Televisão: ideias e cópias

Raramente vejo televisão. Não é por ser ou estar contra, mas por me dar sono. E não é da idade. Desde criança que olho para o ecrã e, passados cinco minutos, estou a dormir. Às vezes há um programa que me interessa muito, ou um filme. Opto por gravar. Demoro cinco dias a ver, mas vejo o que me interessa.

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Toda esta conversa para dizer que segui, apaixonadamente, há já algum tempo, a história de três gémeas, tão iguais e tão diferentes nos feitios, nas maneiras de ser e nas vidas. Estou, claro, a falar das irmãs Bourbon de Linhaça – Matilde, Filipa e Salomé – a que a actriz Gabriela Barros deu vida na série da RTP1 Pôr do Sol.

Agora que, por força das circunstâncias, tenho estado mais por casa, descubro que há uma telenovela na SIC, Sangue Oculto, que deve ter sido inspirada nas manas Bourbon de Linhaça, mas à qual se esqueceram de imprimir alguma qualidade. E isso percebe-se até pelo genérico, em que entram duas gémeas e falta a terceira.

Em todo o caso, o que me parece é que todos sabiam que Pôr do Sol era uma série de humor em que se brincava com outras novelas. No caso da telenovela da SIC, parece-me um ‘tudo ao molho e fé em Deus’: há assuntos sérios a serem tratados com um humor sem graça nenhuma e assuntos supostamente cómicos a serem tratados sem graça nenhuma. Mesmo as diferenças das manas gémeas parecem-me uma disfunção completa. Mas não são só elas: há um polícia da Judiciária que passa o tempo suspenso de funções, em investigações paralelas, que não consegue chegar a lado nenhum; uma pseudo-dondoca (e isto é suposto ser humor) que se candidata e ganha a gestão de um parque de campismo, que quer, à viva força, que seja de luxo e, por isso, faz sugestões disparatas; um hospital onde os médicos parecem ser todos uns trafulhas; neste hospital, aliás, parecem ter-se encontrado todos os trafulhas do burgo; um ucraniano que é sempre vítima; um diplomata que não faz nada… Mas isto tudo se reporta ao que tenho visto mais recentemente.

E claro que tenho de confessar as saudades da família Bourbon de Linhaça, incluindo do Simão de Bourbon e dos seus copos partidos, do Toy e da banda sonora de uma história que, sendo hilariante, nunca raiou o ridículo.

Rui Melo em Pôr do Sol

Além disso, vejo aqui tantos talentos desperdiçados.

Na minha opinião, dão a alguns actores muito bons papéis de porcaria. Eles interpretam-nos bem (que remédio!) mas fico a pensar na frustração que devem sofrer, sobretudo quando se trata daqueles que, consabidamente, gostam da sua profissão.

António Pedro Cerdeira em Sangue Oculto

Tome-se o exemplo da série Abandonados. Francisco Manso foi realizador e contou a história da ocupação de Timor pelo Japão, da II Guerra Mundial. Claro que já nos habituou a narrativas de grande qualidade, como Cuba Libre ou Um Cônsul em Havana, entre muitas outras. A questão aqui é ver António Pedro Cerdeira numa representação excelente de Mário Cal Brandão e vê-lo agora num papel desprestigiante na tal telenovela disparatada.

E deixem-me só lembrar, em contraponto, que Marco Delgado, por exemplo, foi tão bom como Tenente Pires em Abandonados como Eduardo Bourbon de Linhaça em Pôr do Sol, pelo simples facto de serem programas de qualidade.

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