A ingenuidade feita Arte!

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Teve o saudoso Nuno Lima de Carvalho a sensibilidade bastante para alcandorar a tema artístico o que pessoas sem escola nas Artes se entretinham a fazer. Pintavam cenas do dia-a-dia, as paisagens do seu quotidiano, agora uma seara, depois um jardim florido, depois um casebre… Nunca, porém, essas paisagens ou esses jardins estavam sós, que necessidade havia de homem ou mulher ou gente estar ali, como que a mostrar ser bonita a Natureza, sim, mas é o Homem que lhe empresta essa beleza, ou melhor, é para o Homem que essa Beleza existe!

Houve, ainda no antigo regime, um grupo de pintores que, nas proximidades da Torre de Belém, se entregavam à tarefa de pintarem ali ao ar livre e de mostrarem as suas pinturas. Foram os «Pintores de Domingo». Nessa ideia agarrou Nuno Lima de Carvalho e, em 1980, trouxe a pintura naïf para a galeria do Casino Estoril.

«Naïf» assim continuou a chamar-se, como se o adjectivo francês, que significa «ingénuo», «inocente», não tivesse feminino e a pintura deveria ser «naïve», por ser feminina. Mas, neste caso, o hábito fez o monge e ninguém já repara na incongruência.

Como também, ao observarmos esses quadros, com incongruências não nos ralamos, porque até dizemos «em pequenino eu também pintava assim, os homens maiores que as montanhas, as árvores mais pequeninas que eu». Nesta ingenuidade, o que conta mais é a esfusiante alegria da cor, que se derrama generosamente, em mãos largas…

Proporções – para quê? O pintor é livre e as flores são mesmo para se esbanjarem na tela – que de escuridões, cinzentos e negros já nos basta o que nos impingem e nem gostaríamos de ver.

Tempo é, pois, de – desde 30 de Julho até 12 de Setembro (o Verão quase todo!…) – dar uma saltada à galeria do Casino Estoril, para se inebriar de luz e cor.

Este 41º Salão Internacional de Pintura Naïf conta com obras de 19 autores: A. Réu, Alcindo Barbosa, António Poteiro, Arménio Ferreira, Bento Sargento, Conceição Lopes, Crucianu, Dulce Ventura, Edna de Araraquara, Elza Filipa, Fernanda Azevedo, Gutemberg Coelho, Isabelino Coelho, Jorge Serafim, Josep Mir, Manuel Castro, Maria Tereza, Richard Smith e Zé Cordeiro.

Transcreve-se no catálogo a opinião do crítico espanhol Tomás Paredes:

«Os artistas ingénuos (naïfs) estão longe das academias e dos seus códigos, mas não da sabedoria; distantes da chamada arte culta, mas encontram-se no coração, no âmago da própria Cultura; longe das especulações intelectuais, mas não afastados da emoção profunda e incorruptível da gente simples. São profundamente verdadeiros, visceralmente humanos».

            E é verdade!

1 COMENTÁRIO

  1. Gosto muito de pintura naïf, seja o que for que o conceito queira abranger. Também Chagall se poderia considerar, além de surrealista (e outros rótulos) um bocadinho naïf no seu lirismo tocante… Neste texto José d´Encarnação, sempre atento à vida cultural do concelho, faz justiça à coragem e sensibilidade artística de Nuno Lima de Carvalho. Afinal trouxe a uma galeria conceituada nomes de artistas ainda não conhecidos do público e deu estatuto de verdadeira Arte a trabalhos de grande simplicidade (autenticidade, como sugere o crítico espanhol no catálogo da exposição) saídos das mãos e do talento de autodidactas que pintam as emoções puras. Foram e continuam a ser muitos. Espero apreciar os que integram esta exposição, agradecendo a informação constante desta crónica.

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