Sem salsa

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A fome é amiga do desalento, nunca pensamos a direito com o estômago vazio. Assim estava, por isso fui ao super-mercado. Tomate para a salada, alho francês e alhos portugueses, cebola, azeite, ovos, no armário a batata palha reservada. Tenho uma garrafa de vinho tinto que me ofereceram mas não vou abri-la, o álcool é ainda maior amigo do desalento. Escrevi-lhe ontem ao final dia, não leu as mensagens. Pode haver mil razões para não as ter lido mas fiquei tão desanimada.

Começo então a cortar o alho francês às rodelas mas sem tristeza, tem de se cozinhar com amor. Convido o Nick Cave para jantar, Murder Ballads é o prato forte. Embala-me a sua poesia sobre a morte, poucos conseguem fazer dela algo belo e reconfortante.

À medida que soltei com os dedos as argolas do alho francês, desembaracei-me um pouco do tal amor não correspondido. Azeite, alhos esmagados, lume brando e sente-se o cheiro a refogado, a casa torna-se num lar. Mexo com a colher de pau, sou uma defensora intransigente desta companheira do tacho. Lembro-me outra vez dele, vou ao portátil, não leu nenhuma mensagem.

Uma menina bonitinha não lhe diria mais nada, mas nunca fui muito atinadinha. Envio um sms quando tudo estiver no tacho, é isso. Decido também beber um copo de vinho.  Apenas um, para dar algum aconchego mas retraio-me. Ainda não é altura.

Faço a salada de tomate, a cor lembra-me o quão hot foram as vezes que estivemos juntos, as deliciosas conversas no Messenger até eu…estragar tudo. Ai! Por pouco não cortava um dedo! Atenção, muita atenção, não há nada de hot no vermelho do sangue.

Foquei-me, peguei na batata palha destinada a um bacalhau à brás para a querida amiga Alex, em Brighton. Tentei e tentei mas não consegui levá-la comigo. Sou uma desgraça a fazer malas, ponho tudo lá dentro, depois só uso meia dúzia de coisas. Não houve lugar para as duas embalagens de batata palha, não houve bacalhau à brás, mas houve tudo o resto. Querida Alex, sempre a mostrar-me que a vida pode mudar a qualquer momento, é preciso é ter coragem.

Juntei as cebolas, depois de ficarem branquinhas enfiei lá para dentro o alho francês. Não encontrei a tampa do tacho, procurei e procurei, dei de caras com a outra, a que tapa há muito o refogado esturricado que, mesmo assim, insisto em mexer com a colher de pau. Tem de ir para o lixo, tenho definitivamente de me levantar de uma mesa onde o sexo e o carinho há muito que não são servidos. Mesmo assim vejo que ele continua online. Desligo o chat, faço delete à história com final infeliz. Pronto, já está. Eu primeiro.

Com tudo isto ia-me esquecendo do sal, pouco, a batata palha já o traz a reboque. Uma pitada apenas e vem logo ao de cima o sabor dos ingredientes, das emoções. O sal implica contenção.

Para celebrar a coragem que já devia ter tido há cinco meses abro a tal garrafa, decanto um pouco e leio o rótulo. É alentejano, herdade “Anta de Cima”. É isso, para cima, mas com a dor arrastada do Nick Cave.

O tacho enche-se de batata palha, é preciso deixar abater, tornar pequena uma coisa que parece ser tão grande. Ainda bem que abri o vinho, mas dali não saiu grande alegria.

Oiço “Deadh it’s not the end” e engulo em seco. Engulo outro copo de vinho. Pego no telemóvel, decido enviar um sms a dizer “mimo precisa-se”. Mas não ao esturricado, não, ao outro que me deseja, tanto que nem consegue tomar uma iniciativa. Não deixa de ter o seu charme.

Diz que vem. Acrescento os ovos batidos e mexo tudo. Falta salsa, esqueci-me de comprar, falta o amor que não sinto por este. Mas há muito carinho por aqui e atiro coentros para o tacho a olho. O Nick Cave vai-se embora, é a vez dos Rolling Stones se sentarem à mesa. “You can’t always get what you want, but if you try sometime, you’ll find what you need”. Oiço a música em repeat enquanto passo um risco preto pelos olhos. Escolho um vestido simples, ponho a tocar um dub simpático. O vinho sabe bem, tão bem, precisávamos ambos de respirar. O jantar está pronto. Não há salsa, paciência, coentros não faltam.

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