ISTO É GOZAR COM QUEM FAZ GUERRA

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Ricardo Araújo Pereira arrisca muitas vezes pisar terrenos perigosos quando ensaia as suas piadas. No último programa, foi até à guerra na Ucrânia.

Contar piadas à conta de uma guerra não é fácil, a coisa pode resvalar para o mau gosto. Muito antes de RAP já Raúl Solnado tinha ido à guerra, num sketch de humor muito bem conseguido.

“A Guerra” de Raúl Solnado pisou os palcos nos anos 60 quando Portugal estava, de facto, em guerra nas colónias da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Mesmo se o texto não falava da guerra colonial, a relação era indisfarçável. Mas passou na censura e foi um êxito durante muitos anos.

RAP não tem os problemas da censura regimental, mas tem a censura da opinião pública. E nestes tempos em que se tenta calar todos os que não vão à missa com o presidente da Ucrânia, brincar com a guerra pode até ser perigoso.

Mas teve imensa graça, principalmente quando RAP se socorreu do vídeo em que os militares portugueses mostravam ao ministro da ocasião uma nova arma do seu arsenal…

“Estamos convosco, mas a única maneira de vos ajudarmos é enviar armas para a Rússia”. Sarcasmo supremo. Ainda assim, RAP sentiu-se na obrigação de dizer várias vezes, “atenção, não estou a defender o Putin”.

RAP tenta fazer piadas com subtileza, não utiliza o palavrão. Faz crítica política bastante assertiva, neste programa o PCP deve ter ficado com um olho negro e a coxear de uma perna… a Tonta da Paz ainda agora deve estar a gemer de raiva.

Um dos truques do programa “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” é o recurso a imagens das próprias “vítimas”. E, neste caso, a vítima foi mesmo o PCP. Acaba por ser fácil fazer piadas sobre o PCP, partido que sustenta uma posição contrária à corrente dominante de condenação apriorística e absoluta da invasão russa.

O programa funciona como uma espécie de revista da atualidade semanal. A bengala funcional de RAP é a informação noticiosa diária. Um manancial inesgotável. Mas é também a fonte das críticas (principalmente dos visados). Ou seja, Ricardo congrega ódios de estimação. Mas, este é um programa que pode durar séculos. Desde que RAP deixe descendência, é claro.

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