A MINISTRA FEZ MAL EM SAIR

A ministra da Saúde caiu numa esparrela da política. Tal como na queda física de há dias, à porta do Ministério, Marta não se magoou exceto, talvez, no ego. Cair em público tem sempre algo de embaraçoso.

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A maioria das pessoas gosta do SNS e quer que esse serviço permaneça público, gratuito, universal. E que seja sempre cada vez melhor, evidentemente.

O drama do SNS é a luta encarniçada que o setor privado lhe move. Os grandes grupos capitalistas que ganham milhões a vender tratamentos médicos e afins, em boa parte através de contratos com o Estado.

O que esses grupos fazem é aliciar médicos e enfermeiros, com mais três moedas por mês, retirando recursos humanos ao SNS para que o sistema falhe. No dia em que os privados, finalmente, conseguirem abocanhar todo o setor da saúde, os médicos e enfermeiros escusam de pensar em melhorias das suas condições de trabalho e de vida. É o capitalismo, a exploração laboral corre-lhe pelas veias.

A saída de Marta Temido é de lamentar. Era uma ministra carismática, humanista. Faltou-lhe um pouco da resiliência que, um dia, chegou a reclamar dos médicos. As falhas do sistema são de lamentar, mas pontuais. Só a exposição mediática lhes deu maior dimensão.

A rede pública hospitalar tem âmbito nacional, são centenas de hospitais. Com dezenas de milhar de médicos e centenas de milhar de enfermeiros. Nas televisões, os estafados dramas ocorrem sempre no Amadora-Sintra ou no Beatriz Ângelo, nas periferias de Lisboa. Hospitais que atendem milhares de utentes diariamente. A percentagem de falhanços deve ser irrisória. Mas por cada um, o drama particular evolui nas pantalhas e torna-se paradigma do sistema. Uma mentira.

A vida não tem preço, é evidente, mas o juramento de Hipócrates é feito por médicos que, agora, pedem escusa de responsabilidades. Quando alguém morre porque em determinado hospital lhe foi recusado atendimento, a Polícia Judiciária devia tomar conta do assunto.

E há a questão da formação dos médicos. Um médico leva anos a ser formado. Pelo menos, sete anos. E os médicos especialistas demoram mais dois ou três até lá chegar. Isto obriga a um investimento contínuo na formação. Quando se desinveste, os efeitos só surgem mais de uma década depois. Até aqui, as escolas de medicina têm reservado lugares para as elites. No privado, para as elites endinheiradas. No público, para as elites académicas que, no fundo, vêm das elites endinheiradas.

A ministra desistiu. Fez mal. O problema não vai desaparecer com ela. Deveria ser ela a acabar com o problema.

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