A ARMADILHA DOS FOGÕES A GÁS

Estamos a assistir a uma partida de póker. Os jogadores têm ainda alguns ases escondidos e todos fazem bluff para tentar enganar o adversário. Nem sempre vence quem tem as melhores cartas.

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O gás vai aumentar. Provavelmente vai aumentar bastante. Na União Europeia, os Estados membros não conseguem um acordo para aprovar a proposta da Comissão Europeia para uma redução no consumo de gás. Há seis países contra, um deles Portugal.

Se não for possível reduzir o consumo de gás por decreto, os sempre atentos especuladores bolsistas não irão perder a oportunidade de especular. Os preços vão subir. Talvez então o consumo seja reduzido. Muita gente irá abandonar os eletrodomésticos a gás, isso é certo. A indústria não irá conseguir adaptar-se tão rapidamente. Para o consumidor individual, basta ir à Worten ou à Rádio Popular e comprar uma placa elétrica de indução. As mais baratas custam menos de 400 €. Mesmo sem o gás aumentar, é um investimento interessante em termos de economia familiar.

Quantos ases tem a Rússia?

O boicote ao gás russo e a redução do consumo vão ser discutidas e votadas no próximo Conselho Europeu, agendado para terça-feira, 26 de julho. Para já, tendo em conta o número de países que se declararam contra, não existe a maioria qualificada necessária para que a proposta seja aprovada.

Neste momento, a Rússia tem o gasoduto que abastece a Europa no mínimo. Depois de trabalhos de manutenção, argumenta com razões de ordem técnica para não abrir a torneira por completo. Provavelmente, Putin está a jogar aqui um dos seus ases de trunfo. É provável que, se a Europa abrandasse o regime de sanções à Rússia ditado pelos EUA, os problemas com o gasoduto seriam resolvidos em 15 dias.

Dona Ursula diz que “a Rússia está a chantagear-nos e a usar a energia como arma.” Tem razão, a senhora. Mas ela estava à espera de quê, quando decidiu levar a União Europeia para a senda do conflito? A alternativa que apresenta é a importação do gás dos EUA, em navios tanque. Mais caro, menos eficiente, em caso de alargamento do conflito, uma linha de abastecimento frágil.

Quantos ases tem Portugal?

Portugal, Espanha, Grécia, Chipre, Polónia e Hungria formam o grupo de países que já anunciaram que irão rejeitar a proposta. É um número suficiente para a não aprovação. Mas pode ser tudo fogo de vista. Estamos habituados a ver os políticos capitular quando pressionados pelos chefes da EU, NATO e EUA. E sabemos como os políticos se preocupam em acautelar o seu futuro.

No caso de Portugal, por exemplo, é a oportunidade perfeita para exigir uma maior utilização do Porto de Sines, seja na importação de combustíveis, seja nos produtos a granel ou contentorizados. Sines tem essa capacidade, mas a infraestrutura tem sido preterida em benefício dos portos do centro e norte da Europa.

António Costa lembrou que Portugal tem sido solidário com o bloco europeu ao reforçar a capacidade de transbordo, no Porto de Sines, de navios que transportem gás natural liquefeito (GNL) para os países mais dependentes.

“A resposta que temos de dar não é racionamento, mas acelerar a capacidade de produção de energias renováveis para a Europa depender de si própria e não de outros”, disse o primeiro-ministro português.

Quantos ases têm outros Estados membros da UE?

A Grécia, por exemplo, depende em 40% do gás russo e, ao contrário de outros países, ainda não viu nenhuma interrupção no fornecimento. Para a Grécia, não faz sentido sancionar o fornecedor que tem sido cumpridor.

No caso de Chipre, o país nem sequer está ligado à rede de gás natural europeia.

A Hungria, em vez de cortar 15% já assinou contrato com a Rússia para comprar mais 700 milhões de metros cúbicos suplementares de gás natural, “mais do que a quantidade prevista no contrato de longo prazo”, anunciou o ministro dos Negócios Estrangeiros do país, Peter Szijjarto.

A Polónia ainda não disse se vota a favor ou contra, mas também está a jogar com contrapartidas que a beneficiarão, caso decida votar a favor.

Até ao momento, só a Alemanha, Dinamarca, o Luxemburgo e os Países Baixos manifestaram um apoio publico à medida do executivo comunitário.

Na próxima terça-feira, 26 de julho, a proposta será então votada, e caso seja aprovada, deverá entrar em vigor a 1 de agosto, até 31 de março de 2023. Se as negociações de bastidores que decorrem neste momento não derem resultado, a proposta deverá contar com, pelo menos, seis votos contra — Portugal, Espanha, Itália, Hungria, Polónia e Grécia –, o que resultaria em 21 votos a favor, isto é, apenas 60% da população do bloco. Não é suficiente para ser aprovada.

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