Morreu um herói !

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reunião de amigos com Maximino Serra (à direita na foto)

Em 10 de Maio deste mesmo ano, perguntava eu em “Duas Linhas”, num “post” que atingiu quase duas mil visualizações e mereceu dezenas de partilhas e centenas de comentários, quem era Maximino Serra.

Quase desconhecido das populações, Maximino Serra era o irmão mais novo do mítico Manuel Serra, e, inegavelmente, “o maior herói da resistência antifascista ainda vivo”. E, tal como então também escrevi, era “um patriota com sólidas e íntegras credenciais, exibidas até à exaustão, durante mais de 70 anos de luta tenaz e constante pelos valores da liberdade e da democracia”.

Pouco mais do que adolescente, Maximino Serra já se distinguia pela coragem com que se entregava à luta contra a ditadura, tendo visto cair companheiros anónimos, a seu lado, durante o desastrado assalto de Varela Gomes ao Quartel de Beja, em 1961. 

Referenciado pela PIDE, traído por “amigos” e sem apoios, ainda assim logrou refugiar-se durante mais de um ano na Embaixada do Brasil, até sair clandestinamente de Portugal para um acidentado desterro em Marrocos e Argélia. Tendo acompanhado de perto Humberto Delgado, de quem se tornou íntimo, só não conseguiu evitar o seu assassinato porque o general desprezou os seus avisos.

Uma “lenda incontestável” a sua, que sempre seria motivo de honra para um PS fiel às suas raízes, mas que não evitou que “fosse expurgado do seu Partido de sempre”, em abril de 2022. Quem sabe se no termo de alguma “paródia” comemorativa da Revolução dos Cravos?

Condenado por um “crime de lesa-PS”, ao preencher o último lugar de uma lista autárquica independente, Maximino Serra viu-se liminarmente afastado por “ilustres socialistas a quem nenhuma obra notável se conhece”. E tendo ajudado a erguer um Partido assente no sagrado princípio “unidade sim e unicidade não”, até o direito a defender-se lhe foi negado.

Tão pidesco comportamento mereceu a veemente condenação de algumas vozes ainda não silenciadas dentro do PS, como Manuel Alegre e Ana Gomes. Há dias, semanas depois de ter prestado uma gravação ao jornalista Carlos Narciso, Maximino Serra comunicou-me que a sua “expulsão” havia sido revertida. E assim me libertou do “juramento” que lhe havia feito e que publiquei em “Duas Linhas”.

Vítima de infeção respiratória súbita, Maximino Serra faleceu esta semana numa Unidade Hospitalar do interior, na sequência de um curto internamento. Numa altura em que os Serviços de Urgência não são “locais recomendáveis”, e devido a tão inesperado desenlace, perdurará para sempre a dúvida sobre a eficácia e prontidão dos cuidados assistenciais que lhe foram dirigidos. Terá sido mais uma das vítimas da degradação do nosso SNS?

Sem poder, por incapacidade motora, assistir às suas exéquias, resta-me o conforto de saber que amigos comuns fazem questão de cobrir a sua urna com uma velha bandeira do PS, que ele guardava como relíquia. Enterrada a bandeira, que não os seus ideais, também a sua família terá merecido as condolências de algumas ilustres figuras do nosso país.   

Descansa em paz, camarada e herói Maximino Serra! Que a tua chama inspire as novas gerações, rumo ao futuro mais justo e humano por que sempre te bateste.

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