A Ciência e o Fact-cheking

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O filósofo alemão Jürgen Habermas discutiu há muito que o objetivo da tecnologia é o domínio, quer da natureza, quer do próprio homem. Isto porque nos últimos séculos a tecnologia tem servido sobretudo para aumentar a produtividade das sociedades – noutras palavras, fomentar o capitalismo – e tal só é conseguido quando se controla a natureza e o homem por extensão. Sendo ciência aplicada a um propósito objetivo, nomeadamente um produto passível de entrar nas lógicas de mercado globais, a tecnologia tende a ser uma visão política sobre o mundo e não “a” ciência em si mesma, uma vez que esta é substancialmente mais complexa e não tende a oferecer respostas simples aos problemas do quotidiano. A tecnologia quer o lucro, a ciência quer o conhecimento.

As redes sociais resultam de processos tecnológicos que se têm vindo a desenvolver desde o final da II Guerra Mundial e, como afirmam alguns analistas, o seu propósito final é sobretudo o lucro. Retiraram porém aos media tradicionais o controlo definitivo sobre o “meio”, ou seja, os canais pelos quais o público consume a informação. E se quem domina o meio, domina a mensagem, o Brexit, a vitória de Donald Trump e a vitória de Jair Bolsonaro mostraram que era no digital que se travava um domínio pela “verdade” que estava longe de pertencer, afinal, aos meios de comunicação ditos mainstream.

A propaganda em política, nomeadamente a promoção de ideias falsas e difamações de carácter, é algo comum e transversal a todos os lados da barricada, esquerda ou direita. Não há inocentes nesta história. Mas se até aqui ganhava quem se encobria melhor pelo politicamente correto, as redes sociais começaram a promover quem falava mais alto, quem acusava mais alto e quem repetia chavões de forma mais convincente. O tom agressivo e os assuntos que promovem a indignação são os que mais facilmente se tornam virais nas redes sociais, pelo que vence quem melhor os sabe manejar.

No Ocidente o discurso de ódio é reprovado porque remete para o nazismo e para a extrema-direita, mas muitas vezes esquecemo-nos que o Estalinismo fez algo de muito semelhante encapotado de “boas intenções” e a nobreza do propósito social do bem comum. Não é por acaso que uma das principais figuras mediáticas que fez resistência pública à vacinação coerciva Covid, Novak Djokovic, é de origem de um país do antigo Bloco de Leste.

Em resposta ao aparente aumento considerável das chamadas notícias falsas promovido pelas redes sociais, em 2019, Jessica Cecil, jornalista da BBC, iniciou e liderou a Trusted News Initiative (TNI), a única aliança mundial de grandes empresas internacionais de tecnologia e organizações de notícias para combater a desinformação em tempo real. O Reuters Institute for the Study of Journalism foi membro fundador do TNI, ao lado de organizações de notícias como a BBC, Reuters, AFP, FT, The Hindu, European Broadcasting Union e plataformas como Microsoft, Facebook/Meta, Google, Twitter ou o The Whashington Post.

Inicialmente, o propósito desta organização era combater notícias falsas em tempos eleitorais. Mas em 2020 o sentido da estrutura mudou, passando a debruçar-se também sobre as notícias falsas sobre a vacinação covid. Por esta altura surgiam as plataformas de Fact checking e a OMS reconhecia ter uma rede mundial de influenceres para combater a desinformação.

Qual o problema desta situação no contexto da pandemia Covid-19?

Dividir a realidade entre verdadeiro e falso é relativamente fácil quando estamos a falar de fotografias, vídeos, páginas online de media que não existem ou tweets. Se alguém mexeu em algo que foi desenhado de uma determinada maneira, a realidade torna-se binária. Mas isto é técnica, não é ciência, ou seja, estamos a lidar com um objeto criado pelo homem, não com uma análise humana à complexidade da natureza. Quando se salta para temas mais complexos e a dimensão de “verdade” se alarga, surgem imensas zonas cinzentas. Uma notícia a discutir a segurança de uma vacina de mRNA jamais pode ter o mesmo processo de verificação de factos que uma fotografia em que um engraçadinho resolveu mexer, a fim de que induzisse no leitor determinadas ideias que não correspondem à realidade.

Depois há outro problema: quem financia estas plataformas de verificação? Por muito que se argumente com a ética e a independência, um patrocínio não representa apenas subsistência, é também uma visão do mundo.

Os métodos de verificação de factos baseiam-se, numa análise geral, nas fontes. Quando os temas atingem determinado grau de complexidade, chamam-se os “especialistas” e, em caso de dúvida, remete-se para a instituição que se considera à partida idónea. Dizem os códigos de ética que estes especialistas e instituições não devem ter conflitos de interesses com o tema abordado, caso contrário tal tem que ser noticiado. Mas, como demonstram as investigações do jornal online Página UM, o que não faltou nos últimos três anos foram especialistas que afinal tinham vários níveis de relação com empresas farmacêuticas.

Outro  fator de confusão é a própria razão que motivou a criação dos novos Fact-chekers. Da mesma maneira que muitos críticos da narrativa covid acreditam que tudo não passou de um plano bem delineado por uma elite mundial para diminuir a população, também os jornalistas parecem estar convictos que há uma estrutura muito bem montada a nível mundial de militantes de extrema-direita que trabalha afincadamente a produzir desinformação e notícias falsas para dominar o mundo. Ora, há estudos que apontam que uma parte da desinformação a circular online são pessoas a querer ganhar dinheiro com os likes.

Depois, o que é um especialista?

Olhando para os EUA a burocracia impera: o diretor do NIAID, Dr. Fauci, o cirurgião geral Vivek Murthy, o coordenador de resposta à Covid-19 da Casa Branca, Ashish Ja, o secretário de saúde e serviços humanos Xavier Becerra e a diretora do CDC, Rochelle Walensky, nunca trataram um paciente Covid e, de fato, não trataram pacientes reais durante décadas. Muitos deles estiveram envolvidos na academia, não na prática da medicina. A ex-coordenadora de resposta da Casa Branca Deborah Birx, que voou pelo país persuadindo os governadores a fechar as escolas e empresas e impor máscaras, não tem experiência em saúde pública e passou a maior parte de sua carreira coordenando programas internacionais de tratamento e prevenção de HIV.

Não é difícil chegar a um consenso científico quando se reprimem vozes discordantes e a comunicação social realmente acredita que pode avaliar a veracidade de um tema com elevado grau de desconhecimento e complexidade científica da mesma forma que avalia uma fotografia insinuando que a Michelle Obama é um homem.

A origem do COVID é um exemplo clássico. Vinte e sete cientistas  publicaram  uma carta na Lancet condenando as “teorias da conspiração” que sugeriam que o vírus não tinha origem natural. As opiniões divergentes foram  censuradas  nas redes sociais e rotuladas como “desinformação”. Somente agora, quando o Departamento de Energia dos EUA e o FBI  afirmaram que é a hipótese mais provável, é que está aberta a discussão.

A Declaração de Great Barrington é outro exemplo. Três eminentes professores das universidades de Harvard, Stanford e Oxford argumentaram contra os confinamentos que, segundo eles, prejudicariam desproporcionalmente os menos privilegiados. Mas o ex-diretor do NIH, Francis Collins, descartou-os como “fringe minority” pedindo a Anthony Fauci “uma rápida e devastadora” eliminação da declaração.

Um dos epidemiologista, Dr Martin Kulldorf, chegou mesmo a ser bloqueado no Twitter por ter afirmado que a imunidade natural existia. Já o Dr Peter McCullough, cardiologista com os únicos dois artigos revistos e publicados com um protocolo de tratamento para a Covid, viu vídeos seus a explicar o seu protocolo a serem eliminados do Youtube.

O recente lançamento dos ‘Arquivos do Twitter’ revela como agências governamentais, Big Tech, media e academia agiram de forma concertada para policiar o conteúdo online e censurar vozes dissidentes, por forma a criar uma falsa perceção de consenso. Um exemplo flagrante foi o Virality Project da Universidade de Stanford, que reuniu a elite académica, especialistas em inteligência artificial e empresas das redes sociais para censurar histórias “verdadeiras” de lesões causadas por vacinas sob o pretexto de combater a desinformação.

Podemo-nos perguntar como uma rede social decide bloquear alguém que é especialista da área? A única conclusão a que chego é que era simplesmente o mais fácil no caos que foi a resposta pandémica. Nos emails do Dr Fauci encontramos correspondência com a própria equipa do Facebook, onde se admite o bloqueio de informação verdadeira sobre vacinas porque podia provocar hesitação vacinal.

Outra pergunta que fica: como as empresas proprietárias de redes sociais se sujeitam a isto?

Por um lado, o Facebook teria ficado com uma imagem fortemente prejudicada com o escândalo da Cambridge Analytica e quereria desvincular-se de canal promotor de extremismos. Por outro, temos a regulação de empresas que são privadas e cujo objetivo é ganhar dinheiro.

Não há regulação das redes sociais, a venda de metadados está completamente liberalizada. Ninguém sabe exatamente o que vendem nem para quê. Talvez por isso Mark Zurkeberg tenha sido tão célere a oferecer os seus préstimos ao Dr Fauci acreditando que as redes sociais seriam um bom método para controlar pandemias. Enquanto não houver regulamentação da venda de dados o céu é o limite.

Outra fonte tida como idónea por parte dos fact checker é a instituição de referência que neste caso é a OMS. Mas este assunto merece um artigo só para ele.

Infelizmente, ter Donald Trump a desvalorizar a pandemia e Jair Bolsonaro a chamá-la de “gripezinha” só contribuiu para a paranóia com a desinformação da extrema-direita o que, temo, está a ajudar mais a alavancar o neo-nazismo que propriamente a combatê-lo.

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