se à apicultura, num projeto agrícola na região de Sintra. “Instalámos vários apiários, na região de Sintra, Colares, Pernigem, e noutros locais da Serra de Sintra tendo para isso feito um protocolo com o ‘Monte da Lua’. Durante alguns anos implantamos paulatinamente cerca de 12 apiários em locais diferentes com efetivos reduzidos tendo em vista o crescimento sustentado dos efetivos para o que, após uma fase inicial em que adquirimos algumas colónias começamos a reproduzir as colónias através de desdobramentos e outras técnicas.”

O apicultor Rodrigo Sousa Castro

Durante anos o projeto cresceu, aumentou o número de colmeias, registou-se uma marca comercial, colocaram o produto no mercado. “Tínhamos tido conhecimento que a vespa asiática havia aparecido no norte do País em 2011, mas sempre pensamos que alguém tomaria algumas medidas para debelar a praga ou no mínimo evitar a sua progressão para sul,” diz Rodrigo Sousa Castro, antes de relatar o desastre total.

“Há três anos atingimos um efetivo de 200 colónias e preparávamo-nos para constituir uma sólida posição enquanto apicultores, quando a vespa apareceu aqui na região…”

Em 2021, a vespa asiática matou metade das abelhas europeias. No ano passado, já só sobreviviam 10% das abelhas melíferas. Este ano, não houve produção de mel. “Lançámos a toalha ao chão”, assume Rodrigo Sousa e Castro.

Numa década, a vespa asiática instalou-se em todo o país, depois de ter colonizado toda a Europa, especialmente os territórios do sul. Rodrigo Sousa Castro reconhece que o combate ao invasor é uma luta difícil, mas acusa as autoridades de passividade. “Só reagem quando os ninhos são indiciados e mesmo assim com grandes atrasos e deficiências.”

Todos os apicultores portugueses enfrentam este problema, mas na região de Sintra parece haver condições excelentes para a abelha asiática ter uma vida feliz. Vegetação verde luxuriante, temperaturas amenas, humidade quanto baste e pequenos cursos de água em profusão. E um combate ineficaz.

“Não sendo do meu feitio e natureza ficar pelo caminho, desta vez não tive outra alternativa”, diz-nos Rodrigo Sousa e Castro, a quem desejamos boa sorte em projetos futuros.

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