FUTEBOL SOBRE VALAS COMUNS

O Mundial de futebol que se vai disputar no Qatar está inquinado pela exploração laboral e injustiça social, assim como os morangos, alfaces e mirtilos das estufas de Odemira.

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Há dias, cerca de 200 trabalhadores migrantes manifestaram-se nas ruas de Doha, em protesto contra sete meses de salários em atraso. Todos eles são operários contratados para a construção de estádios de futebol e outras infraestruturas ligadas ao evento.

Segundo informações do Governo do Qatar, 60 manifestantes foram detidos e expulsos. As autoridades do país dizem que os salários foram pagos, antes da expulsão.

Quando alguma estrela do futebol mundial cair no relvado de um desses estádios, talvez a relva lhe cheira aos 6.500 operários que morreram na última década na construção dessas infraestruturas. Ou talvez consiga sentir o cheiro do suor mal pago, traficado, explorado a troco de uma malga de sopa, dos trabalhadores que sobreviveram a tantos sacrifícios.

Segundo o jornal Guardian, “mais de 6.500 trabalhadores migrantes da Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka morreram no Qatar” na construção dos estádios de futebol. O jornal admite que os números poderão ser mais altos ainda. A soma resulta das informações provenientes das embaixadas desses países em Doha, a capital do Qatar.

Dados da Índia, Bangladesh, Nepal e Sri Lanka revelaram que houve 5.927 mortes de trabalhadores migrantes no período 2011-2020. Separadamente, dados da embaixada do Paquistão no Qatar reportaram mais 824 mortes de trabalhadores paquistaneses, entre 2010 e 2020. Uma média de 12 trabalhadores migrantes mortos por semana, desde 2010.

Isto não deveria deixar ninguém indiferente. Um jogo de futebol, um espetáculo de futebol, como lhe queiram chamar, não pode resultar num negócio de tamanha exploração.

E a coisa não se resume à construção civil. Organizações de direitos humanos afirmam que em vários setores ligados à organização do campeonato, há trabalho sem direito a folga e com uma carga de 60 horas semanais de trabalho. Violações significativas de direitos humanos e laborais foram denunciadas, por exemplo, em julho, em 13 grupos hoteleiros parceiros da FIFA.

A ONG Equidem, com sede em Londres, publicou um relatório sobre o que se passa no Qatar. ”Trabalhamos como robots” é o título dessa denúncia.

Denuncias repetidas ao longo do tempo, perante a indiferença das organizações do futebol e da política. Já em 2015, o escândalo que levou à deposição de Blatter da liderança da FIFA esteve ligado à corrupção que minava o futebol e à promiscuidade com os políticos. Vejam a reportagem dessa época, exibida num canal de televisão de Angola:

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