“Antes de deitar fora, vê se tem arranjo”

Sábado, tarde de sol, fomos à Biblioteca de Algés, em Oeiras. Em vez de livros ou conferências, a atracção eram reparações gratuitas. Cortesia do Repair Café, um grupo de voluntários que acredita na máxima "antes de deitar fora, vê se tem arranjo" e leva isso à letra. 

0
1608
fotografia de Ana Catarina Rocha

Membros da Circular Economy Portugal, anónimos especialistas em reparações há anos que promovem eventos em Lisboa, onde, de forma gratuita, consertam aquela varinha mágica que ameaça descambar no meio da confecção da sopa ou a tostadeira que tanto jeito dá mesmo ao fim de uns anos, mas que já apresenta sinais de desgaste.

Basta uma inscrição através de um formulário do Google, troca de emails para confirmar o dia, a hora, o local e o(s) objecto(s) a reparar, e o evento acontece. Apenas não fazem arranjos de electrodomésticos de maior porte, como aspiradores, máquinas de lavar roupa ou fogões.

Estes bravos e bravas da reparação acreditam que é um desperdício deitar fora um objecto utilitário que ainda possa ser útil, mesmo que já não tenha todas as capacidades de há alguns meses ou anos atrás. Afinal, estamos numa era de desafios constantes tanto em termos ambientais como económicos, onde nem sempre há a capacidade financeira para trocar de telemóvel ou de torradeira, e o fenómeno da obsolescência programada é muito mais do que uma expressão complicada de se dizer: é um facto negativo (em França é punido pela lei) e tem custos astronómicos, não só para a carteira do cidadão particular como para o ambiente em geral.

Nessa tarde, berbequins, torradeiras, uma ventoinha, uma máquina de café e uma pequena aparelhagem alinharam-se em mesas, rodeadas de toda a sorte de equipamentos e acessórios. Nem faltou uma senhora, fada das máquinas de costura, que ajudava uma outra senhora que bem precisava de uns arranjos numas roupas (a caixa de grandes dimensões cheia de peças à espera da sua vez falava por si). 

A princípio, e desiludida porque afinal não me iriam arranjar o telemóvel devido a um email perdido, lembrei-me do meu decano portátil, que precisa de uns quantos cuidados. A afável senhora que atendia os recém-chegados aceitou a ideia alternativa, e toca de ir carregar esse objecto para ser visto por um técnico, que aceitou o desafio. Em verdade se diga, o técnico bem tentou dar a volta com a sua perícia, porém, uma das entradas USB jaz em paz e a outra está por um fio.

fotografia de Ana Catarina Rocha

Os membros do Repair Café fazem arranjos bem feitos, mas milagres não. Aliás, assim que se deparam com um arranjo bem mais complexo do que lhes é possível fazer, informam a pessoa de imediato, aconselhando a ir a uma loja especializada. No caso do portátil, e porque falamos de um objecto com dez anos, só comprando um novo quando avariar de vez.

Resta esperar que Algés seja agraciada com mais iniciativas destas. Até porque, como andam as coisas, para além do trio de “érres” (Reciclar, Reduzir, Reutilizar) cada vez mais se conclui que Reparar também faz falta nesta equação. 

Biblioteca Municipal de Algés

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui