Um País maravilhoso em chamas

A crónica estava escrita. Era sobre as férias e a viagem entre Mora e Chaves pela Nacional 2, uma das estradas mais famosas pela sua beleza, já bem conhecida de turistas estrangeiros. Um percurso absolutamente maravilhoso no início de Agosto. Todavia, os fogos recentes fizeram repensar este texto.

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Vivo – vivemos – num País maravilhoso, extraordinário, rico de paisagens, de gentes e de boa comida. Naquela altura, não havia incêndios nem terra queimada, apesar do horror dos fogos que o País já tinha vivido.

Na N2 foram quilómetros de estrada ladeada de árvores e morros, sem ver outros carros e gente. Nem mesmo quando o caminho se perdia havia alguém a quem pedir uma informação. O calor, muito, afastava as pessoas das estradas e só se encontrava alguém na protecção de um café ou restaurante, perdidos em nenhures. E mesmo assim…

Na Sertã, apesar de haver muita gente, certamente vinda para visitar a família nesta época do ano, tudo limpo. O Hotel Convento quase ‘obrigava’ a ficar ali mais tempo. Um edifício bem recuperado e que, ao acordar, a paisagem dava a calma e a serenidade que se merecem em férias.

Foram quilómetros a pé para ver a Ponte Filipina, em Pedrógão Pequeno. E muitas caminhadas para ver outros pequenos recantos.

Na Casa de Santa Marta de Penaguião, um agroturismo fantástico, com uma recuperação que ultrapassa todas as expectativas, houve duas pernoitas, já que o caminho para Chaves era de ida e volta.

Sta. Marta de Penaguião

Sim, Chaves é suposto ser o início da viagem da Nacional 2. Todas as pessoas diziam que esta viagem estava a ser feita ao contrário, já que, habitualmente, o percurso da N2 se faz de Norte para Sul.

Chaves é uma cidade antiga, limpa, com algumas obras de recuperação e os inevitáveis pastéis. E até podem comprar-se congelados e comer seja quando for, para matar saudades.

Chaves

Agora, no momento em que escrevo, ouço nas notícias que as zonas em volta de Vila Real, sobretudo na Serra do Alvão, e Samardã estão a arder. Em Vilarinho de Samardã, há duas semanas, vi a casa onde Camilo Castelo Branco, em palavras suas, passou ‘os dias mais felizes da sua infância’.

Casa de Camilo Castelo Branco

Nas férias a desilusão foi no Vidago. Não se podem ver as nascentes, nem tão pouco assomar à entrada do hotel. E permanecer no recinto tem o limite temporal de meia hora…

Na ‘descida’, o inevitável Pinhão. Uma tristeza. Obras e mais obras, tudo fechado às 19 horas. Gente que queria ver os azulejos da estação, tomar um café, comer um gelado, beber um Vinho do Porto. Nada! Tudo fechado.

Pinhão

Da paisagem fabulosa que tive, espero que tenha escapado S. Leonardo da Galafura, um lugar único. Lá está o texto de Torga na parede da capela. E lá está, claro, a capela. Surpresa é o facto de uma parte estar transformada em armazém de bebidas.

S. Leonardo de Galafura

Aos pés do viajante está o Douro, sempre o Rio a acompanhar esta parte da viagem. E as vinhas, os socalcos, as encostas íngremes onde gerações trabalharam e continuam na labuta pelos vinhos e alguma agricultura de subsistência.

Curiosamente, em quase todos os locais onde passámos o comentário cingia-se a ‘este país maravilhoso’ e, no interior, geralmente bem-tratado e recuperado, é de apreciar, por exemplo, S. João da Pesqueira, o município do Alto Douro Vinhateiro que possui a maior área classificada como Património Mundial pela Unesco.

Agora, resta a terra queimada, as vinhas com uvas passadas pelo calor e a falta de água. Resta a esperança…

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