ESCREVER JÁ NÃO É UMA ARTE

Sou republicano por opção política. Jamais me passaria pela cabeça aceitar como lógico, que em pleno século XXI haja qualquer justificação moral e racional para que existam pessoas que nasçam predestinadas a serem futuros chefes de estado, mesmo que, meras figuras decorativas, sem que essa posição não advenha do seu esforço individual, da sua conduta ética e moral, mas, acima de tudo, de uma escolha livre e coletiva, que o aceite como representante da maioria.

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Chegam-nos notícias de que, “Na Sombra”, o livro de memórias do príncipe Harry, lançado esta semana, tornou-se a obra de não ficção mais vendida de sempre no dia de lançamento, superando a autobiografia “Uma Terra Prometida” do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. 

O livro já vendeu 1 400 000 cópias, só nos EUA, Reino Unido e Canadá. Será publicado em 16 línguas.

Tentando perceber a notícia, ainda que perplexo, não estamos a falar de um escritor conhecido, cuja obra deixou um vasto leque de leitores fiéis à sua prosa ou poética. Muito menos de um escritor premiado, quiçá, com um Pulitzer ou um Nobel. Nem sequer de um jornalista que se dedica à ficção, como acontece com alguns no mundo inteiro, incluindo Portugal. Nem estamos a falar da biografia de um ex monarca, entretanto reformado ou já falecido, que tenha marcado uma geração. Ou, como no caso do ex presidente americano, o primeiro afro descendente a chegar à chefia do Estado Norte Americano. Não estamos a falar de nada disso. 

Estamos então a falar de quê? 

Falamos sim de intriga palaciana, de mal estar entre irmãos, de narrativas dúbias sobre os meandros de uma relação familiar turbulenta, onde a mãe, princesa, morre precocemente num acidente de viação, depois de um casamento preenchido por infidelidades várias, de ambos os lados. Uma avó, rainha, que retarda até às vésperas da sua morte a passagem do testemunho, por não confiar no seu filho herdeiro, Carlos. Estamos a falar nas sequelas de um casamento do neto e filho, Harry, com uma afro descendente, Meghan, cuja pouca aceitação na coroa se tornou evidente em todo este imbróglio, onde nem o racismo foge ao tema, nesta relação familiar entre avó, pai, madrasta, irmão e cunhada, da chamada nobreza britânica. Não sei até, se não haverá algum sentimento de revolta e vingança em todo esta história, que se tenta transpor para um livro. Não sei nem vou saber. 

Mas o que leva 1.400.000 pessoas a comprar algo que desconhecem por completo, escrito por alguém cujos dotes narrativos e literários são desconhecidos? Amor à causa monárquica? 

Apenas um. O nosso espírito voyeurista. A bisbilhotice como forma de prazer. Não consigo perceber onde está o interesse, senão esse. 

Vivemos num tempo em que as redes sociais percorrem os nossos dias de forma contínua. Como no passado, os jornais e as revistas na mesa do café, do barbeiro ou do cabeleireiro, nos facultavam a visão do mundo fora de portas. Eram nesses locais que olhávamos através dos meios de comunicação social escritos, para a  janela da globalização. 

Vivemos num tempo onde manifestas vezes nem se liga a televisão para ver um programa de informação ou de cultura, sobre cinema e livros, por exemplo. Ler jornais caiu em desuso. Mas recorre-se ao Facebook, Instagram ou Twitter, vezes sem conta, para nos atualizarmos nas mais recentes banalidades. 

Não consumimos informação. Consumimos só a espuma dos dias. 

Onde é que este padrão de comportamento se cruza com os livros? 

Comprei livros e bons. Mas antes de os adquirir,  alguém me sugeria a obra. Ou ia à feira do livro e assistia a alguma apresentação feita pelo autor. Diante de mim e outros tantos. Lia a crítica à mesma, num jornal de referência. Dito isto, nunca comprava um livro às cegas. No escuro. Podia até, depois de lê-lo, não gostar. Mas só o comprava com o mínimo de informação disponível. 

Hoje os livros que mais se vendem são os que trazem dentro de si uma valente “peixeirada”. Acusações, delações e ajustes de contas. Só por isso já vale a pena comprar, pensarão alguns. É o voyeurismo. Uma espécie de buraco da fechadura que nos alimenta o ego. 

O povo gosta é de conversas de escárnio e mal dizer, dirão outros. Habituem-se. São as redes sociais a fazer o seu percurso. 

1 comment

  1. Este texto é um retrato fiel da realidade “cultural” do país e do mundo. Também a masturbação voyeurista parece globalizada e, como diz Rui Naldinho logo no título, escrever bem ou mal não tem a menor importância para que um livro consiga atingir o top de vendas, ou receba um prémio.
    Não é exactamente este objectivo que mais importa destacar, mas o interesse dos leitores nas matérias abordadas, como ele sugere. Longe de serem as que fortalecem um humanismo em falta, ou reduzem a carência do conhecimento (porque a ignorância é uma porta aberta para maiores submissões) o mundo sujeita-se, cá está, a este ópio que primeiro exalta e depois adormece consciências, promovendo a idolatria em deuses com pés de barro. Muito grata pela abordagem do tema.

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