UMA IGREJA APODRECIDA

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É muito comum ouvirmos discussões acaloradas  sobre religião, nos mais diversos lugares. De certa forma, o mundo dos humanos divide-se em dois grupos. Os que acreditam numa outra forma de vida para além desta, depois da morte, e os que não acreditam nisso. Sendo que, para os crentes, esta passagem terrena não é mais do que um estágio comportamental para a eternidade. Daí praticar-se o bem, cujo local destinado é algo que está para lá da nossa mente, coisa que não são capazes de definir muito bem, mas têm uma pulsão interior que os faz acreditar nesse desfecho. 

Os não crentes, acham que somos uma evolução natural da espécie, com dezenas de milhar de anos de existência, e chegados aqui, temos atributos intelectuais que outros seres vivos não alcançaram durante esse percurso. Como racionais, devemos manter uma relação de urbanidade e sanidade mental com os demais, sem que para isso tenhamos de acreditar numa espécie de prémio pós vida terrena.

Destes dois níveis de abordagem do ser humano, na sua complexa relação social com os outros, derivam várias formas de encarar, no plano psicológico, a vida e a morte. Os que são ateus, acreditam que tudo começa e acaba nesta vida. Os que são agnósticos, não têm uma opinião formada sobre uma vida para além desta, mas não a descartam. Por fim, os crentes, que, podem ou não professar uma religião, acreditam numa vida espiritual para além desta. 

Durante séculos foram as várias religiões que lavraram com o seu punho, muitas vezes de forma criminosa, uma boa parte dos costumes e das leis que nos regeram até ao Iluminismo do século XVIII. Falo mais na Europa que é o continente onde vivo. A partir do chamado século das luzes até aos dias de hoje, as religiões foram de forma lenta e gradual, perdendo o poder que detinham nas sociedades, incluindo diante do poder político. Com a revolução industrial e o aparecimento da filosofia marxista que pôs em causa grande parte dos fundamentos teológicos das religiões, mas acima de tudo o comportamento das várias igrejas cristãs, como instituições sociais, estas entraram em claro declínio, sem nenhuma perspectiva de reverter esse caminho. 

Há múltiplas razões que ajudam a explicar isto. E nenhuma delas é mais importante do que a outra. É tudo uma conjugação de factores internos e externos à própria igreja, fruto das suas próprias contradições, até no plano material. No entanto temos de reconhecer que ao contrário do passado, cuja prática religiosa nos era imposta e os nossos comportamentos controlados pelo clero, ao ponto de sermos condenados à morte se não tivéssemos manifestações de fé, na igreja católica, hoje somos um país laico, onde liberdade religiosa permite todos os credos. É neste patamar que eu me quero agora situar. 

Acredito de forma sincera que a maioria dos católicos que professam a sua religião, o fazem por estarem convictos de ser essa a forma mais correta de promoverem o bem comum, a concórdia e a paz entre os homens, dentro de outras formas, acreditando num Deus para além da espécie humana, que os orienta. 

Dito isto, imagino o sentimento de desilusão e revolta que paira nas suas mentes, depois das revelações feitas nos últimos dias pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa. 

Nada que não fosse previsível, mas o relato com algum pormenor de certos factos, deixa-nos no mínimo atónitos. A pior frustração que pode haver para um católico, penso eu, é perceber que aqueles em quem depositou a sua confiança, não passam de pessoas sem escrúpulos, sem pudor, e desprovidos de valores humanos. Que todo este enredo em volta da doutrina social da igreja não passa de uma falácia. A Igreja que frequenta com devoção está recheada de pedófilos e de gente que lhes deu cobertura, ao ponto de não os denunciarem. Não é Deus como entidade abstracta, cuja fé os impele a acreditar, que está em causa. Isso é algo do foro pessoal de cada um. É sim a instituição, o instrumento social que foi construído em torno dessa imagem Divina, chamada Deus, que segundo a Bíblia encarnou num profeta chamado Jesus, que está completamente podre por dentro.

Pior é impossível! 

cartoon de Hélder Dias

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