RETALHOS DA VIDA

O testemunho que dá conta dos médicos que fazem longos turnos nas urgências hospitalares e que falham diagnósticos e medidas preventivas devido ao cansaço.

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[11:51, 31/12/2022] Bom dia. Consegui dormir. Com fármacos, claro, e depois de umas
voltas e exercícios antes de me deitar.
A disfagia deixou-me comer umas papas de aveia. Veremos se descem.
Ouvi a notícia da morte de Bento XVI e pensei: ele nunca ouviria a notícia da minha!
Conheci o cardeal Ratzinger em Fátima, numa edição do DN de 1996 ou 1997. Numa
página do regional, há uma notícia sobre ele assinada por mim e pela Jacinta, então
jornalista do DN. Lembro me da cara dele como a vi então!
Sei que era grande intelectual, lia e discutia Habermas, o marxista de fibra, da escola de
Frankfurt.
Antes ter morrido ele do que eu. Era mais velho! Eheheh.
A foice há de ceifar nos todos… Mas alto lá, que ainda não quero ir.
Não estou a fazer tricot. Mas o dia é longo. Vou tentar não me drunfar com tanto
medicamento.
Tem um bom dia. Um bom último dia de 2022.

[12:04, 03/01/2023] Há um princípio qualquer que é: quando algo corre mal, pode
sempre correr pior.
Assim: neste momento, o B. está no hospital da Universidade de Coimbra a ser operado
a um descolamento da retina. Precisa de repouso absoluto uns dias.
Somos 2 incapacitados e 4 cães.
Estou a tentar solução…

[14:28, 03/01/2023] E consegui falar com uma associação que me veio trazer almoço.
A filha do B., a tal enfermeira que vive em Southampton, já tem bilhete para quinta bem
cedo. Vem cuidar de nós. Agora durante uns dias, B. precisa de todo o repouso para não
estragar o conserto do olho. Se estraga, tem de voltar ao bloco.
Já tinha arranjado 3 soluções em alternativa à filha. A necessidade aguça mesmo o
engenho.

[11:42, 05/01/2023] Como está o panorama? É um jardim selvagem, laguinho de água
pouco transparente. O do B. não percebo: diz que vê umas bolhas escuras…!
M. chegou há pouco ao Porto. Só estará aqui ao fim da tarde.
Eu fico com os meus 4 cães aqui na sala. Tenho de me desenrascar com uma perna e
meia mão.
As 13:30, uma amiga do B. vem buscá-lo para levar a Coimbra à consulta. A partir daí
se verá se tem de ir ao bloco operatório novamente ou se as “bolhas” vão desaparecer.
E que, desta vez, a médica não esteja a trabalhar há 25 horas!
É vergonhoso, revoltante, o que tem sido feito ao SNS.
Estamos quase como os EUA. E não estamos sós. O Reino Unido, que há uma década
tinha o melhor SNS do mundo, está igual!
Porra! Vale mais ser rico e ter saúde do que ser pobre e doente!

[11:48, 05/01/2023] Posso perder tudo, mas que não me falte o sentido de humor.
Tenho mais uma colega nos cuidados paliativos com prognóstico de dias. Recidiva de
cancro. É a terceira desde o verão! P… que pariu o cancro!

2/2
Tenho que deixar passar esta fase do B. Não posso descer as escadas da entrada da casa
(6 degraus) sem ajuda dele. Por isso, nem fui à fisioterapia esta semana. Vêm cá amanhã
duas fisioterapeutas.

[13:09, 06/01/2023] B. foi chamado de urgência à urgência. A médica só hoje teve
tempo para ver os exames com atenção… A retina está com buracos que têm de ser
intervencionados imediatamente com laser, sob pena de romper mais.
Médicos a fazer 24 horas nas urgências… dá nisto! Já está com a filha a caminho do
hospital.

[17:08, 06/01/2023] Veio a terapeuta ocupacional, mobiliza o braço e a mão. Mas não
tira as dores nem me dá sensibilidade!
Veio a equipa da limpeza tratar da casa e também me deram o almoço. Estava com tanta
fome que consegui comer uma sopa grossa, um ovo cozido e uma banana em 50
minutos. Um record! E ainda virá a terapeuta da fala. Dizer me que tenho a voz molhada
e obrigar me a repetir as palavras, como o prof. Manuel de Pino!! Eh eh eh!
Notícias do hospital? Nada. Não haver notícias é bom sinal! Deve estar vivo!

2 comments

  1. Este texto parece tratar de sobrevivências, sempre de pessoas, claro, mas também dos sistemas que as amparam.
    A chamada Terceira Idade: a forma como enfrenta a vida quando as condições de saúde não são as melhores e o isolamento as vira para dentro do seu mundo.
    As instituições que fornecem serviços de apoio domiciliário, incluindo alimentação e manutenção da casa.
    O Serviço Nacional de Saúde, que começou por ser a mais extraordinária ideia de cuidados médicos acessíveis a todos os portugueses e que hoje sofre “assaltos” que o pretendem fazer desmoronar pela descredibilização.
    Os ganhos reduzidos face às horas de trabalho, os obstáculos de progressão na carreira, as condições físicas e psicológicas em que os profissionais de saúde desempenham as funções, contam para uma avaliação geral do problema.
    O texto desafia à reflexão. Como devemos encarar tudo isto: falta de lideranças com visão de longo alcance e mão de ferro para travar as manobras de grandes interesses que querem acabar com o SNS?
    O que se sabe, e o texto deixa concluir, é que quantos mais médicos se deixarem seduzir pelas condições nos privados e em outros países, menos ficam para trabalhar, mais pesado horário aguentam os “sobreviventes” da crise. E que em última instância, um médico extenuado não pode prestar cuidados de excelência, embora possa ser um brilhante profissional.
    Assuntos de grande actualidade, aqui encobertos por um diário da vida de duas pessoas.

    • Bem hajas, Helena, por estas oportunas reflexões. Só quem está nessas alhadas é que compreende bem o que significam.
      Grato pelo eco!

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