Três perguntas, depois da morte de um herói…

A História de Portugal está recheada de episódios amargos, demonstrativos da indignidade prevalente em certos meios e épocas. Em Goa, os restos mortais de Garcia de Orta foram exumados doze anos depois da sua morte, para serem submetidos a um auto-de-fé redentor; em Coimbra, a Inquisição intentou queimar um espantalho representativo do Padre António Vieira, quando o próprio, protegido por “dissidentes”, logrou escapar.

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Creio que nenhum português, nem os autoproclamados “portugueses de bem”, contesta um princípio elementar de Justiça consignado na Declaração Universal dos Direitos Humanos: perante os excessos de um regime ilegítimo, e desde que proporcionada, toda a resistência é legítima.

Em defesa da liberdade e da democracia, o socialista Maximino Serra praticou atos gloriosos em que arriscou a própria vida, que nunca a de outros. Luta inglória porque, mudaram-se os tempos e mudaram os métodos, mas ainda hoje o “espírito do Tarrafal” sobrevive em muita cabeça bem-pensante.

Vêm estas reflexões a propósito de uma notícia insólita referente a Maximino Serra, surgida precisamente no dia a seguir ao funeral deste herói lendário do PS. Contrariando quanto lhe havia sido garantido em vida, e também pesarosas condolências transmitidas por altos dirigentes a familiares seus, afinal Maximino Serra não deveria ter sido sepultado sob a bandeira de uma organização de que terá sido mesmo expurgado, sem sequer ter sido ouvido.  

recorte do jornal Público de 11/12/2022

Tão “oportuno” esclarecimento partiu do dirigente Carlos César, um Conselheiro de Estado que assumiu por inteiro a responsabilidade por este insólito “saneamento”. Medida tenebrosa, anunciada a título póstumo, mas justificada pela não ultrapassagem de certos trâmites internos.   

Havendo dentro do PS, e não só, quem considere Maximino Serra como merecedor de uma estátua no Largo do Rato, não admira que o “zelo” de Carlos César possa ser considerado como mais um amargo exemplo da crise de valores e desfaçatez, que atualmente atingem a generalidade da nossa classe política.  

E três perguntas se levantam:

Pode alguém, reconhecidamente sob investigação judicial por “desvio” de um navio português, em benefício pessoal, levantar o dedo contra um camarada que, por ironia do destino, “só” participou no “desvio de rota” do famoso Santa Maria?

Pode alguém, cuja ignota família é apontada como um dos mais escandalosos exemplos do uso da política em proveito próprio, sujar a imagem de quem sempre rejeitou qualquer compensação pelos altos serviços que prestou à Pátria?

E pode o PS, “castelo” que ajudei a construir e de onde só sairei à força, promover tão deploráveis comportamentos?

Sem desviar um só milímetro a rota do meu navio, até porque a lista de que fui mandatário obteve recentemente 40% de votos, contra a tendência instalada, gritarei bem alto enquanto puder: NÃO!

Maximino Serra 1935 – 2022

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